Década de 1980

Década de 1980

Nos anos 1980, a Globo introduziu o uso do satélite na transmissão de sua programação para todas as emissoras e afiliadas, imprimindo maior qualidade aos programas. O jornalismo ganhou ainda mais agilidade, investindo na divulgação de notícias de forma imediata e instantânea para todo o país. 


Jornalismo

A década de 1980 foi marcada no jornalismo pela volta da democracia ao país, que ganhou forma no movimento das Diretas Já, foi abalada com a morte do presidente Tancredo Neves, eleito pelo voto indireto de um Colégio Eleitoral, e culminou na realização da primeira eleição para a presidência da República após 29 anos. Foi uma época de consolidação da abertura política – iniciada no governo de Ernesto Geisel e aprofundada no governo de João Figueiredo –, o que intensificou a cobertura do noticiário nacional. O volume de informações trocadas entre as emissoras e as afiliadas era tão grande que levou à criação, em 1985, de editorias especializadas no Jornal Nacional.

Também foi nos anos 1980, quando Roberto Marinho era muito atuante na emissora, que a Globo procurou dar mais identidade ao noticiário regional e ao jornalismo comunitário, criando os telejornais locais. Em 1983, estrearam os chamados Praças TV: SPTV (de São Paulo), RJTV (Rio de Janeiro), NETV (Região Nordeste), MGTV (Minas Gerais) e DFTV (Distrito Federal). Além das notícias locais, os telejornais apresentam reportagens ao vivo e matérias de serviço, como agenda cultural e informações sobre o trânsito.

Nesse momento, a Central Globo de Jornalismo já empregava, nas cinco praças em que a empresa tinha emissoras próprias (Rio, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte e Recife) e nos escritórios no exterior, cerca de mil profissionais, entre repórteres, editores, cinegrafistas, diretores de imagem, coordenadores, operadores de vídeo e de áudio.

No mesmo ano, houve outra criação relevante para o jornalismo, o Bom Dia Brasil (1983), o primeiro telejornal diurno a ser exibido em rede nacional pela Globo. Focado no noticiário político e econômico, com entrevistas e análises de comentaristas, o Bom Dia Brasil investiu no tom informal e na linguagem acessível, sempre com a preocupação de explicar ao telespectador os temas abordados pelo programa.

Outro projeto dessa época foi o Globo Rural, o primeiro programa jornalístico inteiramente voltado para o homem do campo.

Em 1982 estreou o Globo Cidade, que procurava reforçar a identificação das comunidades com a Globo. A emissora passou a investir mais tempo e recursos na cobertura local, estabelecendo um plantão permanente em diversas regiões da cidade e abrindo espaço na programação para as reivindicações do telespectador. 

“Esse foi o gancho ideal para ficar mais perto da população, ouvindo os desejos e anseios das comunidades. É um instrumento que funciona perfeitamente bem, até hoje, para as editorias locais. Nossa vocação é ser um jornalismo próximo do cidadão”, avalia o jornalista Renato Ribeiro, atual diretor da Central Globo de Esportes (CGESP), criada em 2009.

Diretas Já

Nos anos 1980, dois momentos da história do país colocaram o jornalismo da Globo na berlinda. Um foi a realização de manifestações públicas a favor da realização de eleições diretas para a presidência da República, movimento que ficou conhecido como “Diretas Já”. A Globo registrou os comícios pelas Diretas nos seus telejornais locais, mas, naquele primeiro momento, as manifestações não entraram nos noticiários de rede

A Globo era pressionada por vários segmentos da sociedade a se engajar nas manifestações pelas Diretas, mas sofria pressão dos militares para não cobrir os eventos. Woile Guimarães, então diretor dos telejornais de rede, diz que ministros e generais ligavam para Roberto Marinho, ameaçando até mesmo retirar a concessão para o funcionamento da emissora: “Acho que foi a maior pressão que a Rede Globo sofreu. Acompanhei um pouco a luta intestina dos profissionais, tentando se solidarizar com o Dr. Roberto, que recebia pressões, talvez as maiores das quais fui testemunha.”

Com toda a pressão, a Globo cobriu os comícios desde o primeiro momento no Fantástico, caso do primeiro comício pelas Diretas, realizado em 27 de novembro de 1983, no estádio do Pacaembu, em São Paulo; e os de Curitiba, Vitória e Campinas, ocorridos em janeiro de 1984, nos telejornais locais. O comício da Praça da Sé, realizado em São Paulo e o primeiro grande comício da campanha das diretas, foi ao ar no Jornal Nacional mas provocou polêmica.  Ainda que o telejornal tenha mostrado matéria de um minuto e três segundos, feita por Ernesto Paglia, mostrando em detalhes que o objetivo do comício era pedir eleições diretas para  presidente da República, a chamada do apresentador foi criticada por associar o comício às comemorações pelo aniversário de São Paulo. De fato os organizadores tinham marcado o comício para dia 25 de janeiro, dia do aniversário da cidade. Porém, a Globo foi acusada de não considerar a dimensão política do evento ao enfatizar a relação do comício com a festa na chamada para a matéria.

No comício na Candelária, no Rio de Janeiro, realizado em 16 de fevereiro e que reuniu um milhão de pessoas, a emissora mudou a sua programação para transmitir ao vivo a manifestação. Porém, nesse mesmo dia, a intimidação assumiu proporções inimagináveis. Segundo Roberto Irineu Marinho, no dia do comício no Rio de Janeiro, um helicóptero do Exército sobrevoou a sede da emissora, postando-se na altura de sua sala. “Foi um momento de certo pânico, e inclusive houve gente se jogando no chão. De qualquer maneira, era esse o tipo de jogo: assustar”, conta o atual presidente das Organizações Globo.

A manifestação, porém, foi exibida no Jornal Nacional, invadindo o horário da novela das oito. Toda a parte final do comício foi transmitida ao vivo e, mais tarde, a cobertura ocupou 16 dos 21 minutos do Jornal da Globo

Eleições 1989

Em 1989, o Brasil foi às urnas na primeira eleição presidencial pelo voto direto, em 29 anos. Entre o primeiro e o segundo turno da eleição, houve dois debates entre os candidatos Fernando Collor de Mello, do PRN, e Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ambos transmitidos na íntegra, por um pool formado pelas quatro principais emissoras de televisão do país na época: Globo, Bandeirantes, Manchete e SBT.

A Rede Globo apresentou duas matérias com edições do último debate: uma no Jornal Hoje e outra no Jornal Nacional. A segunda provocou polêmica. A Globo foi acusada de ter favorecido Collor tanto na seleção dos momentos como no tempo dado a cada candidato. Os responsáveis pela edição do JN usaram o mesmo critério de edição de uma partida de futebol, na qual são selecionados os melhores momentos de cada time. Após muita reflexão, a direção da empresa decidiu não mais editar debates políticos por considerar difícil eliminar subjetividades no processo de edição. Isto é, por mais que se tente a isenção e a precisão, sempre existirá a possibilidade de simpatias dos envolvidos favorecerem um ou outro candidato. Desde então, debates políticos devem ser vistos na íntegra e ao vivo.  

João Roberto Marinho fala sobre a posição do pai durante o episódio. Segundo o vice-presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho nunca passou nenhuma orientação em relação à edição do debate. “Durante a campanha para a eleição de 89, ele se mostrava mais simpático ao Mário Covas, mas não tinha preferência por nenhum candidato. Quando Collor e Lula passaram para o segundo turno, ele achava que seria melhor para o Brasil que o Collor fosse presidente, mas não passou  nenhum tipo de orientação ao jornalismo. Fizemos uma cobertura apartidária. Até que chegou o debate e fizemos duas edições. A do jornal da manhã puxou para um debate equilibrado, o que o debate não foi; e a edição da noite mostrou exageradamente que o Collor foi melhor. Ele não deu ordem nem para a edição da manhã nem para a da noite”, diz João Roberto.

“Aprendemos a lição de que um debate, por mais polêmico ou menos polêmico que seja, não pode ser editado. Tem questões das quais não se pode fazer um compacto. O que vivemos naquele momento foi um aprendizado, em meio a um processo de transformação para um processo mais democrático. Infelizmente, tivemos uma marca profunda”, avalia Carlos Henrique Schroder, na época produtor e editor dos assuntos nacionais do Jornal Nacional e, hoje, diretor geral da emissora.

Segundo Schroder, Roberto Marinho nunca fez nenhum tipo de pressão sobre a edição dos telejornais. O que prevalecia era a orientação do bom senso e da responsabilidade. “Ele dava total autonomia ao jornalismo. É de muita clareza esse posicionamento do Dr. Roberto. Sabendo do momento político, da audiência que a gente tinha, que era extremamente alta, e do poderio que nós tínhamos nesse sentido, ele queria que usássemos isso como arma positiva, nunca negativa”.