O Início

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Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


Diretor-redator-chefe

Henrique Gigante, Roberto Marinho e Herbert Moses na redação de O Globo, década de 1930. Arquivo/Agência O GloboOito de maio de 1931 foi uma data histórica para Roberto Marinho. Aos 27 anos, ele  assumiu o cargo de diretor-redator-chefe de O Globo, três dias após a morte de Eurycles de Mattos, que havia substituído seu pai, Irineu Marinho. No enterro de Eurycles, o jornalista discursou: “Diante deste túmulo aberto, fazemos um juramento de fé na defesa das tradições do Globo, seguindo os mesmos rumos, com a dedicação de todos os seus companheiros.”

Décadas depois, Roberto Marinho comentava que o controle do jornal passou para ele no momento certo: “Só aceitei assumir a direção no dia em que a redação já não me considerava mais o dono. Eu era um profissional. Sempre achei que em qualquer ramo da atividade é possível forçar a ascensão de alguém por mero favoritismo. Mas em nosso meio, jamais. Devo muito do meu sucesso aos companheiros que, naquela época, insistiam em não me ver como um simples aspirante ao trabalho duro de um repórter. Sobretudo ao rigor com que Eurycles de Mattos sempre me tratou. Está visto que não o compreendi logo no começo, quando passou a dirigir o jornal e eu engrenei a sério na redação. Era, porém, um  homem bom e isso pude sentir de imediato, no dia-a-dia.”

“Só aceitei assumir a direção de O Globo no dia em que a redação já não me considerava mais o dono. Eu era um profissional.” (Roberto Marinho)

No dia em que Roberto Marinho assumiu a direção de O Globo, o jornal publicou o seguinte texto: “A redação do Globo integra hoje na sua direção, definitivamente, o nome do primogênito da família do nosso saudoso fundador. O seu aparecimento no rosto deste jornal não significa qualquer obediência a considerações de ordem patrimonial e sim uma escolha baseada no critério do próprio mérito, e feita, a bem dizer instintivamente, por todos os companheiros de Irineu Marinho e Eurycles de Mattos, de cuja escola o nosso novo diretor-redator-chefe, ainda que jovem, foi sempre um dos mais brilhantes discípulos.” 

Sobre a coragem do jovem diretor, Walter Poyares, assessor da presidência de O Globo até 2002, comentou: “Esse homem sozinho assumiu uma família e teve o bom senso de não aceitar a direção. Deixou o homem que vinha dirigindo a redação naquela época, Eurycles de Mattos. Confiou nele. Ficou ao lado dele. Aprendeu com ele.”

No seu discurso na solenidade de entrega do prêmio Empresário do Ano, em 1979, Roberto Marinho falou do apoio que teve dos funcionários e da inspiração em Irineu: “Eu tinha o exemplo do meu pai. Contei com companheiros dedicados e com a minha força de pretender realizar. Mas eu era jovem e não me sentia com a cultura necessária para conduzir um órgão importante por ter sido fundado por Irineu Marinho. Procurei me cercar de homens de valor, cultos, que pudessem apressar a conquista de uma cultura indispensável às minhas atividades.”

“Procurei me cercar de homens de valor, cultos, que pudessem apressar a conquista de uma cultura indispensável às minhas atividades.” (Roberto Marinho)

Quando assumiu a direção de O Globo, Roberto Marinho tinha o domínio completo do dia a dia de O Globo. Ainda nos anos 1930, passou a contar com a colaboração de seus dois irmãos, Rogério e Ricardo Marinho. Na parte administrativa do jornal, estavam Herbert Moses e Antônio Leal da Costa.

Nos primeiros anos de funcionamento do jornal na Rua Bittencourt da Silva, Roberto Marinho comprou uma rotativa que ficou escondida do tesoureiro, Herbert Moses, por três anos. O presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu, rememora: “O Herbert Moses dizia que não, absolutamente, não era para comprar. Para ele, a máquina que existia estava imprimindo muito bem. Então, papai pegou outra sala emprestada no Liceu de Artes e Ofícios, comprou a máquina escondido e passou a imprimir o jornal com ela. Nas reuniões, o Moses dizia: ‘ Para que comprar máquina nova se o jornal está tão bem impresso! ’ E a rotativa do papai estava rodando há muito tempo.”   

Roberto Marinho costumava se divertir com o episódio: “Vocês já pensaram em esconder um elefante... em casa? Eu consegui. Representou uma luta do redator-chefe, sequioso da projeção e da expansão do seu jornal, contra o tesoureiro, com as contas a pagar, as naturais limitações de despesas.”