O início

O início

Roberto Marinho inaugurou a Globo em 26 de abril de 1965, quando tinha 60 anos de idade. Para realizar seu sonho, o jornalista enfrentou uma CPI e empenhou todos os seus bens. 


Time-Life

No dia 24 de julho de 1962, Roberto Marinho firmou um acordo de assistência técnica com o grupo de comunicação norte-americano Time-Life, proprietário de alguns canais locais de TV nos Estados Unidos. O acordo também previa uma joint venture, uma participação financeira sem qualquer interferência na gestão da empresa, que nunca entrou em vigor.

Apesar da regularidade do contrato, que deixava claro que o Time-Life não teria qualquer interferência direta ou indireta na direção ou administração da TV Globo, sua legalidade foi questionada pelo então governador do Rio, Carlos Lacerda, que tinha uma briga pessoal com Roberto Marinho por ele não ter lhe apoiado no desejo de se candidatar à presidência da República. O governador aliou-se ao deputado João Calmon, presidente da Abert (Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão) e um dos condôminos dos Diários e Emissoras Associados, o principal grupo de comunicação da época e proprietário da TV Tupi. A briga foi parar no Congresso e na televisão. O argumento dos desafetos de Roberto Marinho era de que o contrato feria o artigo 160 da Constituição brasileira, que proibia a participação de capital estrangeiro na gestão ou propriedade de empresas de comunicação. O jornalista enfrentou uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), instaurada em 1965 para verificar a constitucionalidade do contrato. Dois anos depois, o acordo foi considerado legal.

“O acordo estabelecia que Roberto Marinho ia dirigir tudo. A única coisa que o Time-Life ia fornecer era a assistência técnica”, confirma Joe Wallach, americano enviado pelo grupo Time-Life para dar consultoria técnica.

Para muitos, as denúncias tinham clara inspiração política e atendiam aos interesses do grupo dono da TV Tupi para fazer frente ao crescimento da TV Globo. “Na realidade, era um intercâmbio, mais um acordo de assistência técnica entre duas empresas, que nada tinha a ver diretamente com os interesses do departamento de Estado ou do governo brasileiro. Eu acho que a história fará justiça, não só ao Roberto Marinho, como ao grupo de profissionais que estava empenhado em levar às últimas consequências, para benefício da Globo, o acordo Time-Life”, afirmou Armando Nogueira, diretor de jornalismo da Globo durante mais de 20 anos.

“Foi uma luta bonita que o Roberto travou com o Carlos Lacerda e os Diários Associados, que não queria outra empresa de TV no Brasil. O erro dos inimigos do Roberto foi pensar que, se o Time-Life fosse embora, o Roberto desistiria do projeto. Acontece que o Time-Life foi embora e o Roberto assumiu tudo sozinho. O tiro saiu pela culatra”, analisava Luiz Alberto Bahia, que foi editorialista do jornal O Globo.

Em 1971, Roberto Marinho pôs fim ao acordo com o Time-Life. Para ressarcir o grupo, pegou empréstimos em bancos nacionais, empenhando todos os seus bens pessoais, incluindo a casa do Cosme Velho, quadros e outras propriedades.

“O papai se viu com uma necessidade de caixa enorme. Hipotecou 100% dos bens que tinha. Como eu era o único filho emancipado, tive de assinar junto com ele, porque senão eu poderia alegar, no futuro, que ele estava insano. Na época do empréstimo, ele tinha mais de 65 anos”, revela Roberto Irineu.

Segundo Joe Wallach, Roberto Marinho devia três milhões e oitocentos e cinquenta mil dólares ao grupo Time-Life, a serem pagos em quatro anos. “Pagamos uma pequena entrada de quinhentos mil dólares. Dr. Roberto hipotecou a casa dele no Cosme Velho para pagar essa quantia”, revela Wallach.

Roberto Marinho enfrentou períodos difíceis para honrar o pagamento da dívida. As parcelas foram pagas assiduamente mas, em algumas ocasiões, foi preciso recorrer aos amigos. A ajuda do banqueiro José Luiz de Magalhães Lins foi providencial em um desses momentos, quando o empresário corria o risco de perder tudo que havia penhorado por não ter como pagar uma das parcelas.

 “A última remessa que a Time-Life fez foi em junho de 66. Levamos mais seis anos até começar a empatar. Houve prejuízo sempre. Pegamos dinheiro em banco, com juros altos, e o próprio Sílvio Santos, que ganhava muito dinheiro no programa dele, nos emprestava dinheiro.”, conta Joe Wallach, que, após a saída do Time-Life, optou por continuar trabalhando com Roberto Marinho, tornando-se funcionário da empresa.

Roberto Marinho levava uma vida com gastos controlados mas não deixou de apostar na produção de uma televisão de qualidade na programação, nos equipamentos e na infraestrutura de trabalho.

 “O Dr. Roberto vinha com um fusca que ele tinha, e encostava em frente ao prédio. Ele só interferia na filosofia política e jornalística da emissora. Na parte de espetáculo, não era com ele. ‘Vocês façam o que acharem melhor’”, conta João Lorêdo, diretor de vários programas da linha de shows da Globo na primeira década da emissora.

Com o crescimento da TV Globo nos anos 1970, o restante das parcelas foi sendo pago com a venda de espaço publicitário na grade. Os anúncios também foram cruciais para investir no aprimoramento da programação e na modernização de equipamentos. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que começou a trabalhar na Globo em 1967, fala sobre o papel do mercado publicitário:

“Quando chegamos na TV Globo, a situação financeira era  pouco confortável. Dr. Roberto havia perdido muito dinheiro nos dois primeiros anos da emissora. Ele acreditou na televisão, e tinha empenhado sua própria casa para colocar dinheiro ali. Não tivemos injeção de dinheiro do Time-Life, que apenas tinha feito a construção do prédio. Foi através das agências de publicidade que conseguimos o dinheiro para financiar a nossa produção, a nossa programação, o nosso equipamento e, no final, até para pagar a dívida com o Time-Life”.