Na Rua Irineu Marinho

Na Rua Irineu Marinho

Em outubro de 1954, Roberto Marinho sentou-se à mesa e escreveu na sua Remington a crônica que marcaria o último dia de trabalho na sede antiga de O Globo, na Rua Bittencourt da Silva. Despedida foi publicada na primeira página. No dia seguinte, a redação e as oficinas do jornal foram  transferidas para o novo endereço: Rua Irineu Marinho, 35, centro do Rio de Janeiro. Era o início de processo de modernização, que incluía a aquisição de novos equipamentos gráficos. 


"Dos meus comunistas cuido eu"

Roberto Marinho aprovou a candidatura de Jânio Quadros à sucessão de JK.  Eleito com o apoio da UDN, Jânio ficou pouco tempo no poder. Renunciou em 25 de agosto de 1961, e o vice-presidente, João Goulart, assumiu o comando do país sob o regime parlamentarista. Seu governo transcorreu num clima de instabilidade política e desconfiança por parcelas do alto escalão militar e do empresariado. O Globo foi contra a posse. Achava que o novo governo não iria conseguir conter o movimento sindical intenso e a escalada da inflação. E, de fato, o governo Jango foi marcado por forte crise econômica e grande instabilidade.

Quando se aproximou a crise política que levaria ao golpe militar, a posição de Roberto Marinho era francamente exposta: repúdio à tentativa de implantação do regime populista pregado por João Goulart. Outros jornais e parcelas da população justificavam, naquele momento, a intervenção dos militares por temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo presidente João Goulart, com apoio de sindicatos e de  segmentos das Forças Armadas. Jango era criticado por tentar instalar uma “república sindical.” O jornal acreditava na vocação democrática do presidente Castello Branco e na eficácia da política econômica de Roberto Campos e Octavio Gouvêa de Bulhões.

Na noite de 31 de março, O Globo foi invadido por fuzileiros comandados pelo almirante Cândido Aragão, do “dispositivo militar” de Jango, como se dizia na época. O jornal ficou impedido de circular por 24 horas.  Quando voltou a circular, no dia seguinte, o jornal publicou o editorial Ressurge a democracia.

Em outro editorial, publicado 20 anos depois, Roberto Marinho explicaria os motivos que levou o jornal a concordar com a derrubada de Jango e a dar apoio aos militares: “Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”.

O golpe de 1964 era chamado de “Revolução” pelo jornal. Um reforço à ideia de que o apoio seria a única alternativa para manter a democracia e evitar uma invasão da esquerda no país. Os militares prometiam a realização de eleições presidenciais para 1966. Mas isso nunca houve. O desfecho é conhecido. Foram 21 anos no poder, até a saída, em 1985, com a posse de José Sarney, vice do presidente Tancredo Neves eleito ainda pelo voto indireto, falecido antes de tomar posse. Com o passar do tempo, o jornal concluiu que a adesão ao regime militar  foi equivocada porque a democracia é um valor único e absoluto.

Liberdade de Imprensa

Roberto Marinho fez verdadeiros “malabarismos” para garantir a liberdade de informar seus leitores. Durante a ditadura militar, manteve-se firme contra a perseguição a jornalistas de esquerda e, em momentos chaves do regime, procurou dialogar em busca do restabelecimento da normalidade democrática.

Mas a chamada “linha dura “do governo foi se impondo no país, e a censura se abateu sobre os jornais. O Globo não foi exceção, lembra o então chefe de redação do jornal, Henrique Caban: “Pressionado para entregar a lista dos comunistas aos militares, remeteu um envelope fechado com os nomes de todos os funcionários”. Ligou um general do Exército para ele, indignado, e disse: ‘o senhor me mandou a folha de pagamento’. E o dr. Roberto respondeu: ‘Quem tem que descobrir os comunistas são vocês.'”

Roberto Marinho contratava profissionais por sua competência, independentemente da posição política. O ex-diretor de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, costumava dizer que ele nunca demitiu um comunista “por ser comunista”. Mas contou que certa vez, foi questionado pela quantidade de funcionários de esquerda trabalhando na redação: “Um dia, ele falou: ‘Essa redação está cheia de comunista’. Eu respondi: ‘ É, dr. Roberto, tem muitos.’ Ele: ‘ E você não faz nada?’ Eu disse: “Não, dr. Roberto, é melhor trabalhar com comunista do que com udenista, porque o comunista sabe o que pode fazer.  Agora, o udenista acha que está no poder e quer fazer o jornal do jeito dele. ‘ No fim da conversa, ele me deu razão.”

Deu  tanta razão que teve a resposta na ponta da língua quando foi abordado pelo então ministro da Justiça do governo Castello Branco, Juracy Magalhães, que lhe perguntou: “Dr. Roberto, por que o senhor emprega tantos comunistas na redação?”. Ele respondeu: “porque eles sabem fazer jornal”.

Arthur da Távola recordou que Roberto Marinho não se intimidava com as restrições impostas pela ditadura: “Ele teve a grandeza de chamar uma porção de gente perseguida  para trabalhar em O Globo”.

O jornalista Franklin de Oliveira foi um deles. Em 1964, ele encabeçou uma lista de cassados políticos, o que lhe fechou as portas de todos os jornais. Menos de O Globo. Recebeu proposta de trabalho e aceitou. “ Quando, em cima da vitória de 64, Roberto Marinho chamou-me para seu jornal, concedeu-me a certeza de pensar que seu liberalismo humanístico não havia sido sufocado. Continuava vivo, pulsante em sua generosidade. Generosidade que o leva à bravura espartana na defesa das vítimas. Só o destemor e a intrepidez dão a medida de sua grandeza moral.”  

Promulgado o AI-5, os donos de jornais foram pressionados para que  demitissem, ou não admitissem, cassados políticos. O único que protestou foi Roberto Marinho. Na ocasião, ele declarou que o cassado político perdia seus direitos políticos, mas não o direito ao exercício da profissão.

Nas palavras do próprio Franklin de Oliveira: “Fui o primeiro cassado político a assinar artigos na imprensa brasileira. E os assinei em O Globo. Eram artigos sobre os mais diferentes temas, nos quais nunca me impus autocensura e muito menos recebi do jornal qualquer restrição à minha liberdade de escritor. E mais: quando ingressei em O Globo, na condição de redator, seus editorialistas eram Álvaro Americano, Moacir Padilha, Luís Alberto Bahia e Pedro Gomes.”

Franklin de Oliveira assinou o prefácio do livro “Uma trajetória liberal”, que reúne editoriais e artigos escritos por Roberto Marinho publicados em o Globo durante mais de 50 anos. No texto, o jornalista desabafou: “Homem pobre, vivendo apenas de salário, o mundo desabou sobre mim e minha família. Fui condenado sem nota de culpa, sem direito a defesa, como ocorreu com centenas de outros brasileiros.“

No fim do prefácio, Franklin exaltou o perfil humanístico de Roberto Marinho: “O seu bom combate é pela construção, no Brasil, de uma democracia moderna e pluralista que seja ao mesmo tempo fator e resultado de um desenvolvimento econômico que permita que não só o pão, mas a rosa e o vinho estejam sempre na mesa feliz de cada brasileiro. É o que Roberto Marinho quer. Mais do que simples impressão, esta é a minha convicção, fundada no convívio que mantivemos em seu jornal. É um liberal aberto aos grandes horizontes da civilização contemporânea. O seu liberalismo não ostenta o friso conservador típico do nosso liberalismo tradicional. É um liberalismo que não renega a vertente do socialismo democrático. Roberto Marinho sabe que as novas auroras são inevitáveis.”      

“O cassado político perde seus direitos políticos, mas não o direito ao exercício da profissão.” (Roberto Marinho)

Ao enfrentar a censura e a perseguição a seus funcionários, Roberto Marinho, muitas vezes, chegou a “escoltar” jornalistas  para prestar depoimento no DOI-Codi do Rio de Janeiro.  Mas um caso memorável de resistência à intervenção do regime militar ocorreu  quando o então ministro da Justiça de Castello Branco, Juracy  Maralhães, pediu “a cabeça” de dezenas de profissionais que o governo considerava inimigos. Existem várias versões para essa história, mas todas coincidem num ponto: na defesa incondicional que Roberto Marinho teria feito dos jornalistas de O Globo.

Milton Coelho da Graça, editor-chefe do jornal, conta: “O ministro chamou os donos de jornais para dizer como é que ele queria que a imprensa se comportasse e levou uma listinha de 64 nomes, na qual eu me orgulho de estar incluído, que não podiam trabalhar no copidesque do jornal. Eles achavam que o copidesque era o coração do jornal, isso por força de alguns jornalistas que trabalhavam para eles e deram essa informação ‘olha, o segredo é o copidesque, é lá que os comunas se metem’. Os jornais todos disseram ‘sim, senhor’, com exceção do Roberto Marinho, que levantou na época e disse uma frase, mais ou menos assim: "Ministro, o senhor faz uma coisa, vocês cuidam dos seus comunistas, que dos meus comunistas cuido eu".  

Houve também o caso do editorialista Luiz Alberto Bahia, que conta ter pedido emprego a Marinho, num momento em que entrara em choque com os militares. Ganhou o emprego, com a única ressalva de que deveria, para sua proteção, trabalhar em casa. Assim aconteceu.

As pessoas que não passaram pelo processo do regime militar não imaginam o que isso representava de coragem, hombridade e dignidade.” (Mauro Salles, jornalista)

Em outro episódio, os órgãos de repressão descobriram que diversos jornalistas de O Globo davam contribuições mensais ao Partido Comunista. Roberto Marinho chamou o chefe da Redação, Henrique Caban, e perguntou se era verdade. Caban confirmou e disse que era um deles. A única reação do diretor: "Mas Caban, como é que você dava esse dinheiro em cheque...?". E nunca mais se falou no assunto.

Como dono de jornal, Roberto Marinho sabia defender seus funcionários na hora do aperto com a censura. Como jornalista, queria a boa matéria na manchete. Um caso notório ocorreu na cobertura da morte de Carlos Lamarca, um dos líderes da oposição armada à ditadura militar. O jornalista Luiz Lobo, que comandava o plantão no dia da morte de Lamarca, em setembro de 1971, conta: “Dr. Roberto autorizou nossa viagem à Bahia e nos emprestou um gravador. Pediu que gravássemos tudo. Quando voltamos, demos seis páginas no jornal e fomos presos. Entregamos as fitas para o dr. Roberto e nos apresentamos ao Exército. Dr. Roberto chegou em seguida,  virou-se para o coronel que nos interrogava e disse: ‘O jornal é meu. Eu li tudo, não saiu nada que eu não quisesse. Então, quem tem que estar preso sou eu. Agora, tem um detalhe: nós temos tudo gravado’. Aí, rolaram cabeças de coronel, major, ajudante de ordens do governador. Foi uma limpa.”

Nos 20 anos de um Brasil governado sob regime de ditadura, Roberto Marinho sempre esteve ao lado da legalidade. Naquela época, concordou com a intervenção, ao lado de grandes jornais como “O Estado de S. Paulo”, “ Folha de S. Paulo”, “ Jornal do Brasil” e o “Correio da Manhã”. A situação política estava radicalizada. O presidente João Goulart e militares próximos ameaçavam atropelar o Congresso e a Justiça para fazer as reformas de “base” “na lei ou na marra”. O golpe era visto pelo jornal como a única alternativa de manter no Brasil uma democracia. O desenrolar da “revolução” é conhecido. Não houve eleições e os militares ficaram 21 anos no poder.

Mas apesar de não retirar o apoio aos militares, Roberto Marinho posicionou-se contra a perseguição a jornalistas de esquerda. Desafiou a repressão ao se negar a fornecer a lista dos “comunistas” que trabalhavam em seu jornal. Cobrou do governo o restabelecimento da democracia. Mas, à luz da História, O Globo reconhece que o apoio ao governo militar foi um erro porque a democracia é um valor absoluto. E quando em risco, ela só pode ser salva por si mesma.