Década de 1970

Década de 1970

Nos anos 1970, a Globo virou líder de audiência com um modelo de grade de programação horizontal e vertical, exibida de segunda a sábado, e o horário nobre preenchido por duas novelas intercaladas pelo Jornal Nacional, o carro-chefe da programação.


A chegada da cor

Paulo Gracindo em O Bem-Amado. CEDOC/TV GloboA primeira transmissão oficial em cores, em rede nacional, na televisão brasileira aconteceu na Festa da Uva, na cidade de Caxias, no Rio Grande do Sul, em 10 de fevereiro de 1972. A responsabilidade pela geração das imagens foi da TV Difusora, com a colaboração técnica da TV Rio e o apoio das TVs Gaúcha, Piratini e de Caxias.

“A cor não chegou, ela foi imposta. Também fez parte do milagre brasileiro. O Brasil estava com uma situação financeira extraordinária, e o governo militar resolveu que a televisão brasileira tinha que ser colorida, porque isso era compatível com o primeiro mundo. Havia uma mentalidade colonizadora e de ‘primeiro mundismo’. ‘Ou vocês fazem a televisão colorida ou caçamos o canal.’ Tivemos que mergulhar na televisão colorida. Inaugurada, para agradar o nosso ministro da época, o Higino Corsetti, transmitindo a Festa da Uva, na qual a filha dele era a Rainha”, conta Boni.

Pouco mais de um mês depois, a Globo exibiu o primeiro programa da televisão brasileira gravado inteiramente em cores, o Caso Especial Meu Primeiro Baile, adaptação de Janete Clair do conto Carnet de Bal, de autoria de Jacques Prévert. “Faziam-se muitos testes para aperfeiçoar as imagens. Se a pessoa tivesse a pele muito clara, refletia. Tinha que colocar uma meia mais escura. Tudo era problema”, afirma Glória Menezes, protagonista do especial. Como todas as atrizes, ela sofreu na pele a adequação da TV às novas técnicas. Se nas novelas em preto e branco podia-se abusar da maquiagem, quando veio a cor a ordem era controlar ao máximo a poluição visual. “Quando entrou o colorido, foi um horror, a gente se sentia ‘desmaquiada’. Não podia usar quase nada”, conta a atriz.

Em 1973, foi exibida a primeira telenovela em cores transmitida no Brasil, O Bem-Amado, de Dias Gomes. Uma experiência totalmente nova para a equipe técnica, que encontrou dificuldades para se adaptar aos equipamentos e dominar a nova linguagem. O que se viu no ar foi uma explosão de luz e cores. Até as pernas brancas da atriz Ida Gomes, uma das intérpretes das irmãs Cajazeiras, saturavam no vídeo. Figurinos e maquiagens saltavam aos olhos em cores berrantes, e tonalidades fortes.  

Também em 1973 foi exibida no Jornal Nacional a primeira reportagem em cores da Globo. A matéria tratava dos funerais do senador Filinto Müller, antigo chefe da polícia de Getúlio Vargas, que morrera num trágico acidente aéreo. No mesmo acidente morreram outras 122 pessoas, entre elas o jornalista Julio Delamare, chefe do departamento de esportes, o ex-piloto de Fórmula 3 e comentarista da Globo Antônio Scavone e o cantor Agostinho dos Santos. A partir de então, as reportagens passaram a ser produzidas regularmente em filme colorido.

Cid Moreira conta que, no dia da primeira transmissão colorida do Jornal Nacional, o nervosismo da equipe era geral. Boni cismou com sua gravata e foi em casa correndo pegar outra para trocar. “Lembro que eu tinha um alfaiate, e os tecidos eram os mais extravagantes possíveis. Quadriculados, com a gola enorme, uma coisa de doido”, lembra o apresentador, testemunha de uma época em que as roupas em tecido xadrez eram uma febre.

Fazer a transição da programação em preto e branco para a colorida foi uma revolução, que exigiu empenho redobrado da equipe de engenharia da Globo. Funcionários viajaram para se especializar na Alemanha e houve treinamento interno para operar as câmeras e os videoteipes importados, adaptados ao sistema PAL-M. “Tivemos de mudar muita coisa, e aprender, porque nós não sabíamos como funcionava aquela tecnologia. Considero esse o primeiro grande desafio que nós, da divisão de engenharia, enfrentamos: entender o que era TV em cores e implantar o processo de produção”, diz Fernando Bittencourt.

As novelas Senhora (18h), Pecado Capital (20h) e os dois últimos capítulos de Estúpido Cupido (1976) já foram exibidos em cores. A cor foi definitivamente incorporada a toda a programação da Globo em 1977.