Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


A opção de milhões de brasileiros

O Globo, 28/02/1975, p. 3. Arquivo / Agência O GloboA Rede Globo ocupa hoje no sistema nacional de rádio e teledifusão uma posição semelhante àquela que O Globo há vários anos assumiu na imprensa do país. Todos os dias, um número cada vez maior de brasileiros adquire os exemplares deste jornal e sintoniza os seus aparelhos de rádio e televisão com as emissoras do grupo.

Ninguém os obriga a essa opção. Nem tem força para lhes impor artificialmente uma outra. Trata-se de uma intocável manifestação de liberdade, que consubstancia a nossa identificação com a opinião pública. Essa escolha reiterada cotidianamente por centenas de milhares de leitores nas bancas de jornal, agora repetida por milhões de espectadores na intimidade dos seus lares, adquire inequivocamente o significado de um mandato popular para a função a que nos propusemos de informar e comentar os acontecimentos em consonância com os interesses da coletividade.

Na missão que nos atribuímos de orientar a opinião pública nacional, sempre procuramos interpretá-la em seus anseios mais nobres. E, embora jamais tenhamos pretendido substituir a estrutura educacional da nação, empenhamo-nos em complementá-la, de forma acessível, visando a elevar o nível cultural do país. Em suma, retratamos o Brasil na sua grandeza, abrangendo-o em todas as suas classes e regiões, tanto nos seus ideais e preocupações mais graves de ordem política, social e econômica, como nas suas manifestações mais simples e amenas de lazer e entretenimento. 

Ao mesmo tempo, consideramos que o papel da imprensa, exercido no jornal ou na televisão, compreende ainda o dever de procurar apresentar os fatos, selecionando-os e analisando-os numa perspectiva que coincida com a da maioria da comunidade a que serve.

Essa coincidência se reflete nos índices de vendagem e de audiência, constituindo o único fator capaz de ampliar as dimensões de qualquer órgão de comunicação. Não se faz um grande jornal ou uma grande estação apenas com financiamentos ou recursos herdados ou adquiridos por laços extrajornalísticos. Nem com verbas de origem espúria. As disponibilidades e os anúncios não são a causa do êxito, mas o seu efeito.

Conseqüentemente, em seu sentido mais profundo, a liberdade de imprensa abrange não só o direito de cada um escrever ou proclamar o que pensa, como o direito que tem o povo de optar, selecionando os órgãos que refletem mais corretamente o seu modo de encarar a vida nacional e internacional. Essa preferência é então considerada e aproveitada pela propaganda comercial, que se revela assim como um legítimo sustentáculo da liberdade de opinião, além dos seus aspectos positivos de instrumento de aceleração do desenvolvimento, propiciando a expansão do mercado e o conseqüente incremento da produtividade e do emprego. Desse modo, querer inverter a ordem das coisas, acusando as empresas mais prósperas de estarem prevalentemente a serviço de interesses econômicos e desvinculadas do povo, é manobra já bastante conhecida de todos aqueles que pretendem ferir a imprensa de forma dissimulada.

Negar que a Rede Globo vem apresentando programas do mais alto nível internacional até então jamais chegados ao alcance de milhões de patrícios, estimulando o surgimento e a revelação de grandes valores nacionais na representação teatral, na redação de textos ou na composição de cenários seria um absurdo a que ninguém se propõe. Passa-se então a acusá-la de se ter expandido, isolando-se na liderança da preferência popular, o que constitui um absurdo ainda maior.

De fato, ver um risco nessa preferência e, em virtude disso, querer restringir a audiência da Rede Globo a alguns Estados ou regiões, é simplesmente pretender cassar o direito de opção de milhões de brasileiros.

A providência cabível e recomendável não é a de dividir a Rede Globo, mas a de multiplicá-la, isso significando estimular que outras redes sigam o nosso exemplo. Mas, para isso, é preciso que trabalhem como o fizemos, desde que iniciamos as nossas atividades, há mais de dez anos, contando apenas com uma emissora e enfrentando a concorrência de cadeias já organizadas, uma delas contando com 19 emissoras instaladas praticamente em todo o território nacional. Querer obter o mesmo resultado procurando nos acusar de utilização excessiva de programação estrangeira é um esforço inócuo, principalmente quando a acusação é feita em um editorial emoldurado por traduções de colunistas norte-americanos ou de reportagens de revistas francesas. Trata-se de incoerência análoga à de se pleitear uma concessão de canal dentro de determinadas normas legais para, em seguida, em face de dificuldades financeiras, pregar a revogação das mesmas. Em suma, crescer solicitando subsídios ou favorecimentos envoltos nas dobras de novos parágrafos legais não é admissível nem se coaduna com a estrutura que a revolução implantou.

Em nossa experiência de televisão, cada dia de trabalho constituiu uma aula proveitosa para todos os nossos companheiros e colaboradores. Os fatos indicam que fomos aprovados pela opinião pública. Podemos portanto dispensar as lições dos que se tenham formado por correspondência, ou daqueles que ainda se preparam para o vestibular.

 

Roberto Marinho. O Globo, 28/02/1975