Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre educação, cultura e televisão, as realizações da Fundação Roberto Marinho, entre outros assuntos.


O patrimônio cultural na comunicação de massa

Este é um privilégio com que não se tem o direito de sonhar. E eis que é todo realidade: no majestoso cenário de Siena, aqui estamos a ouvir, a ver e a conviver com altas expressões da cultura e da comunicação.

Siena é o doce país da Toscana. Toscana é a bela Itália. A Itália é o Mediterrâneo, o mar da história. O mare nostrum dos romanos, o mar de antes dos romanos. O mar fundador de civilizações que vêm do princípio dos tempos. Aqui estamos na mais fecunda e original nascente de um mundo que vem da Grécia, precede a Grécia e é herdeiro da Grécia. Suma das civilizações, aqui está a soma da antiga Roma, da Roma pagã e da Roma cristã — a Roma eterna.

Testemunha e protagonista de uma longa trajetória, Siena é um marco multissecular da humanidade. Todas as artes aqui encontram um eco e aqui buscam uma inspiração. Com sua velha universidade, Siena é o próprio Ocidente e por isso é universal.

Será sempre impossível pisar este nobre solo de Siena sem fazer a exaltação de um opulento passado que guarda o que o espírito humano pôde criar de mais alto e de mais refinado.

Por isso estamos em Siena para refletir sobre o presente e, na medida do possível, desvendar o papel que cabe no futuro aos meios de comunicação. Nada caracteriza mais o nosso tempo do que o prodígio eletrônico que anula as distâncias e subverte a noção do próprio tempo.

Vimos a Siena revigorar a certeza de que a ciência e a técnica devem estar a serviço do homem, de seus perenes ideais na marcha da civilização.

O passado e o futuro. A televisão e o patrimônio artístico. Siena aproxima com naturalidade o que parece opor- se como dois contrários. Sendo um processo, a cultura é um permanente esforço de transformação, que enriquece o patrimônio comum da humanidade.

Democratizar a cultura não significa negá-la, nem implica jamais agredi-la. Como a Europa, como a Itália, Siena dá-nos um exemplo de vitalidade que se fortalece na tradição, porque lições do passado ajudam a abrir o horizonte do futuro.

O Velho e o Novo Mundo, a Europa e a América, a Itália e o Brasil: são numerosos os laços que nos unem. Numerosos e estreitos. Os descobrimentos se nutriram no Renascimento. Somos elos da mesma corrente cultural. Italianos e brasileiros temos no latim a nossa matriz lingüística. Falamos e escrevemos línguas fraternalmente românicas.

Inspirado na Contra - Reforma, o barroco primeiro floresceu na Itália. Transplantado para a América Latina, adaptado ao novo meio, o barroco é responsável pelo que há de mais rico, de mais original e de mais numeroso no passado cultural do Brasil.

Profundas afinidades se afirmam na mesma exuberância de formas que se exprimem em personalidades marcadamente distintas e autônomas. As mesmas raízes podem dar frutos diversos, segundo a terra em que mergulhem e que as alimente. A cultura não se reproduz em série, o que é uma garantia de que todos, em todas as latitudes, oriundos de tempos diferentes, podemos contribuir para o patrimônio comum da humanidade. A nota local não se anula, tanto quanto não se eliminam os revitalizantes fermentos de um novo meio.

Favorecidos por um vertiginoso progresso tecnológico, os meios de comunicação social configuram o nosso tempo e dele são inseparáveis. Seria uma quimera ignorá-los, ou pretender negar a contribuição que nos trazem a todos, neste final de século. O rádio e a televisão, em particular, podem e devem prestigiar as conquistas comuns da humanidade, assim como acentuar a fisionomia peculiar de cada povo.

A missão dos meios de comunicação de massa não é, com efeito, meramente quantitativa. Seu objetivo não é a uniformidade, mas a pluralidade. Não devem buscar o monólogo, mas, sim, o diálogo.

A popularidade não passa obrigatoriamente pela vulgaridade. Democratizar a cultura, ampliar-lhe o acesso ao maior número possível, não significa rebaixar padrões sociais e morais ao nível do desrespeito que explora a ignorância e a boa-fé do grande público. A experiência nos assegura que o povo aceita, prefere e prestigia a qualidade. Aos meios de comunicação cumpre assim estimular-lhe a criatividade e ampará-lo no seu anseio de progresso harmonioso, que concilie os valores permanentes com o justo desejo de geral aprimoramento.

Espero que este encontro lhes tenha dado uma notícia, ainda que sumária, do que temos feito no Brasil em favor do patrimônio artístico e cultural, com o indispensável apoio da televisão. Somos um país de dimensões continentais, distribuído entre regiões distantes e distintas, ainda que indissoluvelmente ligadas por uma quase milagrosa unidade nacional. A era eletrônica veio fortalecer e aprofundar essa unidade. Mais ou menos como em toda parte, o rádio e a televisão no Brasil são hoje onipresentes. Constituem um traço de união e contribuem, decisivamente, para a integração nacional. Pelas características de nação em desenvolvimento, será lícito dizer que entre nós a cultura de massa vem conseguindo servir à massa, sem desservir à cultura, desde que tenhamos bem presente a consciência da responsabilidade moral e social dos meios de comunicação.

Nessa perspectiva, a televisão deve estar a serviço dos bens culturais, como pode ser — e é —, em si mesma, um bem cultural.

Em toda a América, tanto do Sul quanto do Norte, a Itália é uma presença que enriquece a personalidade e a cultura do Novo Mundo. No Brasil, essa presença é inseparável de nossa realidade e de nossa história. Nas artes, nas letras, nas ciências, nas profissões liberais, no comércio, na agricultura, na indústria — por toda parte e em todos os setores da atividade humana pulsa, entre nós, o inconfundível toque da contribuição italiana.

É também graças a essa contribuição que foi possível criar o maior centro industrial da latitude tropical e uma das maiores e mais dinâmicas cidades do mundo — São Paulo. Siena e São Paulo aqui se confraternizam, na certeza que todos partilhamos, italianos e brasileiros inclusive, de que o futuro se inspira no passado e de que só há progresso aí onde se honra a cultura, como um bem de toda a humanidade, e que a todos os homens deve ser levada.

Esta é a missão de que desejamos orgulhar-nos.

 

Roberto Marinho. Discurso no recebimento do Prêmio Itália. Siena, 18/09/1981