O início

O início

Roberto Marinho inaugurou a Globo em 26 de abril de 1965, quando tinha 60 anos de idade. Para realizar seu sonho, o jornalista enfrentou uma CPI e empenhou todos os seus bens. 


Um homem de visão

Os telespectadores que assistiram à entrevista do jornalista e empresário Roberto Marinho a Heron Domingues no programa Noite de Gala, da TV Rio, nos idos de1962, não podiam suspeitar que testemunhavam o anúncio daquela que viria a ser a maior rede de televisão do Brasil.

“Sim, meus caros amigos, acreditei e acredito neste nosso país.” (Roberto Marinho) 

Roberto Marinho tinha 60 anos de idade quando a TV Globo saiu do chão. O jornalista não contou com o apoio da família para expandir os negócios. Ele já era um homem bem-sucedido e prestigiado, dono do jornal O Globo, da Rádio Globo e da Rio Gráfica, mas não hesitou em vender bens para viabilizar seu projeto.

“Ele tomou a decisão de fazer a Rede Globo sozinho. Uma decisão difícil e angustiada”, conta Roberto Irineu, filho mais velho do empresário, e presidente das Organizações Globo. “Foi uma prova de coragem enorme dele, fazer um investimento desses num momento em que não tinha no Brasil ninguém disposto a colocar dinheiro nas Organizações Globo”, pensa o engenheiro Herbert Fiuza, que participou da implantação da TV. 

Para Roberto Marinho, no entanto, a luta era combustível. Como atesta João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo: “Papai tinha uma garra quase inigualável para tomar risco e perseguir um objetivo. Ele adorava os desafios. Quanto mais complicado, mais gostava”. 

Além de tudo, Roberto Marinho era um apaixonado por trabalho. “Ele tinha muita capacidade de trabalho. Era um workaholic total”, afirma José Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo.

“Quando nasceu a TV, por Assis Chateaubriand, a PRF3 em São Paulo, o Dr. Roberto ficou curioso", lembra o publicitário Mauro Salles, diretor de Jornalismo da TV Globo em seu primeiro ano de vida. E logo de início ficou convencido de que ter uma emissora de televisão era uma necessidade imprescindível para quem vivia do ramo da comunicação. 

“Sou de temperamento retraído e as luzes e as câmaras da TV me assustam. Estou, aliás, montando uma emissora de televisão, a TV Globo, que espero dirigir... a uma prudente distância.” (Roberto Marinho) 

A TV Globo logo viria a ocupar lugar de destaque no coração e na agenda de Roberto Marinho. Francisco Graell, que foi superintendente do jornal, revelou que chegou a ficar enciumado quando o jornalista voltou sua atenção para a televisão. “Tivemos até umas certas brigas, porque ele só tinha a TV Globo na cabeça. Era a paixão dele naquele momento”, afirmou Graell, exaltando a coragem de Roberto Marinho em se aventurar no novo empreendimento. “Não é brincadeira, um sujeito de 60 anos entrar numa parada dessas como ele entrou, se endividando até o pescoço para fazer uma TV naquela época, naquelas condições, era uma coragem incrível! Eu considero um dos fatos mais importantes, do meu tempo do Globo, o nascimento da TV Globo”.

A decisão de fundar uma emissora de TV aos 60 anos, considerada naquela época uma idade muito avançada, sempre foi encarada com admiração pelos amigos e profissionais que trabalharam com Roberto Marinho. Até porque o jornalista não entendia nada de programação e gestão de televisão. O que ele, humildemente, reconhecia. Oito meses após o lançamento da TV, entregou a direção da Globo ao jovem Walter Clark, então com 27 anos de idade. Logo depois, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, integrou-se à equipe. Roberto Marinho deu autonomia aos dois.

“O que ele fez nos primeiros anos da Rede Globo, naquela idade, arriscando tudo que tinha e mais alguma coisa para fazer um veículo novo do qual não entendia, é algo fantástico”, salienta João Paiva Chaves, que foi assessor de Walter Clark (diretor-geral da Globo até 1977), e amigo de Roberto Marinho.  Paiva Chaves destaca que o jornalista nem sempre concordava com as ideias daquele grupo de jovens que estava à frente de sua estação, “mas aceitava, porque achava que era a maneira de tentar fazer”.