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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


A lição do trabalho

O Globo, 30/08/1987, p. 3. Arquivo / Agência O GloboSob o título “A vida sem inflação”, nosso companheiro Pedro Gomes faz nesta edição uma análise do invejável quadro econômico da Alemanha Ocidental de hoje, suscitando em mim o impulso de tirar dali uma lição naturalmente óbvia, mas que precisa ser incessantemente lembrada e realçada até que se desperte a consciência de nossa gente.

Esse povo, que hoje ostenta um dos mais altos padrões de vida do mundo e vem, nos últimos tempos, sustentando em zero ou quase zero a taxa de inflação, apesar do seu crescimento econômico constante, teve, em duas guerras catastróficas, suas cidades e indústrias completamente destroçadas, ficando reduzido, então, a um nível de carência que incluía até a falta de alimentos. Sua juventude se encontrava, depois do fracasso militar, mutilada por perdas imensas. Quem, como eu, assistiu a esse momento da história contemporânea, se recordará bem da perplexidade, que assaltava a todos, sobre como conseguiriam os alemães reerguer-se a partir daquele chão de escombros.

Uma virtude marcante e poderosa vitalizou essa gente que, apesar de ter seu território ainda hoje cortado quase pela metade, subtraída a parte que ficou com a Alemanha Oriental, se coloca como principal fabricante e exportador de equipamentos de alta qualidade, a ponto de registrar, em disputa com o Japão, o maior volume de negócios com o exterior e o maior saldo na balança comercial. Em outros termos, essa nação, que tanto sofreu, não só figura em primeiro lugar na balança comercial internacional, produzindo as melhores máquinas do mundo, como oferece a seus habitantes o tipo de vida da melhor qualidade num “cenário de economia estável e moeda forte”, que lhe permite “programar tranqüilamente o seu desempenho de consumidor, de poupador, de investidor, de empresário, de chefe de família”, segundo a expressão de Pedro Gomes.

Mas qual foi essa estranha força interior que levou para a frente esse povo aniquilado pela guerra, que o fortaleceu a ponto de transformar os escombros em modernas cidades e vigorosos centros fabris, a restaurar suas famosas universidades e construir outras ainda mais avançadas?

Sei que a primeira resposta a acorrer à mente é a do acendrado patriotismo do povo alemão, tão celebrado em toda a sua história. No entanto, no cerne desse patriotismo reside uma disposição à luta que dele faz uma arma invencível. Refiro-me ao amor ao trabalho.

O que reconstruiu e ampliou esse monumental edifício de prosperidade que é a República Federal da Alemanha foi o trabalho. Trabalho duro, sem descanso. Trabalho, sim, inteligente, é claro. Total aplicação ao trabalho. Nunca me esqueço de que, nos tempos logo após o término da Segunda Guerra Mundial, os trabalhadores alemães doavam seus dias de repouso para o trabalho coletivo de levantamento de muitas de suas cidades. A energia especial que gera a economia tão forte e tão equilibrada na Alemanha, como de resto no Japão e em outros países também classificados na atual arrancada de desenvolvimento, é a seriedade, a dedicação no trabalho. Pode o país dispor de espetaculares reservas minerais e outras riquezas naturais, mas só o trabalho as transformará em bens reais a serviço do conforto, do bem-estar do cidadão. O trabalho é a verdadeira fonte de grandeza. Essa Alemanha de hoje, tão progressista, não dispõe de petróleo em seu subsolo nem de várias outras matérias-primas. Tinha e tem mão-de-obra, isto é, gente para trabalhar. Com qualificação, vontade e discernimento, eis que o alemão rejeita o desperdício. Sublinho intencionalmente tais aspectos nesta hora em que desejamos instituir no Brasil uma nova ordem jurídica. Nenhum texto constitucional terá o condão de instilar no espírito do povo virtudes que este não possua. Pode, contudo, assegurar o estímulo ou o desestímulo ao trabalho produtivo. Cabe ao legislador acreditar nessa virtude e oferecer recompensa a seu exercício. O amor ao trabalho, principal esteio de um povo rico, deve fluir do alto, dos chefes, dos comandantes, dos patrões, e forçoso é insistir — dos legisladores, dos políticos. Ao pensar na atual prosperidade do povo alemão, dela extraio uma lição: o Brasil precisa trabalhar.

 

Roberto Marinho. O Globo, 30/08/1987