Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre quatro grandes personalidades brasileiras: Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Luís Carlos Prestes e Jânio Quadros.


Carlos Lacerda

O Globo, 22/05/1977, p. 1. Arquivo / Agência O GloboCarlos Lacerda marcou a nossa época, dando-lhe as dimensões do seu talento, da sua combatividade e da sua singular capacidade de mobilizar a opinião pública em prol dos ideais que agressivamente defendeu no curso da sua existência.

Possuidor de uma natureza voltada para a atividade intelectual, apreendia com espantoso poder de assimilação o que aflorava na cultura do seu tempo, selecionando com aguda sensibilidade o que lhe parecia realmente importante.

Simultaneamente, foi um combativo homem de ação, que se entregava sem limites e sem medida às campanhas que empreendia, arriscando-se a pagar o preço da imprudência que foi ora a contradição, ora o arrependimento por injustiças que mais tarde alegaria não ter premeditado.

Em decorrência desse temperamento em que disputavam prevalência o pensador, o artista e o combatente sem par da tribuna parlamentar e das ruas, teria de ser por longo tempo uma presença constante na vida do país, atraindo a juventude para o debate dos problemas nacionais e se mantendo cercado por inúmeros companheiros e seguidores que, todavia, raramente eram os mesmos, ao longo de sua carreira.

Como estava continuamente adotando rumos novos e, às vezes, completamente inesperados, que nem sempre se apresentavam coincidentes com os interesses da nação, não hesitava em agredir aqueles que não concordavam integralmente com os seus propósitos, mesmo que se tratasse de amigos cuja ausência iria criar um vazio fatal para o êxito dos seus desígnios. Por outro lado, não via empecilhos para retomar o diálogo com antigos e ferrenhos opositores, aturdindo a opinião nacional e os amigos fiéis que lhe restavam.

Por todos estes motivos, foi o mais cruel adversário de si mesmo. Só um homem poderia ter evitado que Carlos Lacerda assumisse maiores responsabilidades no comando político do país, no cumprimento da missão construtiva que poderia ter realizado em benefício do Brasil: ele próprio.

Recordamos com orgulho a sua presença na Rádio Globo, nos idos de 54, numa pregação contra os hábitos ditatoriais e a corrupção, que contribuiu para fixar na consciência nacional o compromisso de fidelidade aos ideais democráticos que nos conduziu afinal ao movimento de 1964.

Infelizmente, afastamo-nos por divergências políticas, relacionadas com a sucessão presidencial, embora, por força do seu turbilhonante temperamento, tenha procurado emprestar outra feição ao nosso desentendimento.

Neste momento, esquecidos quaisquer agravos e sofrendo o impacto do seu súbito desaparecimento, lamentamos que Carlos Lacerda, por efeito da incoercível tendência demolidora em que se desvirtuava o seu espírito de luta e combatividade, tenha privado o país de uma realização administrativa e política à altura de suas excepcionais qualidades.

 

Roberto Marinho. O Globo, 22/05/1977