Década de 1990

Década de 1990

Inauguração do Projac, aquisição de equipamentos digitais, aposta no jornalismo investigativo. Nos anos 1990, Roberto Marinho redobrou o investimento em novos talentos e tecnologia, aprimorando cada vez mais a programação e ratificando o chamado Padrão Globo de Qualidade. Em 1997, Boni virou consultor da vice-presidência e Marluce Dias da Silva assumiu o cargo de diretora-geral da Rede Globo. 


Jornalismo

Um dos maiores acontecimentos do jornalismo nos anos 1990 foi a chegada de Evandro Carlos de Andrade para dirigir a Central Globo de Jornalismo (CGJ), em 1995. Ex-diretor de redação do jornal O Globo, cargo que ocupou por 24 anos, o jornalista imprimiu sua marca na TV, investindo ainda mais em informação de qualidade.

Quando foi convidado para a direção da CGJ, Evandro ouviu de Roberto Irineu e João Roberto Marinho: "Você está sendo convidado para sinalizar que nós vamos fazer um telejornalismo absolutamente isento, imparcial, sem amigos, sem inimigos, sem assuntos vetados, sem recomendações, sem preconceitos de nenhuma natureza. Obediente à lei, respeitoso da lei, dos direitos das pessoas. Isso é o que nós vamos fazer".

Assim que assumiu o cargo, o novo diretor retransmitiu a mensagem à equipe: "A partir de hoje, não existe assunto proibido aqui dentro. Não somos nem a favor nem contra ninguém, não temos amigos, nem inimigos". Uma orientação inequívoca de valorização da liberdade de expressão, tão cara ao jornalista Roberto Marinho. Após tantos anos de pressão da Censura, era assim que Roberto Marinho queria que fosse conduzido o jornalismo de sua televisão.

A gestão de Evandro foi marcada pela intensificação das reportagens investigativas, pela ênfase nas questões relativas à cidadania e pelo fortalecimento do jornalismo comunitário. 

“O Evandro vinha de jornal, gostava de informação, então ficava muito clara a disposição da Globo de investir em um noticiário de qualidade. Passou-se a dar mais ênfase ao jornalismo investigativo, talvez o filho mais querido dessa nova fase”, comenta o repórter André Luiz Azevedo.

As matérias investigativas e de denúncia realizadas ao longo dos anos 1990 ganharam não só destaque, como reconhecimento do público e da comunidade jornalística. Em 1996, por exemplo, o jornalista Caco Barcelos ganhou o Prêmio Vladimir Herzog, oferecido pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, com a reportagem “Riocentro – 15 Anos Depois”, exibida no programa Globo Repórter.

No Jornal Nacional, reportagens denunciando o trabalho infantil, a prostituição infantil, e a ação de policiais extorquindo e torturando moradores de uma favela no subúrbio de São Paulo tiveram grande repercussão, entre várias outras.

Para Roberto Marinho, aliás, a notícia só tinha credibilidade se fosse ao ar no Jornal Nacional. “Isso ele dizia com todas as letras, não era folclore”, afirma Carlos Henrique Schroder. “Jornalismo ele conhecia profundamente. Talvez não a dinâmica da televisão, do telejornalismo, mas a da informação. Para ele, a relevância da informação era muito clara. E a relação que ele tinha com o Jornal Nacional era muito forte”, acrescenta Schroder.

Evandro Carlos de Andrade também fortaleceu o telejornalismo comunitário, investindo ainda mais nos telejornais locais, que se voltaram para a prestação de serviços e o atendimento ao cidadão. O conceito foi levado para todas as emissoras e afiliadas.

A cobertura internacional, que já havia ganhado bastante destaque no final dos anos 1980, também cresceu, com grande participação dos escritórios da Globo no exterior. Foi um momento rico em grandes acontecimentos, como os conflitos no Oriente Médio e as transformações no mundo socialista com a queda do Muro de Berlim, a reunificação da Alemanha e o fim da União Soviética.

Uma das coberturas de maior destaque foi a da Guerra do Golfo, em 1991, que exigiu uma complexa operação. Pela primeira vez na televisão brasileira, durante a cobertura de uma guerra os correspondentes apareceram conversando entre si, em uma época em que a transmissão ao vivo ainda era uma operação arriscada, sujeita a falhas. 

Foi nos anos 1990, ainda, que o Jornal Nacional “mudou de cara”. Em 1996, atendendo a uma mudança de conceito na apresentação dos telejornais, os apresentadores Cid Moreira e Sérgio Chapelin foram substituídos pelos jornalistas Lilian Witte Fibe e William Bonner. Até então, as bancadas eram ocupadas por quem tivesse boa locução e presença no vídeo. Os jornalistas foram gradativamente assumindo a posição de apresentadores e, simultaneamente, a função de editores-chefes dos telejornais que apresentavam, passando mais credibilidade aos telespectadores. Hoje, todos os telejornais têm jornalistas na bancada. Em 1998, William Bonner passou a dividir a bancada com Fátima Bernardes. 

A outra grande aposta do jornalismo na época foi a produção de séries de reportagens, produzidas para ir ao ar nos telejornais ao longo de toda a semana. A ideia de oferecer ao telespectador uma abordagem mais aprofundada dos assuntos, dividida em capítulos, teve boa repercussão. Foram vários os temas tratados, como contrabando de armas, uso de agrotóxicos, reciclagem de lixo, situação do idoso, menores infratores, casas de jogos ilegais e drogas nas escolas. A série Fome no Brasil, feita pelo repórter Marcelo Canelas e exibida em 2001 no Jornal Nacional, foi uma das mais premiadas. Também se destacou a série Caminhos do Brasil, exibida em 1996, também no JN, em que Míriam Leitão percorreu os mais variados cantos do país para mostrar como a estabilização da economia tinha impactado a vida das pessoas.