Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


A hora da compreensão

O Globo, 06/04/1962, p. 3. Arquivo / Agência O GloboMal informados por jornalistas que procuram, na competição de todo dia, vencer pelo sensacionalismo e pela divulgação do exótico e do negativo, muitos norte-americanos, que se sacrificam no seu bem-estar, em favor dos povos em dificuldades, têm uma visão deformada do Brasil e não percebem o esforço que aqui se está realizando para isolar os extremos, a fim de que prevaleça a democracia e se mantenha esta nação ao lado do mundo ocidental.

Há tempos, num almoço em homenagem a William Randolph Hearst Jr., denunciei a existência do “muro do silêncio” com que a imprensa norte-americana cercava o Brasil. Respondeu-me aquele ilustre homem de imprensa, nobremente, reconhecendo o acerto das minhas palavras e prometendo o que mais tarde cumpriu, que através de seus jornais tudo faria para destruir aquela barreira.

Vimos, recentemente, com grande mágoa, através de correspondências e de artigos da imprensa norte-americana, que até hoje não foi compreendido como o Brasil tem sido posto à prova nos seus sentimentos de fidelidade à democracia e à legalidade, depois que um presidente da República, eleito por margem de votos jamais igualada, e de cuja ação administrativa muito se esperava, renunciou, inesperada e injustificavelmente, a um mandato ainda em início, por motivo que só pode ter origem em desequilíbrios emocionais, deixando o país à beira do caos.

Na ocasião, seu sucessor legal, o vice-presidente João Goulart, encontrava-se na China vermelha, chefiando missão de caráter oficial, e ponderáveis parcelas das forças militares temiam a sua ascensão à presidência, sentimento, esse, naqueles dias mesmo revigorado por telegrama vindo de Pequim informando que o sucessor legal de Jânio Quadros havia manifestado exagerada admiração pela China de Mao Tsé-tung, levando o seu entusiasmo ao ponto de declarar que o Brasil seria o próximo país a ser comunizado.

O Brasil esteve às portas da guerra civil. Em qualquer outro país, essa guerra civil teria sido inevitável. Mas os brasileiros souberam superar as circunstâncias pelo espírito de concórdia e pelo amadurecimento político, encontrando no sistema parlamentar uma solução de harmonia e de conciliação, pois limitava os poderes do presidente da República cuja investidura se temia. Deu o presidente João Goulart, nessa ocasião, a sua primeira demonstração de equilíbrio, pois, consultado, aceitou a fórmula que lhe limitava os poderes, declarando que o fazia para evitar o derramamento de sangue e para que o Brasil não se afastasse da ordem jurídica.

Posso revelar, neste ensejo, que estou seguramente informado de que o sr. João Goulart jamais pronunciou aquelas declarações que lhe foram atribuídas na China. Só tendo tomado conhecimento dessas declarações quando regressou ao Brasil, cm plena crise político-militar, achou o então vice- presidente João Goulart que um desmentido naquela ocasião poderia ser interpretado apenas como um recuo, além de parecer insincero.

Apesar do procedimento superior do presidente da República, dos partidos políticos e das forças armadas, é evidente que o país não estava preparado e nem desejava o regime parlamentarista, que foi uma solução momentânea muito feliz, mas que nos deixou a todos num estado de perplexidade.

Certos atos hoje ocorridos em nosso país não revelam, como pode parecer aos norte-americanos, uma guinada para a esquerda ou para a direita, mas são as conseqüências desse estado de perplexidade, que provocou um desentrosamento entre os diversos níveis administrativos, gerando impasses e dúvidas.

Não devem os norte-americanos emprestar significação maior às encampações, ultimamente verificadas, de companhias estrangeiras de serviços públicos. São companhias que prestaram excelentes serviços no passado, mas que hoje se acham completamente incapacitadas para atender às necessidades dos consumidores. Já foi explicado nos Estados Unidos que no Rio há quem esteja esperando quinze anos pela instalação de um telefone! Essa é uma realidade que temos de encarar corajosamente, para ela procurando uma solução, se possível global, que evite no futuro atritos como os que ora se verificam, com evidente desgaste da confiança que deve merecer o Brasil por parte dos investidores estrangeiros cujas atividades não relacionadas com os serviços públicos recebem entre nós tratamento que só os pode estimular.

Aliás, o decreto de intervenção federal na Companhia Telefônica, que fora dias antes encampada pelo governo da Guanabara, demonstra a preocupação do governo João Goulart de impedir que as companhias estrangeiras de serviço público sejam objeto de medidas unilaterais por parte de qualquer governo estadual.

A luta para o equilíbrio, contra os extremismos, está sendo vitoriosa, O país acha-se em pleno gozo de suas franquias constitucionais, e em completa tranqüilidade, e toda a nação participa do ideal do desenvolvimento econômico e do bem-estar social — justamente o objetivo da Aliança para o Progresso — considerando que só pela elevação do nível de vida do seu povo conseguiremos afastar o perigo da infiltração comunista, que sempre se beneficia do pauperismo e dos desajustamentos sociais.

Ajudem-nos os Estados Unidos com a Aliança para o Progresso. Mas ajudem-nos também, e principalmente, com compreensão e afeto, pois este país tem sido sempre um grande amigo e aliado dos Estados Unidos, e como amigo e aliado espera ser tratado pela grande república norte-americana.

Que não haja, da parte de jornais e de parlamentares dos Estados Unidos, ameaças de retirar-nos os auxílios da Aliança para o Progresso, quaisquer que sejam os motivos para isso alegados, colocando-nos em situação humilhante e transformando o nosso sentimento natural de solidariedade aos Estados Unidos em submissão ofensiva ao brio nacional.

O presidente João Goulart, que está visitando os Estados Unidos, deve ser recebido como o chefe de Estado de uma nação fortemente vinculada aos Estados Unidos pela amizade e pela identidade de ideais. E também como um líder popular brasileiro, graças ao qual os Estados Unidos poderão conquistar ainda maiores simpatias da grande massa trabalhadora brasileira, cujo bem-estar depende tanto dos nossos esforços quanto do êxito da Aliança para o Progresso. Abram os norte-americanos o coração ao presidente João Goulart. Representa ele neste momento setenta milhões de brasileiros.

 

Roberto Marinho. O Globo, 06/04/1962