Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A verdade sobre a crise

Em poucos dias, evidenciou-se com toda clareza que, ao registrar o fracasso do Plano Verão, reconhecido formal- mente pelo próprio governo, lamentando que após a inflação de 1.000% em 1988 encontramo-nos na perspectiva de uma inflação de 1.200% no presente exercício, O Globo jamais se preocupou, conforme deixamos explícito em sucessivos editoriais, “em manter ou substituir auxiliares do presidente”.

Assinalamos que “imaginar que figuras idôneas pudessem ambicionar assumir a responsabilidade dessa situação no epílogo do governo”, no prazo de atuação que se vai praticamente encerrar dentro de 12 semanas, seria “falta do mais elementar bom senso” e somente concebível por quem temesse “eventuais óbices em operações financeiras de última hora”.

Basta recordar que, já em nosso editorial de 25 de junho, advertíamos expressamente que “a idéia de se indicar pelo Congresso um superministro extraordinário para dar execução a um programa econômico nos últimos meses da administração constitui um preocupante sintoma de alienação”. E recomendávamos “aos auxiliares diretos do presidente” que “assumam a tarefa de firmar uma ponte com os congressistas”.

Lamentavelmente, assessores “informais” de imprensa, a serviço de interessados na estabilidade do ministério, ameaçada por notória divergência entre seus membros, difundiram versões dos fatos atribuindo-nos pressões que paulatinamente, como era de se prever, foram desmentidas por carta pública do presidente Sarney, comunicado oficial do gabinete do ministro do Exército e entrevistas de todos os políticos e parlamentares citados.

Por outro lado, consideramos também explicáveis, pelos interesses financeiros e comerciais que representam, as manifestações de banqueiros, como John Reed, empresários como Mário Amato e organizações que ora negociam seus débitos com estabelecimentos oficiais de crédito e que, pressurosamente, vieram trazer seu apoio à equipe burocrática que vem conduzindo a política econômica do país.

Com essa referência, estamos simplesmente reiterando a nossa tradição de fidelidade aos fatos, sem nos desviarmos para responder a invencionices. Neste momento, o que nos importa e, acima de tudo, o que constitui interesse público é que tenha êxito o plano de correção de rumos anunciado pelo presidente Sarney, mediante “a adoção de novas medidas econômicas para cumprir o programa antiinflação apresentado pelo Congresso Nacional”.

Antes da passagem para o próximo governo, impõe-se examinar que providências podem ainda ser adotadas para evitar que se agrave a degradação dos serviços públicos essenciais, a deterioração da infra-estrutura de energia, transportes e comunicações, e as condições que obrigaram a iniciativa privada a se desviar para uma “economia informal” em dimensões jamais atingidas.

Terá também de ser reexaminado o tratamento dado à rolagem da dívida interna, que colocou a poupança e o capital de giro das empresas sob o risco de uma moratória, induzindo entidades representativas das finanças, da indústria e do comércio a sugerir projetos de lei tendentes a restaurar a credibilidade dos títulos públicos.

Quanto às negociações da dívida externa que atenderam às exigências formuladas pelos bancos credores, sem aliviar a situação do país, dando margem a operações de “conversão informal” que atingiram o montante de vários bilhões de dólares e afinal nos conduziram a um retorno às atuais condições de moratória, há também que se proceder a uma urgente revisão de diretrizes.

Reiteramos o imperativo de que essa reforma na linha de ação administrativa não se encerre no âmbito da burocracia governamental, mas se realize através de um diálogo transparente com o Congresso, os governos estaduais e com a sociedade.

É o que determina a Constituição e a gravidade da crise torna inadiável.

 

Roberto Marinho. O Globo, 20/08/1989