Na Rua Irineu Marinho

Na Rua Irineu Marinho

Em outubro de 1954, Roberto Marinho sentou-se à mesa e escreveu na sua Remington a crônica que marcaria o último dia de trabalho na sede antiga de O Globo, na Rua Bittencourt da Silva. Despedida foi publicada na primeira página. No dia seguinte, a redação e as oficinas do jornal foram  transferidas para o novo endereço: Rua Irineu Marinho, 35, centro do Rio de Janeiro. Era o início de processo de modernização, que incluía a aquisição de novos equipamentos gráficos. 


Nova sede e novas máquinas

Sede de O Globo na rua Irineu Marinho. Arquivo/Agência O GloboO novo prédio foi erguido numa área de 10 mil metros quadrados. Tinha cinco andares e era refrigerado por um potente sistema de ar condicionado. Os novos equipamentos gráficos colocavam O Globo em pé de igualdade com o que existia então de mais moderno na imprensa mundial. A rotativa Hoe contava com seis unidades. Tinha a capacidade de imprimir, de uma só vez, até 96 páginas,  com a possibilidade de  usar até  quatro cores em várias páginas. O equipamento era composto por uma estufa para secar as gravuras, equipada com unidades infravermelhas. Havia também um tanque-gabinete tríplice para revelar, fixar e lavar negativos; uma máquina de composição Cometa, com capacidade quase três vezes maior que o linotipo; uma prensa  pneumática; uma máquina de produção de matrizes de onde saem as “telhas” estereotipadas; uma terminadora de “telhas” e uma subestação de força, com suprimento de energia e  três transformadores General Electric trifásicos.

O Globo começou a ser impresso na nova rotativa, em outubro de 1954. Era a máquina mais  moderna do mundo na época e também uma das maiores: tinha 20m de comprimento por 7m de altura e pesava 500 toneladas. A nova rotativa automatizava várias fases do processo de rodagem do jornal e trocava as bobinas de papel em alta velocidade, sem diminuição do ritmo de impressão.

Novos tempos, novos ares, mas a rotina de Roberto Marinho na redação permanecia a mesma do início da carreira. Quem contou foi o jornalista Carlos Menezes que começou a trabalhar como copidesque do Globo,  em 1961, quando o jornal circulava às 10 horas da manhã.  Quando chegava à redação, às 5 horas, já encontrava  o diretor e seus irmãos. “Eles chegavam cedinho para acompanhar o que seria a manchete daquele dia. O Dr. Roberto passava o dia inteiro no jornal.”

Na sede da Irineu Marinho, Roberto Marinho verificava todas as etapas do processo de elaboração, produção e distribuição do jornal. Jorge Tiziano, ex-gerente de Operações e responsável pela distribuição do jornal por muitos anos, narra essa rotina: “Meu pai era o distribuidor e eu comecei como auxiliar. Todo os dias de manhã, meu pai esperava Dr. Roberto na portaria do jornal. Ele descia do carro e eram reportadas as informações da rodada do jornal. Foi o que eu passei a fazer depois que meu pai faleceu.” Durante seus trajetos de carro até o Globo, Roberto Marinho observava as ruas que não tinham ambulantes vendendo jornal no sinal. “Outras vezes, saía a pé pelas ruas do entorno do Globo para ver se todas as bancas tinham o jornal pendurado”, conta Tiziano.

Roberto Marinho era muito atento à reação dos leitores. Ia à rua apenas para observar qual o jornal as pessoas tinham nas mãos. O ex-diretor administrativo e conselheiro Luiz Paulo Vasconcelos relembra: “O primeiro lugar que ele passava era no distribuidor para saber como estava indo a venda do jornal, como tinha sido na véspera e como um determinado título tinha refletido na opinião pública.” 

Em julho de 1957, o jornalista inaugurou o auditório do jornal,  com a exibição do filme Guerra e Paz.  Estiveram  presentes o então prefeito do Rio, Francisco Negrão de Lima, autoridades, diplomatas estrangeiros, artistas, autoridades eclesiásticas e representantes das Forças Armadas. Ao longo dos anos, o auditório de O Globo teve uma relevante participação na vida da cidade, promovendo atividades abertas ao público, como filmes, cursos, palestras e debates.

Um ano depois, foi lançada a edição nacional de O Globo, com distribuição aérea para todo o Brasil. Entre 1958 e 1960, Roberto Marinho inaugurou duas sucursais do jornal - Belo Horizonte e Brasília – consolidando o projeto de  levar informação de qualidade  a milhares de brasileiros.

Em 1959, o jornal inovou mais uma vez. Publicou a primeira telefoto colorida.  A foto mostrava a rainha Elizabeth discursando, em Quebec, na inauguração do caminho de navegação direta entre os Grandes Lagos e o Oceano Atlântico, através do canal de São Lourenço.  A radiofoto, transmitida pela United Press Internacional, foi tirada de uma fotocor de Fitzgerald. Revelada e preparada para a transmissão em Montreal, no Canadá, chegou à redação por uma linha especial da Telerádio, via Nova Iorque.

Em entrevista, Roberto Marinho definiu o conceito de um bom jornal: “O teatrólogo americano Arthur Miller escreveu certa vez ‘um bom jornal é uma nação falando com seus botões’. Eu assinaria esta definição.”