O Início

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Irineu Marinho não se deixou abater pela perda do jornal de maior sucesso da época. Quase 150 dias após deixar a presidência de A Noite, lançou seu novo vespertino, O Globo. 


Vocação para o jornalismo

Antônio Leal da Costa e Roberto Marinho em O Globo, década de 1930. Arquivo/Agência O GloboComo secretário de redação, Roberto Marinho observou as decisões e a rotina de Eurycles de Mattos. Acompanhou o dia a dia do jornal. Do óleo, tinta e graxa das oficinas às discussões na redação. Aos poucos, foi descobrindo a verdadeira vocação: o jornalismo, carreira que o acompanharia durante décadas.

Ainda “foca”, não fazia corpo mole. Chegava cedo e comia no próprio trabalho. Média e pão canoa. Depois do desjejum, redigia as notícias, diagramava e elaborava a paginação do jornal. “No dia seguinte ao enterro do meu pai, comecei a chegar ao Globo às quatro horas da manhã e a sair às sete da noite. Fiz isso durante mais de dez anos. Lembro-me que chegava em casa e me atirava na cama, onde muitas vezes jantei. Dormia até às três horas da madrugada seguinte. E recomeçava... Fui diretor redator-chefe. Esse era o meu título. Mas fui também secretário, chefe do serviço internacional, chefe do copy-desk, da seção de Polícia, da paginação, etc., etc.”

“No dia seguinte ao enterro do meu pai, comecei a chegar ao Globo às quatro horas da manhã e a sair às sete da noite. Fiz isso durante mais de dez anos.” (Roberto Marinho)

O ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, o jornalista Austregésilo de Athayde, era um admirador da dedicação de Roberto Marinho ao trabalho: “Durante décadas, Roberto Marinho foi o primeiro a chegar à redação e o último a sair. Nada ali era indiferente ou desconhecido para ele.”

 Apesar de não gostar de reuniões com muita gente, o empresário queria ter controle total sobre o jornal. Lembra Argeu Afonso, ex-secretário de redação: “Ele conhecia muito da técnica jornalística, da indústria do jornal. Conhecia mais do que todos nós. Desde a linotipia, diagramação até a opinião que, aí sim, ele comandava mesmo“.

Pedro Gomes, ex-editorialista, costumava ser convocado por Roberto Marinho quase todos os dias. Nenhuma opinião saía no jornal sem passar por ele. “Eu lia o editorial para ele de onde estivesse. Mesmo que fosse pelo telefone.”

“Ele era um  empresário com grande senso jornalístico. Sabia o que era bom para o jornal e nunca deixou que os interesses dos negócios prejudicassem o conteúdo da publicação,” ressalta Luiz Garcia, colunista do Globo. 

Afonso Romano de Sant'Anna escreveu para o jornal durante muitos anos e se tornou amigo de Roberto Marinho. O escritor conta que ele era muito atencioso e aberto ao diálogo: “Quando eu entrei para O Globo, o dr. Roberto me perguntou: 'onde é que você quer que saia a sua crônica?' Era uma pessoa original. Criava um clima de liberdade e espontaneidade entre as pessoas.”

O jornalista Mauro Salles recorda ter visto, muitas vezes, Roberto Marinho escrever desde o editorial à manchete de O Globo: “A sanha dele era o jornalismo. Às vezes, a montagem final era feita na oficina. O doutor Roberto gostava muito de descer para fazer a primeira página.”

“O jornal não é somente um instrumento de informações, mas acima de tudo, de captação e expressão dos anseios nacionais.” (Roberto Marinho)

Sobre o papel do jornalismo como condutor de transformações que contribuem para que o país seja mais justo e democrático, Roberto Marinho comentava: “Recebi de Irineu Marinho, meu pai, a herança de uma lição e um desafio. A lição de que o jornal não é somente um instrumento de divulgação de informações, mas acima de tudo, de captação e expressão dos anseios nacionais. O desafio de não medir sacrifícios na luta para dar atendimento aos mesmos. “

O Globo passou a incentivar a participação dos leitores, que ligavam para a redação a fim de informar sobre as notícias que julgavam importantes. O jornal começava a despontar como um porta-voz vigoroso das necessidades e desejos dos cariocas. Um ano depois da fundação, em 1926, O Globo lutava por sua independência editorial. Uma edição especial com o balanço do governo Arthur Bernardes no último dia do  mandato presidencial,  que denunciava casos de violência e corrupção, foi impedida de circular. Neste período, Roberto Marinho não sabia dos embates que teria que enfrentar diante de governos que buscavam manipular donos de jornal com verbas publicitárias em troca de apoio político.