Economia

Economia

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


A verdadeira segurança nacional

O Globo, 13/09/1984, p. 1. Arquivo / Agência O GloboOs argumentos apresentados pela direção da Funai e referendados pelo ministro Mário Andreazza, ao recusar o pedido de demissão do diretor desse órgão, para coibir a exploração de riquezas minerais nas áreas indígenas alegando o perigo da contaminação de doenças oriundas do branco civilizado, fazem o país retornar às primeiras manifestações “nacionalistas”, contrárias à extração das reservas de ferro de Nova Lima e do Vale do Rio Doce.

Naquela época surgiram até protestos contra a escavação do solo com base na estética da paisagem, na defesa do perfil das montanhas, que se ia alterar com a retirada dos minérios de Minas Gerais.

Com isso está-se pretendendo novamente impedir o progresso, restabelecer o clima que imobilizou o Brasil durante séculos, deixando adormecidas no ventre da terra as riquezas que poderão salvar o país das tremendas dificuldades que nos assoberbam. A mineração e a agricultura constituem segmentos da atividade econômica capazes de responder de modo mais imediato aos investimentos de capital e tecnologia na expansão da renda nacional.

A exportação dos produtos agrícolas e minerais constitui a única via para aumentar a nossa participação no comércio mundial, na proporção adequada para propiciar saldos na balança e resolver, em termos definitivos, o problema do endividamento externo.

Antes de enfrentar a incompreensão da burocracia do Fundo Monetário Internacional impõe-se lutar contra a insanidade da burocracia de setores administrativos nacionais que pretendem resolver questões econômicas com critérios ideológicos ou antropológicos.

O Brasil e os Estados Unidos têm praticamente a mesma idade como nação independente. Todavia, enquanto os pioneiros americanos conquistaram, sucessivamente, as diversas fronteiras do seu território levando a tecnologia mais avançada de cada época, nós nos contentamos em louvar e cantar as riquezas do nosso solo. Com isso, a América do Norte chegou ao final do século XX como o maior credor do mundo. E o Brasil como o maior devedor.

A circunstância de que os bens econômicos de que dispomos, largados ao abandono no interior do país, representam um valor talvez superior ao meio circulante mundial constitui um escândalo que surpreende a qualquer observador desapaixonado.

Somos mais de cem milhões de pessoas sofrendo os mais graves problemas econômicos, caminhando sobre riquezas que constituem um dos maiores patrimônios nacionais do nosso tempo. O Japão, que dispõe de uma população quase do tamanho da nossa, podendo utilizar apenas quinze por cento do seu território — que não se iguala a qualquer um dos maiores Estados do Brasil — conseguiu através do trabalho e do uso intensivo da tecnologia transformar-se no maior rival econômico dos Estados Unidos.

O Brasil pretende, nessa altura da história, atribuir as suas dificuldades à malícia dos banqueiros internacionais e à cobiça das multinacionais, propondo, como medida de salvação, barreiras ao programa da tecnologia e deixar os recursos naturais como reserva para as futuras gerações no sentido de assegurar o seu lema de “país do futuro”.

Tudo isso poderia servir de subsídio para um programa humorístico de televisão ou para uma comédia teatral, se não estivesse em jogo o destino do país numa das mais dramáticas encruzilhadas da nossa história.

 

Roberto Marinho. O Globo, 13/09/1984