Mundo

Mundo

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


A desvalorização do dólar e o Brasil

O Globo, 23/09/1985, p. 3. Arquivo / Agência O GloboA reunião extraordinária convocada ontem em Nova York pelo governo americano com os ministros da área financeira dos cinco maiores países industrializados assinala o nível mais crítico atingido pela desordem econômica mundial. Os Estados Unidos não têm condições de manter as suas fronteiras abertas para o fluxo de capitais atraídos pela crescente valorização de dólar, pois esta, elevando os custos dos produtos americanos, retira-lhes a competitividade com artigos europeus ou japoneses, exigindo medidas protecionistas que poderão redundar numa guerra comercial em que, segundo admitiu o presidente Reagan, “só haverá perde- dores”.

Não se mostra fácil a saída da crise. A perspectiva de se caminhar para uma desvalorização gradual da moeda americana poderia criar um clima de insegurança capaz de detonar uma fuga de capitais, pondo em risco a posição dos bancos dos Estados Unidos, já perturbada pela dívida dos países latino-americanos, agravada com o drama do México. Além disso, o sistema financeiro americano preocupa-se com os débitos das grandes companhias de navegação e comércio, bem assim com a redução das disponibilidades dos produtores de petróleo, cuja incessante queda de preço só poderá ser detida se, após a destruição das instalações da ilha de Kharg, há poucos dias, o Irã cumprir a terrível ameaça de estender a guerra com o Iraque a todo o Golfo Pérsico, bloqueando os portos da região.

Nessas circunstâncias tornava-se previsível a proposta de uma imediata desvalorização do dólar, aceita pelos bancos centrais do mundo capitalista como forma de reajuste financeiro e comercial, assumindo o governo americano, em contrapartida, o compromisso de suspender as medidas protecionistas ora anunciadas.

Evidentemente, os europeus poderiam reagir negativamente a essa sugestão, enquanto o Japão dispõe de meios de absorvê-la mais facilmente, pois, com tal’ desvalorização, cairá o custo dos insumos de sua produção, que são quase totalmente importados, e, conseqüentemente, poderá manter e até melhorar a sua capacidade de concorrência.

Conforme os resultados da reunião de Nova York, o presidente Reagan deverá anunciar, ainda hoje, as medidas que adotará em defesa da economia americana e simultaneamente, as concessões que terão de ser feitas aos países devedores para evitar que o agravamento de suas dificuldades venha a se refletir em prejuízos irremediáveis para os bancos credores.

Dentro desse quadro, impõe-se que as autoridades financeiras do Brasil permaneçam vigilantes, a fim de aproveitar a eventual abertura do mercado americano ou, então, as novas condições de negociação das dívidas. Torna-se também aconselhável intensificar os entendimentos bilaterais com o Japão, cujo governo vem se mostrando interessado em colaborar no refinanciamento de nossos compromissos e no incremento de nossas exportações.

Em nossa edição de 31 de julho passado, lamentávamos o fato de que os países industrializados vinham impondo restrições ao ingresso de produtos brasileiros, ao mesmo tempo em que os critérios ortodoxos adotados pelos analistas do FMI conduziam a recomendações de contenção das nossas atividades produtivas que, se aceitas, poderiam levar o Brasil não apenas a uma redução insuportável na qualidade de vida, como ainda à impossibilidade de saldar os seus compromissos.

Felizmente, na recente visita do ministro da Fazenda, Dilson Funaro, aos Estados Unidos, os dirigentes do FMI reconheceram a incongruência daquela posição, concordando em afastar a hipótese da recessão como fator de estabilização de preços.

Por outro lado, as conversações entre o ministro brasileiro e o presidente do Sistema Federal de Reserva evidenciaram a possibilidade de um profícuo entendimento entre o nosso país e os Estados Unidos, que deverá prevalecer sobre as atuais divergências em algumas áreas de comércio.

Ao que tudo indica, abre-se um caminho para que o Brasil, atento às mudanças da situação mundial, possa, sem confrontos nem rupturas, resolver adequadamente os seus problemas com a comunidade financeira internacional, assegurando uma participação crescente no mercado externo.

 

Roberto Marinho. O Globo, 23/09/1985