A Noite

A Noite

Em 18 de julho de 1911, Irineu Marinho lançou um dos mais modernos jornais das primeiras décadas do século XX. Noticiosa, ágil, com linguagem acessível e ricamente ilustrada com fotografias, charges e caricaturas, A Noite conquistou imediatamente o público carioca.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Irineu Marinho, desenho de Seth (Álvaro Marins). Revista Selecta, 17/03/1917, nº 11. Acervo Fundação Biblioteca NacionalFundação de A Noite

Finalmente, o terceiro feito consistiu na fundação de A Noite, em 1911, com o que Irineu Marinho saltou da condição de membro da corporação de jornalistas para se tornar empresário do setor, aos 35 anos de idade, em meio à crise política do governo Hermes da Fonseca. A intenção de criar um novo jornal nasceu de conversas travadas na redação da Gazeta de Notícias, em que Irineu dizia querer dirigir seu trabalho ao Zé-Povo e fazê-lo sem subsídios governamentais. Seguiu-se breve período de reuniões, de captação de recursos e de preparação do novo periódico, durante o qual sua amizade com o jornalista Manoel de Oliveira Rocha, o Rochinha, diretor-presidente da Gazeta de Notícias, se mostrou decisiva. Irineu Marinho instalou as oficinas de seu jornal na rua do Carmo, onde funcionara A União, de propriedade do conde Sebastião Pinho. A redação, por sua vez, ocupará um sobrado situado no largo da Carioca, em cima da Leiteria e Sorveteria Rio Branco. Dali Irineu Marinho comandará uma das máquinas de transformação da imprensa brasileira.  

 

Companheiros

A história da fundação de A Noite, em 1911 , é a história de uma cumplicidade vivida por jornalistas da Gazeta de Notícias. E, nesse sentido, retraz aspectos da experiência gremista de Irineu Marinho, em que o projeto comum, as alianças, as dificuldades superadas em conjunto são o combustível dos grupos – tanto o juvenil quanto, agora, o grupo profissional. Afinal, a ideia dessa nova folha não partiu de empresários ou políticos interessados em afinar a comunicação com seus respectivos públicos-alvo; brotou das afinidades que se desenvolveram em uma dada redação de jornal, após muitas horas de trabalho conjunto, muita conversa e, talvez, alguns cafés. Sem subvenções governamentais, o “espírito autônomo” do empreendimento ficaria garantido, desde que houvesse anunciantes e que a atividade de seus membros mantivesse a venda unitária em patamar elevado e estável. O plano era arriscado, demandando muita dedicação e espírito de grupo.

 

O Faquir de A Noite

A maior campanha de A Noite, porém, aquela que se tornou, por muito tempo, uma lenda entre jornalistas brasileiros, foi a que pretendeu denunciar o charlatanismo, as ciências ocultas, os curandeiros, os quiromantes e outros tipos de adivinhos que, de acordo com o jornal, colonizavam a imaginação de todas as classes sociais no Rio de Janeiro. Contra isso, A Noite concebeu a famosa reportagem do faquir – publicada em 15 de novembro de 1915, com desdobramentos até pelo menos o início do ano seguinte. A produção da reportagem foi trabalhosa. Um mês antes da publicação da matéria, em meados do mês de outubro, foi preparado o cenário em que ela teria vigência. Primeiro, a equipe do jornal alugou uma casa na rua Evaristo da Veiga, na Lapa, para servir de consultório ao faquir hindu Djogui Harad. O personagem, Interpretado” pelo repórter Eustáquio Alves, foi caracterizado e maquiado pelo caricaturista Vasco Lima, que também decorou o ambiente e constituiu a equipe do faquir: um criado chamado João, um secretário e intérprete (vivido pelo repórter e fotógrafo J. Cfuri) que havia sido correspondente de A Noite na Turquia e no Egito) e um porteiro (Mario Lima, irmão de Vasco Lima), que faria o controle da entrada e saída dos consulentes. Durante um mês, o faquir terá atendido 385 clientes.

No dia 14 de dezembro, informada por repórteres de A Noite, a polícia “estourou” o consultório, levando toda a trupe para a delegacia. Do “estouro” participaram também os operadores do Cine Palais, que, a pedido de A Noite, registraram em película a prisão de Djogui Harad, isto é, de Eustáquio Alves. Em seguida, a equipe filmou a simulação de uma consulta e todo o material foi editado e exibido, com enorme audiência, dois dias após a publicação da reportagem.

 

Pelo Telefone

Rio de Janeiro, carnaval de 1917. Um fato inédito marcará a história musical da cidade e fará crescer a notoriedade do jornal A Noite. Uma variante dos ritmos mais ouvidos na capital federal – lundu, polca e maxixe –, que começava a se tornar conhecida nos terreiros como “samba”, foi aprovada, com louvor, nos séquitos carnavalescos que percorreram a cidade. Tão grande a aceitação que clubes, sociedades recreativas e demais agremiações, que jamais tocavam a mesma música em seus respectivos desfiles, entraram na avenida Rio Branco executando o samba “Pelo telefone”. Seus versos, mistura de comentários jocosos, refrãos conhecidos e outros ingredientes, aludiam claramente a uma reportagem publicada pelo jornal de Irineu Marinho. [...]

Entender o sucesso desse samba significa perceber a presença de A Noite na cidade, sua circulação entre diferentes grupos e por diversos bairros, a familiaridade de seus Repórteres com os redutos populares, sua penetração em terreiros, sociedades recreativas e instituições similares. Significa também perceber a sutil fronteira entre informação e comunicação, muito visitada por A Noite. Afinal, para o êxito de “Pelo telefone” foi decisivo o fato de “toda a cidade” conhecer o chamado episódio da roleta, encenação manhosa de dois repórteres de A Noite em pleno Largo da Carioca.

 

Oito Batutas

Se até os anos de 1910 a comunicação entre aqueles artistas e o conjunto da cidade era informal e descontínua, sustentada em personalidades isoladas, dentre as quais Ernesto Nazareth ou Chiquinha Gonzaga, a partir daí, com o concurso de jornalistas, repórteres e cronistas, se desenvolveram elos mais consistentes entre os diferentes grupos e classes sociais da cidade. E o resultado foi que, em 1919, a elite da capital federal já podia frequentar a boa música de Donga, Pixinguinha e seu grupo proveniente da praça Onze em um ambiente requintado, como era a sala de espera do Cine Palais, de onde partiriam em viagens pelo Brasil, incentivados por Irineu Marinho e patrocinados por Arnaldo Guinle.

 

O acordo verbal

Em dezembro de 1923, Geraldo Rocha assinou um documento pelo qual liberava quatrocentos contos de réis para que Irineu Marinho saldasse dívidas concernentes à Sociedade Anônima A Noite em troca de ações. E o que se segue é conhecido: em maio de 1924 Irineu Marinho viajaria para a Europa, e menos de um ano depois A Noite aprovaria uma recomposição da sua diretoria, cancelando muitas de suas prerrogativas como diretor-presidente. É nesse momento que Irineu se desliga do jornal, abrindo mão de benefícios estatutários a que tinha direito como fundador.

A explicação dada pela família para o fato é a de que, logo após a cirurgia, acreditando que iria morrer, Irineu Marinho resolveu vender secretamente suas ações a Geraldo Rocha, obtendo dele a promessa de que, caso se recuperasse, poderia readquirir o jornal. Essa foi, por exemplo, a versão reiterada por Roberto Marinho em diversas ocasiões, e que muito contribuiu para que se generalizasse uma imagem de Irineu como excelente jornalista, porém empresário ingênuo, que acreditou que poderia reaver A Noite quando quisesse. Ingenuidade ou não, o jornal experimentava uma espécie de “crise” de crescimento que levava a sociedade a contrair empréstimos constantes e efetuar um jogo de protelações dos pagamentos que, durante muito tempo, Irineu  conduziu bem. Sua viagem à Europa o retirou das decisões “a quente”, e o afastou do controle direto de operações importantes, isolando-o, inclusive, da praça do Rio de Janeiro, que ele conhecia e que poderia lhe ter rendido alternativas à transferência recorrente de suas ações a Geraldo Rocha. O fato é que a perda de A Noite não dependeu, crucialmente, de ações individuais ou do temperamento do seu timoneiro: havia circunstâncias estruturais que apontavam para o desfecho tal como ele se deu.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.