O Início

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Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


O Globo e o primeiro Governo Vargas

A relação entre O Globo e o ex-presidente Getúlio Vargas foi controvertida desde o início.  Em 1930,  quando o então presidente Washington Luís foi deposto e uma junta militar entregou o poder a Getúlio, Roberto Marinho apoiou, através de seu jornal, o presidente interino. Contrário à política batizada de “café com leite”, na qual se revezaram no comando do país a elite paulista e mineira, o jornalista queria um regime democrático.  A relação com Getúlio, no entanto, começou a enfraquecer quando O Globo, seguindo uma linha editorial independente, apoiou a promulgação de uma nova constituição para o Brasil, em 1932. Vargas reagiu e, em 1934, O Globo foi suspenso por 48 horas.

Em 1935, ano da chamada Intentona Comunista, o jornal se posicionou contrário à ameaça de golpe comunista. Cerca de quinze dias após a revolta, entretanto, Roberto Marinho pautou o repórter Alves Pinheiro (que mais tarde seria chefe da redação de O Globo) para uma entrevista com Agildo Barata, um dos principais líderes do movimento, preso na Casa de Detenção. A entrevista foi facilitada pelo fato de Alves Pinheiro trabalhar também no gabinete de Filinto Müller, o chefe de polícia do Distrito Federal. A edição com a entrevista, no entanto, acabou sendo apreendida pela própria polícia, que, invadiu o jornal e impediu a publicação.

Em 1937, foi instituída a ditadura do Estado Novo, e O Globo foi ocupado por um censor.  O repórter Edmar Morel relembrou: “O censor destinado ao Globo era um pobre fotógrafo lambe-lambe, que fazia ponto no Passeio Público: analfabeto, escrevia o próprio nome com dificuldade e a cada minuto telefonava para saber se determinada matéria podia ser publicada.”

Roberto Marinho foi um fiel opositor ao Estado Novo. O Globo publicava, com frequência, editoriais contra o que considerava “o desvio do caminho democrático do governo Vargas”. Em 1939, o presidente criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão responsável pela censura e pelo controle dos meios de comunicação, formado por pessoas ligadas ao governo, mas também por entidades de classe. Roberto Marinho foi escolhido para representar os empresários.

O embate com a censura e a violência impostas à imprensa aconteceu logo na estreia de Roberto Marinho no conselho. O Estado de S. Paulo tinha sido invadido pela polícia e estava sob a intervenção do DIP. Marinho se posicionou contrário à intervenção.  Ele recordou o caso em 1967, mais de vinte anos depois, numa carta enviada ao jornalista Chagas Freitas: “No Estado Novo, a imprensa sofria as maiores humilhações, com as suas redações invadidas pelos censores, edições apreendidas, diretores e redatores detidos. (...) No caso específico do governo no Estado de S. Paulo, verificou-se que os três membros nomeados pelo governo aprovavam a intervenção e os três representantes de classe a combatiam. Os meus colegas representantes da ABI (Associação Brasileira de Imprensa) e do Sindicato dos Jornalistas acabaram se convencendo das razões do governo. Ainda assim, mantive-me na posição de defesa do Estado de S. Paulo.”

Muitos anos depois, numa conversa com os filhos (Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto), Roberto Marinho falou sobre o jornal de Ruy Mesquita: “O Estado de S. Paulo era um jornal não só cheio de tradições, como cheio de estrelas. De pessoas com muito valor e que faziam com que esses valores despontassem da melhor maneira possível.”