Década de 1970

Década de 1970

Nos anos 1970, a Globo virou líder de audiência com um modelo de grade de programação horizontal e vertical, exibida de segunda a sábado, e o horário nobre preenchido por duas novelas intercaladas pelo Jornal Nacional, o carro-chefe da programação.


Dramaturgia

A década de 1970 na Globo foi rica na teledramaturgia, com a produção de novelas que se aproximavam da realidade do público, continham diálogos coloquiais e eram recheadas de tramas paralelas. Analogias veladas com a realidade política do país também eram frequentes. Contratado em 1967, o diretor Daniel Filho tomava a frente das produções, imprimindo sua marca ao setor.

“Eu dizia assim: ‘Vamos fazer uma novela em que o cara chama-se João, a mulher chama-se Maria’”, conta Daniel Filho.

Segundo Boni, a novela foi o que realmente abriu caminho para outros sucessos da TV Globo. “A novela foi testada no rádio, onde fez grande sucesso. E tinha um ingrediente fundamental, que era a criação de hábito”.

Marcos da teledramaturgia

Foi nos anos 1970 que Regina Duarte ganhou o apelido de “namoradinha do Brasil”, e que a novelista Janete Clair se consagrou como a grande dama das novelas das 20h da Globo. Uma de suas tramas marcantes foi a novela Irmãos Coragem (1970), espécie de faroeste urbano estrelado por Tarcísio Meira e Glória Menezes, e que reuniu o maior elenco em telenovelas até então. Um de seus capítulos obteve mais audiência do que a final da Copa de 1970, entre Brasil e Itália. Para as gravações, foi construída a primeira cidade cenográfica da televisão brasileira. E diz-se que, pela primeira vez, os homens não tiveram vergonha de admitir que assistiam a uma novela.

Irmãos Coragem foi de uma felicidade grande, porque juntou o talento da Janete com a criatividade do Daniel. Eram os anos de chumbo, vivíamos uma pressão enorme, e às oito horas da noite todo mundo cantava "Irmão, é preciso coragem" no Brasil”, ressalta o ator Emiliano Queiroz, que integrava o elenco da trama.

Tramas como Selva de Pedra (1972) e Pecado Capital (1975) viriam a se juntar aos sucessos da autora na época. Nesse período, também foram ao ar histórias experimentais como O Rebu (1974), de Bráulio Pedroso, novela policial cujos 132 capítulos transcorriam durante apenas 24 horas na ficção, tendo como gancho um assassinato ocorrido em uma festa; O Casarão (1976), de Lauro César Muniz, marco na renovação da linguagem das telenovelas, que mostrava as questões vividas por cinco gerações de uma família no norte de São Paulo, desenvolvendo-se em três épocas distintas; e Saramandaia (1976), de Dias Gomes, que inovou ao apresentar uma nova linguagem na teledramaturgia, o realismo fantástico. Dias Gomes, aliás, assinou a primeira novela a cores da Globo, O Bem-Amado (1973), um dos momentos inesquecíveis da televisão brasileira.

“O Daniel foi muito responsável pela modernização da teledramaturgia. É claro que o Boni também, com o Dr. Roberto, claro, porque o mais "pra frentex" de todos era o Dr. Roberto nessa história toda, que comprava as ondas, que bancava as histórias. Havia ali uma grande afinidade de objetivos”, destaca a atriz Glória Pires.

Roberto Marinho tinha preferência pelo jornalismo, mas também adorava as novelas, que acompanhava como um dos milhões de telespectadores de sua televisão. O ator Ary Fontoura conta uma passagem em que o jornalista o convidou para tomar um café em sua sala, no décimo andar do prédio da rua Lopes Quintas. "Ele queria saber o que ia acontecer no próximo capítulo da novela. Ele via tudo”, lembra o ator que, após algum tempo de conversa, foi dispensado pelo interlocutor: "Agora vai fazer o seu trabalho, meu filho, para eu me divertir amanhã".

Outro momento marcante foi a exibição da novela Gabriela (1975), livre adaptação de Walter George Durst do romance Gabriela, Cravo e Canela (1958), de Jorge Amado, produzida para comemorar os dez anos da Globo. Sua trilha sonora, composta por 12 canções inéditas, é considerada uma das melhores da teledramaturgia brasileira.

Em 1978, Dancin’Days, de Gilberto Braga, fez o público dançar em sintonia com a febre mundial da disco music, que tomava conta das discotecas. A novela inaugurou um estilo marcado pela crônica de costumes e pela discussão dos valores da classe média e das elites urbanas. As famosas meias coloridas de lurex popularizadas na trama ficaram marcadas como símbolo da influência que as novelas passaram a ter sobre comportamentos, valores, hábitos e a linguagem do público, não raro ditando a moda das ruas.

“A busca da qualidade não era somente o bom enquadramento, a luz bonitinha, o áudio bonitinho. Nós também buscávamos melhorar o conteúdo. O tempo inteiro a gente ficava se cutucando com literatura brasileira, e investindo nos autores”, afirma o diretor Roberto Talma.

Segmentação do horário

Foi a partir dos anos 1970, com a consolidação da telenovela como um de seus principais produtos, que a emissora instituiu horários fixos para exibi-las, partindo de uma avaliação do perfil do público.

O horário das 18h voltou-se para histórias leves e românticas, além de muitas tramas de época, baseadas em romances da literatura nacional – autores como Machado de Assis, José de Alencar, Bernardo Guimarães, Joaquim Manuel de Macedo, Martins Pena, entre outros, tiveram suas obras adaptadas na Globo. O horário das 19h foi ocupado com comédias românticas – inaugurado com Pigmalião 70, de Vicente Sesso. Às 20h (hoje 21h), eram exibidos os enredos mais densos. Durante um período ainda foram produzidas novelas para o horário das 22h, reservado para tramas experimentais. O horário foi reeditado em 2011, com a produção de remakes