Consolidação da liderança

Consolidação da liderança

Roberto Marinho queria um jornal semelhante aos melhores do mundo. Entusiasmado com tecnologia, investia na modernização de equipamentos e instalações, mas sem ostentação. Gostava de qualidade. Essa exigência  o levou  a transformar O Globo, a partir dos anos 1970, num periódico matutino, com circulação aos domingos, com suplementos e novas seções. Ao lado dele, um interlocutor capaz de cumprir a missão, Evandro Carlos de Andrade. O colaborador ajudou Roberto Marinho a concretizar os seus sonhos empresariais e jornalísticos.


Edição de domingo

No início dos anos 1970, os vespertinos mantinham ainda a tradição de não circularem aos domingos, e os matutinos de não saírem às segundas-feiras. O Globo rompeu com isso, ao lançar a sua primeira edição dominical, em 1972. A divisão não fazia mais sentido, até porque, na prática, o jornal não era mais vespertino.

Fuad Atala, ex-editor de suplementos, recorda que Roberto Marinho era contra qualquer tipo de interrupção da edição do jornal. “O dr. Roberto nunca se conformou de não ter uma edição de domingo. Ele tinha concorrente. Uma pedra no sapato. Ele estruturou o jornal e determinou que O Globo saísse aos domingos”.

Coube a Evandro Carlos de Andrade levar adiante o projeto. Mas fazer a edição de domingo foi como montar uma nova redação, recorda o jornalista Pedro Rogério: “Era uma super editoria preparando aquela edição especial durante a semana. Dr. Roberto e os irmãos, dr. Rogério e dr. Ricardo, iam nas oficinas para acompanhar todo processo”.  

Luiz Alberto Bittencourt, ex-editor da Nacional e Política, lembra o slogan da campanha que anunciava a novidade: 'Olha O Globo, edição de domingo, lindo, lindo'. O trabalho de todos triplicou. Começamos a fechar na sexta-feira. Foi uma mudança importante porque o jornal se colocou numa posição mais competitiva. A editoria de Economia teve uma função muito importante nesse processo.”

O jornalista Ismar Cardona, ex-editor de Economia do Globo, recordava que era na edição de domingo onde saíam as matérias mais aprofundadas: “Os jornalistas ganharam mais espaço para produzir reportagens especiais, planejar edições maiores. O Globo passou a ter um espaço nobre para disputar com os concorrentes no dia mais importante da semana”.

O primeiro O Globo de domingo saiu no dia 2 de julho. Enfermo e, por isso, impedido de comandar pessoalmente os trabalhos dessa edição histórica, Roberto Marinho enviou aos seus companheiros uma carta, na qual agradecia o seu esforço, dedicação e lealdade.

No editorial O dia que faltava, no qual apresentava aos leitores o jornal aos domingos, Roberto Marinho afirma:

“O dia do descanso existe para assegurar o mais demorado reencontro com o mundo. Nos dias comuns, somos absorvidos pelo imediato, por força das obrigações rotineiras que mal nos dão tempo para olhar em volta. Principalmente numa hora como esta, de consolidação e desenvolvimento industrial do país. Aos domingos podemos desviar mais calmamente os olhos para os outros e para a vida que se estende além das circunstâncias habituais. E a função do jornal também é esta: trazer à presença do leitor os acontecimentos e paisagens que lhe estão distantes.”

No mesmo ano do lançamento da edição dominical, João Roberto Marinho, hoje vice-presidente das Organizações Globo e presidente do Conselho Editorial, começou a trabalhar no jornal como diagramador. Tornou-se, depois, repórter de esportes, de economia até chegar à vice-presidência, em 1982. Dessa época, ele lembra: “Era máquina de escrever. Faltava letra, tecla. Um barulho louco. A redação de O Globo sempre teve profissionais muito motivados, além de talentosos.  O Globo era imbatível em quantidade de informação”.

José Roberto Marinho começava a trabalhar na área de polícia. “A minha grande lição foi ver o mundo como ele era. Eu vivi tudo quanto é caso: caso de maluco, assassinatos famosos, casos de tortura. Eu ficava lá no fundo da redação, no telefone, ligando para as delegacias, IML. Foi uma vivência impressionante.” José Roberto Marinho tornou-se coordenador das editorias Nacional e Política e, em 1981, foi promovido a subchefe de redação.