Dona Chica

Dona Chica

Em 24 de dezembro de 1903, Irineu Marinho casou-se com Francisca Pisani, a D. Chica, filha de imigrantes pobres do sul da Itália. Descrita pelos parentes como uma verdadeira “mama” italiana, D. Chica acompanhou de perto e contribuiu ativamente para a ascensão profissional de Irineu Marinho e para o sucesso de seus empreendimentos.


Trechos do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade"

Parceria

A essa história de cumplicidade some-se o nome de Francisca Pisani, d. Chica, que garantiu algumas das condições necessárias para que aquela aposta profissional de Irineu Marinho se tornasse exitosa. Sua incorporação ao grupo é, portanto, justa, embora sua cumplicidade com “Marinho” – como ela se referia ao marido – seja melhor definida como uma parceria intelectual e amorosa, ao modo de outros tantos casais, em que a vida em comum é parte relevante da obra legada.

 

Temporada de cura em São Lourenço (MG), 1921. Irineu Marinho, Hilda Marinho, Rogério Marinho, Francisca Marinho e a babá. Arquivo /Memória Globo“Mama” italiana

Os descendentes de d. Chica costumam descrevê-la como típica “mama” italiana: centralizadora, de temperamento forte, porém amável, que falava alto e os repreendia num italiano misturado ao dialeto napolitano. O fato é que d. Chica teve vida afanosa ao longo de seus 22 anos de casamento. Inicialmente, trabalhou muito para manter o bom aspecto de seu marido, quando lhe faltavam camisas em número suficiente.

A família, ainda hoje, se refere com orgulho à energia de d. Chica, lavando e passando a mesma peça de roupa em horários impensáveis, como costumam ser os da rotina de um casal pobre.

 

Cúmplices

A trajetória de d. Chica e Irineu revela a eficácia do pacto que selaram. O casal transita, em duas décadas, de uma situação familiar próxima à dos setores médio-inferiores da sociedade para uma posição destacada no ambiente social da capital da República. Não foi um caminho fácil, e os trabalhos domésticos de d. Chica são evidência disso. Mas o meteórico sucesso que alcançaram impõe a percepção das oportunidades contextuais que se abriram e foram exploradas por eles.

 

Domingueiras

[...] a ascensão dos Marinho, até os anos 1920, não resultou em aproximação com os estratos mais ricos ou prestigiosos da sociedade carioca. Ao contrário, o que se vê é a relutância com que Irineu e d. Chica assumiam os signos da promoção social, sua ausência dos salões e, no caso de Irineu Marinho, a caracterização como “homem de família”, antes que “homem de negócios”. [...] A essa reduzida exposição pública se opunha exagerado investimento na convivência familiar, o que compreendia também a família de seus amigos. Tal investimento era reafirmado nos almoços de domingo – as “domingueiras” – transcorridos na rua Haddock Lobo, no bairro da Tijuca, onde residiam os Marinho. As domingueiras eram reuniões sistematicamente organizadas para um número limitado de amigos, extraídos do ambiente profissional – Castellar de Carvalho, Antônio Leal da Costa, Vasco Lima, Eustáquio Alves, Mário Magalhães e suas respectivas esposas e crianças –, aos quais não era dada a opção da ausência. Como os convites eram feitos em tom jocoso, as repreensões seguiam o mesmo padrão e, em uma delas, Irineu propõe aos demais membros daquela confraria uma “punição exemplar” ao faltoso Leal da Costa. Os trabalhos começavam ao longo da semana, quando eram produzidos os arranjos e as fantasias adequadas ao tema proposto. No domingo, os convidados chegavam cedo, quando a cozinheira iniciava os preparativos para o almoço, e se retiravam tarde, pois uma vez concluída a refeição, permanenciam os convidados entregues a seus “vícios”, como rezava o famoso “Contrato para um Dia de Domingo”: “[...] o sono ao ar livre, o jogo das três bolas, os passeios aos jardins palacianos, o cigarro, o charuto, a música moída em uma caixa com o tubo voltado para os lados do inferno, a trepação [segundo Houaiss: a fofoca], as pequenas libações de liquores perfumados...”.

 

Correias

A casa de Correias, distrito do município de Petrópolis, era outra engrenagem da máquina movida por d. Chica. Fora adquirida em 1920, aparentemente para atenuar os efeitos das moléstias de Irineu, mas, aos poucos, foi tendo seu uso redefinido. Para isso foram feitas algumas obras e, inclusive, construída uma casinha anexa, para abrigar casais amigos. Naquele refúgio, a exemplo do que ocorria em sua residência na Tijuca, reinava d. Chica; e, do mesmo modo que lá, a troca social se concentrava num compósito de afetos e projetos  compartilhados.

Carvalho, Maria Alice Rezende de. Irineu Marinho - Imprensa e Cidade. Editora Globo / Memória Globo, 2012.