Uma trajetória liberal

Uma trajetória liberal

Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


Carlos Lacerda

Roberto Marinho se aproximou de Carlos Lacerda nos anos 1950. Foi a época em que o jornalista e deputado ocupou os microfones da Rádio Globo para atacar Getúlio Vargas, na volta dele ao Palácio do Catete. A oposição ferrenha chegou ao auge em 1954, ano em que Lacerda sofreu um atentado na Rua Tonelero, em Copacabana, no Rio de Janeiro. O episódio foi divulgado pelo jornal O Globo e pela Rádio Globo. Diante dos ataques de Lacerda, o governo procurou Roberto Marinho, ameaçando-o de tirar a emissora do ar. O jornalista não se intimidou, mas garantiu que daria o mesmo espaço aos getulistas na Rádio Globo. No início, os representantes do governo chegaram a falar nos microfones, mas com o agravamento da crise deixaram de ir à rádio. Lacerda ficou sozinho com suas críticas ao governo. Em agosto de 1954, Getúlio se suicidou. O jornal e a rádio sofreram represálias da população, inconformada com a morte do presidente.

Roberto Marinho e Carlos Lacerda cumprimentam-se, 06/04/1961. Arquivo/Memória GloboAmigos no início, Roberto Marinho e Carlos Lacerda foram para campos opostos. O jornalista se recusou a apoiar a intenção de Lacerda de se lançar candidato à Presidência no projeto de Castelo Branco de convocar eleições após o golpe de 1964. O político se voltou contra ele. Atacou a ideia do empresário de fazer um condomínio em parte da área que hoje é o Parque Lage. O então governador inventou que Roberto Marinho construiria ali um cemitério e desapropriou o terreno. Lacerda passou a fazer ataques pessoais. A disputa entre os dois se acirrou com novas denúncias de Carlos Lacerda sobre o acordo de assistência técnica entre a Globo e o grupo norte-americano Time-Life. Roberto Marinho resolveu ir às vias de fato. “Era  uma luta que o levava à loucura. Lacerda usou a tática de agredir a família. Passou do que meu pai considerava a fronteira de uma briga política”, comenta o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho.  

O ex-assessor Cláudio Mello e Souza lembrou: “Dr. Roberto armou-se, pegou um revólver, pôs na cintura e foi à casa do Carlos, para matá-lo. E como ele era muito conhecido, os guardas da porta – o Carlos ainda era governador – deixaram que ele entrasse." Avisado das intenções do adversário, Lacerda conseguiu escapar de casa. “Isso era contado por ele. E saiu, mesmo, armado para matar”,  contou o ex-governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães.