Transformações dos anos 1990

Transformações dos anos 1990

Os anos 1990 foram marcados por transformações em O Globo. A direção de Jornalismo foi mudada e houve uma importante reforma gráfica do jornal. O Globo permaneceu conquistando prêmios e inaugurou o novo parque gráfico, um moderno complexo industrial que virou cartão-postal do município de Duque de Caxias.


Reforma gráfica

Roberto Marinho com o primeiro número de O Globo após a reforma gráfica, 19/12/1995. Ivo Gonzalez / Agência O GloboA credibilidade e a identidade visual simbolizavam o patrimônio de O Globo. Roberto Marinho acreditava que o formato tornava a sua conduta mais transparente para o leitor. Por isso, rejeitava mudanças drásticas na estética do jornal. A primeira grande reforma gráfica de O Globo só aconteceu depois de muita discussão, em 1995, com o redesenho feito pelos designers Milton Glaser e Walter Bernard.

Na véspera da reforma, O Globo caracterizou o novo formato: “A mudança começa pelo logotipo colorido e leva a ajustes editoriais, como uma hierarquização mais clara das notícias. Além disso, o redesenho troca a tipologia, valoriza as fotos e cria duas páginas diárias de opinião. Surge, aos sábados, o suplemento Prosa & Verso.”

João Roberto Marinho lembra que, na época, a decisão foi ousada e difícil por causa da preocupação de Roberto Marinho com seus leitores: “Meu pai achava que a gente não tinha o direito de surpreender os leitores em função da relação tão próxima que eles tinham com o jornal. Ele achava que a reforma poderia gerar uma insegurança horrível no público”. Segundo João Roberto, que na época ocupava o cargo de vice-presidente do jornal, Roberto Marinho só foi convencido depois de ter certeza que o leitor seria exaustivamente informado do que viria acontecer: “Nós argumentávamos que a solução seria um trabalho de preparação do leitor. O que foi feito. Aliás, muito bem feito e foi um sucesso”.

Leo Tavejnhansky, editor de arte, recorda que o ano de 1995 foi bastante movimentado no jornal: “Resgatamos o dinamismo. A manchete e as fotos ficaram maiores, as matérias mais aprofundadas. O jornal ficou mais organizado. Mais fácil de ler. Lembro que o dr. Roberto teve uma certa resistência mas depois aceitou e o jornal surpreendeu."

O então diretor-executivo de O Globo, Ali Kamel explica o impacto da reforma na evolução do jornal: “O Globo precisava  fazer um jornalismo mais explicativo, analítico, investigativo. Para consagrar esse projeto editorial é que nós fizemos um novo projeto gráfico. O Globo tinha claro qual o seu objetivo editorial e, a partir dali, demos suporte gráfico àquelas ideias.” Ali Kamel recorda que, depois de muitas tentativas, os leitores aprovaram o novo layout e a forma de relatar os fatos: “Os leitores querem um jornal mais aprofundado, mas detestam a impressão de um texto grande. Assusta. Eles acham que têm muita coisa para ler e começam a se sentir culpados porque não vão conseguir ler aquilo tudo. A gente entendeu, com a prática, que você pode ser profundo, analítico, interpretativo, mas não precisa ser nem longo, nem chato.”

“O jornal pode ser profundo, analítico, interpretativo sem ser longo ou chato.” (Ali Kamel, ex-diretor-executivo do jornal e atual diretor de Jornalismo e Esporte da Globo)

Merval Pereira era o diretor de redação quando houve a reforma gráfica. Em entrevista ao Memória Globo, ele lembra a responsabilidade de comandar um jornal consolidado pelo prestígio político e pela credibilidade.

“Fiquei muito tempo sem dormir.  Eu me coloquei uma meta que era manter o nível do jornal. O redesenho foi um marco histórico. Eu vi o projeto gráfico ainda como correspondente em Nova York. Participei desde o início. O dr. Roberto estava muito temeroso de mudar o jornal. O Globo era vitorioso e ele achava que mexer no visual do jornal poderia ser um perigo. Quanto assumi a redação, a resistência tinha sido vencida. Com o redesenho, o jornal ganhou uma dimensão nova. Eu insisti muito com o Evandro pra ter mais páginas de literatura e de opinião no jornal. Conseguimos.”

Foi a partir de 1995, que O Globo, sob o comando de Merval Pereira, implantou o site O Globo On e começou a se posicionar sobre o papel do impresso com as novas mídias crescendo de aceitação. “Começamos a investir em grandes reportagens. Apostar numa matéria aprofundada todo dia. Analisar mais do que, simplesmente, informar. O Globo começou a ser apontado como um jornal imprescindível de ler. Ganhou esse espaço pelo fato de que era o jornal que mais informava. Essas grandes reportagens, que renderam muitos prêmios, ajudaram a fixar uma imagem de credibilidade. Nós abordamos, em detalhes, pontos nevrálgicos da política brasileira, como a guerrilha do Araguaia e o atentado no Riocentro.”

Na opinião de Roberto Marinho, O Globo protagonizou “a maior reforma gráfica de um jornal brasileiro”. Em uma carta assinada e publicada na página três daquele dia, o empresário e jornalista analisou a importância do novo projeto gráfico.