Década de 1960

Década de 1960

A estratégia de Roberto Marinho para consolidar a presença diária da Globo na vida de milhões de brasileiros foi lançada no finalzinho da década de 1960. Como pilares, a implantação da rede, o início da produção de novelas que retratavam o cotidiano dos telespectadores e a aposta em um novo modelo de telejornalismo, cuja estrela era o Jornal Nacional


Dramaturgia

A teledramaturgia teve início na Globo no ano de sua inauguração. A linguagem do rádio dava o tom das produções televisivas, já que a televisão ainda buscava encontrar seu próprio caminho.

Ilusões Perdidas, a primeira novela produzida na emissora, trazia Reginaldo Faria e Leila Diniz como o par romântico principal. A emissora também levou ao ar os seriados Rua da Matriz, 22-2000 Cidade Aberta e TNT, além dos teleteatros – adaptações de peças nacionais e estrangeiras.

Os primeiros anos ficaram marcados pelas novelas da autora cubana Glória Magadan, contratada para o cargo de diretora de dramaturgia da emissora. Suas tramas eram caracterizadas pelo gênero capa e espada – melodramas e histórias fantásticas com referência em romances da literatura estrangeira, ambientadas em países longínquos e sem conexão com a realidade dos telespectadores.

“Nas histórias da Glória Magadan, que foi uma grande folhetinesca, valia tudo. Lembro-me de uma cena que fiz com o Cláudio Cavalcanti, em que, ao final da gravação, um olhou para o outro e tivemos um ataque de riso, porque não tínhamos entendido nada do que havíamos falado”, conta Marieta Severo. Em sua primeira novela na Globo, a atriz, então com 19 anos, interpretou uma princesa árabe que, ao final da história, revela-se a vilã da trama. Usando a alcunha de Rato, ela estrangulava suas vítimas e deixava um par de luvas pretas ao lado do cadáver.

O lançamento da TV Globo aqueceu o mercado de dramaturgia no Brasil, atraindo muitos artistas em busca de oportunidades e melhores condições de trabalho. Além do investimento feito na produção nacional, na Globo os artistas recebiam seus salários em dia.

“A gente no meio artístico só falava disso: ‘A TV Globo está chegando aí.’ Todos os amigos comentavam muito”, conta o ator Reginaldo Faria, lembrando as peripécias enfrentadas nos primeiros anos de produção da teledramaturgia, quando ainda não havia o ponto de corte. Em caso de erro, as cenas tinham de ser regravadas desde o início. Os diferentes cenários ficavam dispostos lado a lado, e os atores trocavam de roupas entre um cenário e outro. “Era tudo gravado direto, quase que ao vivo. Não podíamos errar, senão tinha que voltar tudo. Às vezes, saíamos do estúdio às 3h da manhã”, relembra o ator.

“A TV Globo estreou como uma emissora regional. Quando quis ser uma emissora nacional, se dispôs a contratar; fez novela, fez muito bem, e formou um bom elenco. Então, ela partiu para conquistar o público do Brasil inteiro. E contratou muita gente de São Paulo, muitos atores vieram”, conta o ator Tarcísio Meira, convicto de que, antes das novelas, o ator brasileiro era um zero à esquerda. “Ele só se tornou importante a partir das novelas. Era muito importante fazer novelas das quais o público gostasse e prestigiasse. Então, nós nos empenhávamos muito em acertar”, afirma o ator, que fez sua escalada como um dos principais galãs da Globo no final da década de 1960.

Arlete Salles, que estreou na Globo em 1968, ressalta a importância da emissora para o artista nacional. “A telenovela é o grande teatro doméstico, que trouxe mais possibilidade de trabalho e status para a vida do ator”.

O ano de 1969 quase chegava ao fim quando a Globo começou a exibir Véu de Noiva, de Janete Clair, e Verão Vermelho, de Dias Gomes. As duas novelas marcaram a aposta da emissora, com o entusiasmo de Roberto Marinho, em uma teledramaturgia moderna, definida por histórias urbanas e contemporâneas, com temáticas brasileiras. Temas comuns ao dia a dia dos telespectadores entraram em pauta, como as relações familiares e os conflitos de classes. Boni e Walter Clark concluíram que era imprescindível mudar os rumos da teledramaturgia da emissora, ainda presa ao gênero capa e espada, ao perceber o filão que havia sido aberto com o sucesso da novela Beto Rockfeller, exibida em 1968 na TV Tupi.

Pela primeira vez, foi lançado um disco com a trilha sonora de uma novela, produzida por Nelson Motta e composta especialmente para a trama Véu de Noiva.

Com histórias mais próximas ao dia a dia do espectador, abriu-se o caminho para a consolidação da Globo nos anos 1970.