O Início

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Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


O suicídio do presidente

No início de agosto de 1954, Carlos Lacerda sofreu um atentado que resultou na morte do major da aeronáutica, Rubens Vaz. O episódio ficou conhecido como o Atentado da Rua Tonelero. O jornal noticiou o crime com grande destaque, mas nos dias seguintes publicou artigos recomendando o respeito à lei e a manutenção da normalidade constitucional.

O Globo acompanhou as investigações que acabaram identificando os mandantes do atentado entre figuras de confiança de Vargas. O presidente não resistiu à tensão do momento político e no dia 24 de agosto se matou com um tiro no peito. O suicídio gerou uma onda de choques.  Versões sobre os fatos  chegaram a considerar o jornal como um dos conspiradores da derrocada de Getúlio, gerando a crise que o levou ao suicídio. A acusação é falsa. Mesmo tendo se oposto às políticas do governo, O Globo não tramou para desestabilizar e tirar Vargas do poder. O jornal sempre apostou no cumprimento da Constituição, quando havia alguma em vigor, e na institucionalização do regime, por meio de uma constituinte, em momentos como em 1930 e 1945. Cinco meses antes da morte, Getúlio já vinha enfrentando investidas da oposição na segunda tentativa de aprovar o impeachment do presidente. Na época, a posição de O Globo foi apoiar o mandato de Getúlio até 1956.

Numa situação extrema, Getúlio cometeu o suicídio depois de ficar comprovado que sua guarda pessoal participara do atentado contra Carlos Lacerda. Antes de disparar o tiro fatal, o presidente se reuniu com o ministério e aceitou tirar uma licença. Mas os generais queriam a sua saída imediata.  Depois da morte, O Globo defendeu a posse do vice, Café Filho, na presidência e, em editorial, evitou julgar o presidente morto.

Carros do jornal O Globo incendiados pela população após o suicídio de Getúlio Vargas. 08/1954. Arquivo/Agência O GloboMas grupos simpatizantes de Getúlio, movidos pela paixão, atacaram a sede de O Globo no decorrer do dia 24 de agosto. Carros de reportagem foram queimados e o jornal impedido de circular. O dia teve momentos dramáticos. Rogério Marinho, então vice-presidente do jornal, viveu esse momento: “Todas as caminhonetes do Globo foram incendiadas. Nessa época, tínhamos entradas nas duas extremidades do Globo, uma na Bittencourt da Silva com a porta de madeira, e outra nas oficinas, com uma grade dessas de levar ao chão. Ficaram os nossos rapazes e o pessoal da oficina forçando pra barrar as pessoas que estavam quebrando tudo. Dentro da redação, estávamos eu, o Roberto e o Ricardo. Estavam tentando entrar no Globo. Se entrassem, imagina o que ia acontecer. Quando o pessoal fazia força e a porta já cedendo, alguém gritou: ‘Cuidado que vai explodir!’ E como nós tínhamos, dentro da oficina, uns tambores de gasolina , por um momento, eles pararam. Foi o tempo suficiente para o pessoal passar o cadeado e evitar uma tragédia.”

Francisco  Graell, ex - conselheiro do jornal, também rememorou os episódios: “Neste dia da morte do Getúlio, o povo irado quis invadir o Globo. Queimaram quatro furgões de distribuição. O III Exército teve que vir proteger os funcionários com tropas armadas. Passamos maus momentos.  O  suicídio de Getúlio foi o maior trauma que esse país já teve.”

Um mês após a morte de Vargas, no dia 26 de setembro, O Globo publicou O Livro Negro da Corrupção, um caderno especial sobre os acontecimentos que levaram ao atentado contra Lacerda e ao suicídio do presidente. O caderno relatava os bastidores do Palácio do Catete, onde atuava, segundo o jornal, “a pior malta já reunida fora das prisões do Estado”. No editorial As Razões de Nossa Atitude, O Globo afirmava considerar um “dever indeclinável divulgar (...) as provas materiais dos crimes, negociatas, degradações e formas de corrupção levadas a cabo dentro do próprio palácio presidencial”. Além de reportagens, o suplemento trazia trechos do relatório do inquérito conduzido pela Aeronáutica na base do Galeão e textos assinados por Carlos Lacerda, Gustavo Corção e Tristão de Athayde.

Dez anos depois, Roberto Marinho e Lacerda romperiam relações. O motivo foi a recusa de Roberto Marinho em apoiar o projeto político de Lacerda, que pretendia concorrer as eleições presidenciais prometidas pelo marechal Castelo Branco após o golpe de 1964.