Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A retomada do diálogo

O Globo, 30/03/1989, p. 1. Arquivo / Agência O GloboA Nação está consciente de que os planos Cruzado, Bresser e Verão resumiram-se numa sucessão de “pacotes” de medidas artificiais, mediante as quais, sob inspiração ideológica do PMDB, aprovação das demais correntes partidárias e apoio técnico da comunidade acadêmica de economistas, o governo pretendeu conter a inflação elidindo as leis do mercado e deixando intocada a “ciranda financeira”. Esta se mantém sob o falso pretexto de que a rolagem da dívida interna e a pressão dos juros da dívida externa não constituem fatores inflacionários.

Ao despontar o fracasso de cada tentativa, costuma-se alegar que se trata de acidentes de percurso, quando não se apela simplesmente para acusações generalizadas ao empresariado e aos trabalhadores de que não estariam conformados com as taxas de sacrifício que lhes são exigidas.

A verdade cada vez mais evidente é que não se pode, de um lado, querer sanear a moeda e, de outro, tê-la indexada de tal maneira que a “correção” do seu valor não funciona para os assalariados, enquanto assegura aos aplicadores juros reais e liquidez absoluta.

Torna-se óbvio que, nessas condições, estimula-se a especulação em detrimento da produção e do emprego. E além disso, se o governo se empenha exclusivamente numa disputa com o empresariado para ver quem realiza menos investimentos, se o setor público ou o privado, o resultado não poderia ser diferente do que vem ocorrendo após um pequeno período de tênues esperanças: recessão, falência dos serviços administrativos, desabastecimento e retomada do surto inflacionário.

Neste momento, reconhecem os ministros responsáveis que os amargos remédios que recomendaram ao presidente da República foram aplicados com rigor e determinação.

Sem nenhum propósito de contribuir para agravar o clima de descrença, é de fácil previsão que os empresários sejam forçados à remarcação dos preços, ou a exigir ágio, como tática de resistir ao congelamento. Da mesma forma, não é difícil antecipar a reação dos trabalhadores: endurecer a reivindicação pela reposição das perdas salariais anteriores ao Plano Verão e acrescentar, imediatamente, a recomposição das perdas verificadas nos seus dois meses de vigência. O recrudescimento dessas pressões, estimulado pela inflação de março, reduzirá a capacidade do governo para manter as taxas cambial e de juros, a primeira com sua paridade sustentada com relação ao cruzado novo e a segunda, ao contrário do objetivo que perseguia, produzindo cada vez mais liquidez na economia.

É imperativo, numa hora em que o presidente da República, dramaticamente, do alto de sua autoridade, adverte para os riscos que uma hiperinflação desencadearia no desfecho pacífico da transição, que os ministros da área econômica, num gesto que os elevará no conceito público, reconvoquem trabalhadores e empresários para retomarem os entendimentos interrompidos desde o Plano Verão. Não apenas para a discussão tópica da questão salarial abordada como tema isolado. Mas com uma pauta aberta que proporcione um debate amplo, que inclua o nó górdio da dívida interna e da dívida externa. A hora é de diálogo, que só será fecundo se não for previamente delimitado.

E o que os brasileiros esperam do governo. Inércia e falsas suscetibilidades não se justificam.

 

Roberto Marinho. O Globo, 30/03/1989