Uma trajetória liberal

Uma trajetória liberal

Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


Antonio Carlos Magalhães

Roberto Marinho e Antônio Carlos Magalhães em festa de 97 anos de Roberto Marinho, no Cosme Velho, RJ, 03/12/2001. Arquivo/Memória Globo.Ex-governador da Bahia, Antonio Carlos Magalhães foi amigo fraternal de Roberto Marinho. Em entrevista ao Memória Globo, o político recordou uma atitude corajosa do jornalista, presenciada por ele: “Houve uma reunião no ministério da Justiça com os donos de jornais. O ministro Juracy Magalhães chegou, impositivo, e declarou: ‘Eu vim aqui para dizer que os jornais não podem mais fazer isso assim, assim. Há pessoas nos jornais que devem ser afastadas.' Roberto Marinho levantou-se: “O senhor está enganado. No meu jornal, mando eu, eles obedecem a mim, e ninguém vai ser afastado.' Eu assisti a essa cena. E foi, para mim, a coisa mais corajosa dele. Todo mundo calado. Só ele é que se levantou. Isso foi no Ministério da Justiça no Rio, no fim do governo Castelo.”

Conhecedor das qualidades e defeitos do amigo, o ex-governador da Bahia conviveu com Roberto Marinho em momentos cruciais da política brasileira, e lembrou quem eram seus adversários: “Carlos Lacerda, Assis Chateaubriand, Samuel Wainer, Hélio Fernandes. Com o Hélio, ele teve um gesto de grandeza quando contratou o filho dele, o Rodolfo Fernandes, para O Globo. Mesmo não sendo inimigo, ele também não gostava do João Goulart. Não tinha apreço pelo Jango. Ele tinha uma raiva danada do Brizola. O ex-governador foi almoçar lá na Globo, e o Roberto lhe mostrou a vista. Mas o Brizola só via o Ciep, só falava no Ciep.”

Antonio Carlos Magalhães contou também que Roberto Marinho não se beneficiou dos governos militares, como dizia o senso comum. “O apogeu veio com a democratização. E mesmo antes, com o próprio Juscelino, ele já estava crescendo." Para o ex-governador baiano, o maior orgulho de Roberto Marinho era o jornalismo: “Ele foi mais jornalista do que empresário. Até o fim. Porque, de qualquer maneira, os outros o ajudavam na parte empresarial, e ele gostava de ver o jornal. Ele levava mais tempo com o jornal do que com a televisão. A TV andava sem ele.”