Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Apelo à mobilização nacional

O Globo, 16/2/1990, p. 3. Arquivo / Agência O GloboAcolho, com a consciência do jornalista realizado em sua vida de trabalho, a homenagem com que, generosamente, os empresários das Minas Gerais me distinguem como dirigente e administrador de um sistema de comunicação. No jornalismo iniciei minha jornada. Graças à ajuda de Deus e de muitos companheiros dedicados, posso, nessa altura da vida, considerá-la vitoriosa. O êxito empresarial reflete a credibilidade conquistada através de um jornalismo responsável, comprometido com a realidade de meu país, com seu progresso econômico e social e, sobretudo, com os ideais da livre iniciativa e da democracia.

Sinto-me à vontade entre os demais da indústria, do comércio e da agricultura, os responsáveis pela enorme transformação promovida na paisagem desta terra privilegiada. Somos, todos aqui, homens integrados em suas empresas, que são a marca do nosso tempo. Nelas não atuam apenas os empresários, mas também os trabalhadores, constituindo o espaço privilegiado da cooperação entre o capital e o trabalho.

Como instituições são, cada vez mais, os centros de organização do sistema de vida no nosso tempo, de modo que importa cada vez menos a nacionalidade de seu capital ou saber se é público ou privado, pois como produtora de bens e serviços e geradora de empregos, a propriedade apresenta-se como uma questão secundária. A organização é, crescentemente, dominante, pois a empresa que não se atualiza perece, e a concorrência moderna é exigente e implacável. Passou o tempo do empresário individual e romântico que se movia, solitário, pela intuição.

Digo-lhes isso porque comecei no tempo da empresa individual, que vivia e crescia pelo esforço e presença do proprietário. Hoje, para honra minha, presido uma instituição. Os produtos que vendemos no mercado são o resultado da colaboração organizada de múltiplos talentos e especialidades, o fruto de um intrincado sistema de cooperação, de cujo esforço, certamente, participo, mas que tem a marca do talento individual de milhares de colaboradores associados no esforço criativo que faz das Organizações Globo um padrão de qualidade, de eficiência e de modernidade. Numa demonstração inequívoca de que soubemos, competentemente, associar capital e trabalho nessa área tão delicada da produção cultural.

Tenho orgulho, e não o escondo, das Organizações Globo. Divido minha admiração, em partes iguais, pelo jornal, onde desenvolvi meu aprendizado; pela rádio e pela televisão, à qual me custou adaptar. E posso, sem jactância, confessar minha satisfação diante da obra realizada, por se tratar de uma produção coletiva. O nosso produto é o ponto de encontro entre o capital e o trabalho para gerar um serviço na área da informação de massa e da cultura de massa, ou seja, serviço público antes de mais nada.

Procuramos mobilizar competentes profissionais visando à melhor produção. Nunca nos acomodamos, nós, das Organizações Globo, com as vitórias conquistadas. Como sei que o desenvolvimento da empresa é fundamental, os lucros são sistematicamente nela reinvestidos, no sentido de mantê-la tecnologicamente atualizada. Para recompensar, adequadamente, os seus profissionais e produzir sempre um melhor produto. Ambicionamos, como empresários modernos, lucros para fortalecer as nossas empresas, com as quais mantemos uma vinculação vital.

Vivemos, nós empresários da área de comunicações, mais que os outros, da indústria, da liberdade que constitui a nossa matéria-prima. Nosso produto é a informação, o acontecimento. Se os sonegarmos, por decisão própria ou por imposição do Estado, é o nosso próprio produto que estamos sonegando. Os regimes totalitários, não importa se de direita ou de esquerda, têm, todos, um inimigo comum — a imprensa livre. A imprensa, por conseguinte, ou é livre ou não é imprensa. E presta, sem dúvida, um serviço fundamental nas democracias — de fazer circular a informação. Somos, em conseqüência, enquanto empresários da informação, peça essencial do processo democrático. Sem imprensa livre — e muitos já o disseram — não há democracia. A imprensa é, por definição, o instrumento para difusão das divergências e dos conflitos inerentes à sociedade moderna. E, sobretudo, ela é uma poderosa arma para a fiscalização coletiva dos atos do governo, e um instrumento posto, institucionalmente, a serviço do debate das idéias. Somos o veículo do pluralismo, fundamento da democracia.

Não obstante o nosso compromisso com a informação — e a este compromisso, que corresponde ao juramento da própria imprensa livre, fomos sempre fiéis — temos o dever, também, de interpretar os fatos. Faltaríamos ao nosso compromisso público se fugíssemos à nossa responsabilidade de opinar. Todos temos o direito, inerente à própria concepção de democracia, a expressar nossas preferências. A propor caminhos que nos pareçam os melhores. Esse direito não pode ser negado à imprensa, sob pretexto algum. E prova de intolerância, de índole totalitária, nos negar, enquanto órgão de comunicação de massa, o direito de exprimir e revelar a nossa preferência.

Preferimos, sem meias palavras, entre os candidatos, o presidente Collor de Mello. Todavia, as atividades de Lula foram, sempre, informadas. A preferência por Collor de Mello é direito nosso, uma vez que o julgamento mais capaz de promover, com a ativa colaboração de todos nós — e quando digo nós me refiro, também, aos empresários de Minas Gerais que me tributam essa homenagem — as urgentes reformas de que carece o país. O Brasil não pode mais esperar. Estamos numa hora decisiva. Ou agarramos, agora, a oportunidade que as urnas nos proporcionaram, ou certamente caminharemos para um rumo indesejado.

Temos que apoiar o presidente no seu projeto de mudanças. No seu reiterado propósito de abater a inflação. De acabar com a especulação. De exigir dos empresários eficiência. De abrir a economia brasileira para integrá-la no mundo e submetê-la aos desafios do desempenho. De arrancar o país da retórica terceiro-mundista, para lançá-lo na aventura do alinhamento entre os países do Primeiro Mundo.

No podemos mais, ao se aproximar o ano 2000, ficar a reboque do dogmatismo do final do século passado. O mundo moderno exige, antes de tudo, desempenho dos governos e das empresas. Estamos num período histórico pragmático e democrático. Nenhum governo pode tudo, já que somos, uns pelos outros, mais que nunca, autores do nosso próprio destino. Foi o povo da Romênia que ganhou a sua liberdade. Foi o povo alemão que derrubou o muro de Berlim. Os governos se viram, de repente, impotentes diante do povo.

A derrubada da inflação, a retomada do crescimento econômico, a superação da crise não representam um desafio para o presidente apenas. E um desafio para todos e, primordialmente, para nós empresários. Com mais responsabilidades, enquanto parte da elite deste país, na integração desta nação dramaticamente dividida entre ricos e pobres. E na qual mais de 30 milhões de brasileiros vivem em condições subumanas que não podem continuar.

Permito-me, abusando da bondade dos companheiros, sugerir uma mobilização nacional. Contra a inflação, em primeiro lugar, a ser enfrentada através de um grande entendimento nacional entre capital e trabalho. Que evite a escalada e o descontrole completo dos preços, sem afetar ainda mais o salário dos trabalhadores, visando à retomada do desenvolvimento econômico. O que passará pela solução, também negociada, da dívida interna e da dívida externa.

Como homenageado, sinto-me no direito de conclamar o empresariado de Minas Gerais para aceitar, como uma imposição da cidadania, engajar-se num projeto coletivo que permita ao presidente enfrentar, decididamente, a questão social. Ainda que tenhamos de aceitar sacrifícios. Pois, tenho a convicção, estes serão largamente compensados pelos resultados do projeto, a serem reconhecidos num país finalmente integrado como nação solidária, sob a égide da democracia social.

Na entrevista ontem concedida, o presidente eleito evidenciou uma profunda e corajosa consciência de suas responsabilidades perante a nação e a história, que vale como uma convocação a que nenhum brasileiro — que se honre de sua nacionalidade — pode fugir, sem assumir a condição de desertor. Vivemos em estado de guerra, contra o atraso e a crise. Essa guerra não pode ser perdida.

 

Roberto Marinho. O Globo, 16/2/1990