Consolidação da liderança

Consolidação da liderança

Roberto Marinho queria um jornal semelhante aos melhores do mundo. Entusiasmado com tecnologia, investia na modernização de equipamentos e instalações, mas sem ostentação. Gostava de qualidade. Essa exigência  o levou  a transformar O Globo, a partir dos anos 1970, num periódico matutino, com circulação aos domingos, com suplementos e novas seções. Ao lado dele, um interlocutor capaz de cumprir a missão, Evandro Carlos de Andrade. O colaborador ajudou Roberto Marinho a concretizar os seus sonhos empresariais e jornalísticos.


Off-set e a cor

As impressoras  off-set  eram rápidas. Capazes de compor 500 linhas por minuto, enquanto as velhas linotipos se limitavam a 3,5 linhas no mesmo período ou, no máximo, 60, no caso dos modelos mais recentes. Roberto Marinho queria esses equipamentos no Globo. Os companheiros resistiram. Mesmo assim, ele comprou.

Em março de 1975, o empresário e jornalista investiu US$ 8 milhões na aquisição de 18 impressoras off-set Goss Metroliner de três dobradeiras. Foram substituídas as 12 unidades Hoe, que usavam parcialmente chapas de moldes em fotopolímero.

O sistema off-set eliminava a composição tipográfica (letterpress), substituindo-a pela fotocomposição segundo o sistema OCR (leitura ótica de caracteres). Além de economizar papel, o equipamento de fotocomposição permitia melhor impressão, mais nitidez nos meios-tons e no uso de cores. O conjunto, operado por computadores IBM, tinha capacidade de imprimir 70 mil exemplares por hora. Com o novo equipamento, o jornal passou a ser rodado mais cedo, com mais qualidade de impressão e de papel, e se começou usar cor.

Mas a chegada das impressoras off-set no jornal deu o que falar. Roberto Marinho estava decidido pela compra dos equipamentos. Para se certificar que estava fazendo um bom negócio, mandou Roberto Irineu e dois jornalistas, Henrique Caban e José Augusto Ribeiro,  visitar jornais norte-americanos, como o New York Times e o Wall Street Journal.  Na volta, eles nem tiveram tempo de avaliar o resultado da visita quando Roberto Marinho os chamou na sala  e perguntou:  ‘Qual foi a impressão de vocês?’ José Augusto Ribeiro respondeu: “Dr. Roberto, vou repetir uma coisa que eu ouvi de um editor no New York Times: jornal que não optar pelo off-set e pelo computador na redação está começando a se suicidar”. O empresário virou-se para a secretária, mandou chamar Francisco Graell,  então diretor superintendente do Globo, e disse: ‘Graell, pode mandar assinar o contrato do off set e dos computadores’”.

Roberto Irineu Marinho, presidente das Organizações Globo, recorda a decisão: “O papai queria o off-set desde o início. Ele já tinha entendido que o jornal iria ser em cores, um jornal mais moderno. Mas ele estava sozinho na escolha. Ele queria, democraticamente, decidir por maioria. Ele queria que os outros se convencessem do que ele pretendia.”    

A decisão pegou o jornal de surpresa. Inclusive o diretor Evandro Carlos de Andrade. Como a maioria dos diretores era contra, Roberto Marinho achava que ele também não gostava da ideia. Mas Evandro mal conhecia o processo: “Os diretores diziam que era um desperdício de dinheiro, tinta e papel. E ele, sozinho naquela decisão, perguntava: ‘o que você acha? ’ Eu respondia: ‘Não acho nada, porque não sei. Não vou dar palpite num negócio que eu não sei.’” Evandro dizia que a decisão do empresário foi fundamental para consolidar, do ponto de vista industrial, essa passagem do Globo para ser atualmente um dos principais jornais do país.    

Ana Luisa Marinho, filha de Rogério Marinho e ex-gerente de Marketing Institucional de O Globo, fala dos avanços que a nova impressora trouxe para o jornal: “Com o off-set, entrou a questão da cor, a disponibilidade. A máquina permitia mais páginas em cores. E era mais nítido. A fidelidade da cor em relação à foto original era muito maior. O preto ficou mais preto, o amarelo mais amarelo. O jornal ganhou em velocidade, produção e impressão. Ficou mais bonito.” 

João Roberto recorda que Roberto Marinho tinha obsessão pela qualidade gráfica e pela cor: “Foi uma decisão do meu pai. Ele era convicto do que estava fazendo. Defendia que a cor era o futuro e enfrentou os que achavam que somente o conteúdo interessava o leitor.” 

A chegada da cor suscitou uma discussão no jornal. Evandro Carlos de Andrade lembrava que a redação questionava a decisão: “Jornal tem que ser em preto-e-branco  ?  A cor informa ou não informa ? Se você vir uma camisa de time de futebol vermelha e preta e uma outra branca e preta, você sabe que um torce pelo Flamengo e o outro pelo Botafogo, não é ? Então, é impossível desconsiderar o fato de que cor é informação. “

Em outubro de 1976, os novos equipamentos gráficos começaram a ser instalados em um prédio de 13000 m2 especialmente construído, na Rua Marquês de Pombal, a poucos metros da sede do jornal. Dois anos depois, a edição de O Globo do dia 13 de abril foi integralmente rodada em off-set.

O jornalista Luiz Alberto Bittencourt diz que a chegada do off-set não influiu no dia a dia da redação, mas no tamanho das matérias. “ Todas as reportagens eram impressas em corpo sete, muito pequeno. Eram textos enormes. Se o repórter escrevesse menos de três laudas, era porque não tinha apurado direito. E era excomungado quem baixasse matéria num corpo maior. Ou seja, escrevia-se demais. O Globo era um jornal cansativo de ler, muito pesado, pouco convidativo. Com o passar dos anos, foram adotando corpos maiores e as matérias reduziram de tamanho em benefício do leitor.”