Incêndios

Incêndios

A TV Globo sofreu três incêndios em sua primeira década de existência. Um em sua antiga sede, em São Paulo, e os outros dois na sede do Rio de Janeiro. Apesar dos prejuízos, Roberto Marinho estava mais preocupado com a integridade de seus funcionários, que não pouparam esforços para salvar as fitas com a programação a ser exibida e manter a emissora no ar.


1976 – Emoção coletiva

O pior de todos os incêndios ocorridos na Globo aconteceu em 4 de junho de 1976. O fogo começou às 13 horas, no segundo andar, provocado por um curto-circuito no sistema de ar condicionado. Praticamente destruiu todas as instalações eletrônicas da emissora, levando à perda de seis ilhas de videoteipe, equipamentos de telecine e de emissão de comerciais, danificados pelo fogo, pela água ou pelas cinzas. Só foi apagado à noite, o que fez com que a programação da emissora fosse gerada de São Paulo durante a tarde e a noite do incidente.

No dia seguinte ao incêndio, a partir das 18h, a programação voltou a ser gerada da sede da emissora, no Rio de Janeiro. A estimativa, porém, era que as áreas afetadas só voltassem a ser ocupadas em cerca de 90 dias.

Os programas Caso Especial (1971) e Caso Verdade (1976) tiveram suas gravações suspensas e as novelas exibidas na época passaram a ser gravadas em estúdios fora da emissora. Os estúdios da TV Educativa (que colocou seu parque técnico à disposição da Globo) abrigaram as gravações de Saramandaia e O Feijão e o Sonho (que estrearia em 28 de junho); na Cinédia foram gravadas cenas de Anjo Mau; e a substituta de Pecado Capital, O Casarão, que estrearia no dia 7 de junho, passou a ser gravada no estúdio da Herbert Richers. O último capítulo da novela Pecado Capital foi exibido um dia após o incêndio.

Uma miniestação retransmissora, equipada com uma máquina de videoteipe, uma máquina de telecine e um controle mestre foi instalada no saguão do novo prédio da TV Globo, na rua Lopes Quintas, também no Jardim Botânico, para gerar imagens dos programas editados no Rio (as novelas Anjo Mau e O Feijão e o Sonho, e os programas da linha de shows). Saramandaia e O Casarão passaram a ser editadas, respectivamente, em São Paulo e Porto Alegre, indo ao ar com imagens geradas em São Paulo. Os programas do Jornalismo também foram editados em São Paulo, e gerados de lá.

O engenheiro Fernando Bittencourt conta que quase todos os equipamentos tiveram de ser reaproveitados após esse incêndio. “Fizemos um mutirão para tentar manter os equipamentos funcionando e a empresa voltar a operar. Quase tudo voltou, embora de forma precária. Os videoteipes, por exemplo, equipamentos super delicados, ficaram com a cabeça de leitura de fitas sujas pela fumaça, e tudo parou de funcionar. O que mais destruiu os equipamentos não foi o fogo, logo controlado. A fumaça e a água danificaram muito mais. Durante seis meses, um ano, ainda tínhamos de consertar problemas causados pelo incêndio”.

Os prejuízos causados pelo incêndio levaram a emissora a se modernizar ao adquirir equipamentos de ponta para recompor seu maquinário. “A Globo renovou seu parque”, afirma o então supervisor de telejornais Alfredo Marsillac, que tem fortes lembranças do episódio. “Eu, Armando Nogueira e Alice-Maria estávamos numa salinha pequena da montagem assistindo às matérias, quando veio o anúncio de incêndio. Tivemos que procurar as saídas, e ajudamos a tirar gente pela janela. Foi um fato que me emocionou muito, porque todo o nosso trabalho estava indo por água abaixo, sendo consumido pelo fogo”.

A atriz Elizângela, que estava no estúdio, conta que a gravação foi interrompida para que todos deixassem o prédio. O corredor já estava tomado pela fumaça. Do lado de fora, muitos choravam e se abraçavam. “Era muito triste ver aquilo. Era um pedaço de cada um de nós que a gente via queimando ali”.

Serafim Xavier, que à época chefiava a equipe de limpeza de equipamentos, se lembra de Roberto Marinho preocupado com a integridade dos funcionários. “‘Deixa isso aí, deixa isso aí, o que importa é salvar a vida de vocês. Vocês são nosso maior patrimônio’. O funcionário ficou emocionado: “Aí eu fiquei conhecendo o homem, sua sensibilidade, sua humanidade”.

O diretor Roberto Talma se recorda que o Jornal Hoje, que estava no ar na hora do incêndio, noticiou o fato. Ele estava no segundo andar, e só tinha uma coisa em mente: salvar as fitas das novelas Saramandaia e O Casarão, que estavam guardadas em um armário localizado próximo à sala de Boni. "Fizemos um mutirão, aquele bando de gente tirando as fitas. O Casarão foi para o Rio Grande do Sul, para ser montada na RBS. E nós montamos toda a parte de operação, edição e pós-produção na garagem do prédio da Lopes Quintas. Ficamos ali um ano, quase dois, até tudo se organizar novamente”.

“Boni e eu estávamos em São Paulo, e ele disse: ‘O Rio pegou fogo’. Pegamos o avião, chegamos rápido na rua Von Martius. O principal era entrar lá e tirar as fitas das novelas. Todo mundo colocando lenços no rosto contra a fumaça, tomando leite, tentando salvar as fitas. Dr. Roberto e o ex-governador Chagas Freitas do outro lado da rua, olhando. Faltava água para os bombeiros, foi muito difícil. Graças a Deus, um ano antes nós tínhamos comprado aquele prédio na rua Lopes Quintas. Dr. Roberto não queria comprar aquele prédio, estava sendo construído para ser um prédio de apartamentos, praticamente tudo pronto, com banheiros, tudo, e nós tentamos convencê-lo. Eu disse: ‘Doutor Roberto, se não comprarmos, não dá pé, nós estamos alugando muitas casas aqui, não temos meios...’. Ele acabou concordando, e nós compramos. Isso foi a nossa salvação, porque depois daquele incêndio colocamos mais pessoas dentro desse novo prédio. Nós não tínhamos dinheiro para construir um Projac, naquela época era um sonho”, conta Joe Wallach.

O edifício da Rua Lopes Quintas, apelidado pelo escritor Otto Lara Resende de “Vênus Platinada”, foi incorporado à TV Globo no início de 1976, para abrigar o prédio das diretorias.