Na Rua Irineu Marinho

Na Rua Irineu Marinho

Em outubro de 1954, Roberto Marinho sentou-se à mesa e escreveu na sua Remington a crônica que marcaria o último dia de trabalho na sede antiga de O Globo, na Rua Bittencourt da Silva. Despedida foi publicada na primeira página. No dia seguinte, a redação e as oficinas do jornal foram  transferidas para o novo endereço: Rua Irineu Marinho, 35, centro do Rio de Janeiro. Era o início de processo de modernização, que incluía a aquisição de novos equipamentos gráficos. 


O Globo e os anos JK

O segundo governo de Getúlio Vargas terminou, em agosto de 1954, de forma traumática, com o suicídio do presidente. O Globo teve sua sede invadida por populares. Mesmo atacado, o jornal manteve a linha editorial e a missão de noticiar os acontecimentos políticos. O vice-presidente, Café Filho, assumiu o governo e, em outubro do ano seguinte, pouco mais de 15 milhões de eleitores foram às urnas para eleger o novo comandante da nação. As candidaturas envolviam os nomes de Juarez Távora e Milton Campos (UDN), Ademar de Barros e Danton Jobim (PSP), Juscelino Kubitschek e João Goulart (PSD) e Plínio Salgado (PRP).

O Globo apoiou Juarez Távola e Milton Campos (UDN) e criticou a candidatura de Juscelino Kubitschek e João Goulart (PSD/PTB). Mas JK venceu as eleições com 36% dos votos. Antes da posse, ainda em novembro de 1955, Café Filho foi afastado do governo após sofrer um ataque cardíaco. Carlos Luz, presidente da Câmara, assumiu seu lugar, sendo, no entanto, deposto dias depois, acusado de pretender dar um golpe para impedir a posse do candidato eleito, Juscelino. O Globo manifestou-se em defesa da posse de Juscelino. Nereu Ramos, presidente do Senado, terminou o mandato e passou o governo para JK.

Apesar dos distúrbios pré-posse, o mandato de Juscelino foi bem mais estável do que o de Vargas. O clima geral, no entanto, era ainda bastante tenso. O governo teve uma série de atritos tanto com a esquerda (greves e confrontos com os sindicalistas) quanto com a direita (rebeliões de Jacareacanga e Aragarças).

O Globo, no decorrer de 1956,  denunciou uma onda de intranquilidade e instabilidade financeira.  Os editoriais do jornal falaram de erros e contradições do PSD na política interna e externa e acusaram João Goulart de fornecer ajuda financeira aos países comunistas. A construção de Brasília foi um dos pontos chaves do descontentamento de Roberto Marinho com Juscelino. Ele via na transferência da capital federal do Rio de Janeiro para Brasília, um esvaziamento político da cidade. Em seus editoriais, o jornal também relacionava a inflação aos gastos financeiros do presidente e defendia a posição do Fundo Monetário Internacional, que recomendava restrição ao crédito.

Apesar de todas as suas críticas a Juscelino Kubitschek, Roberto Marinho não se opôs aos avanços que o governo trouxe para o Brasil. Fez oposição, mas não deixou de cobrir o seu Plano de Metas, assim como a implantação da indústria automobilística no país. Em 1959, quando oficiais da Aeronáutica lideraram uma revolta para derrubar o governo JK, O Globo condenou o movimento no editorial Contra o Brasil. No dia da eleição que elegeria o sucessor de Juscelino, o jornal defendeu o governo como consolidador da democracia nos chamados “anos dourados”.