Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Carta a Lula

O Globo, 19/12/1989, p. 3. Arquivo / Agência O GloboLula:

Assisti como simples espectador, entre os milhões de brasileiros, ao debate final da campanha pela televisão. Coube aos vários profissionais das Organizações Globo incumbidos de tal tarefa analisar o confronto entre os dois candidatos à presidência.

O candidato Luís Inácio Lula da Silva mencionou mais de uma vez meu nome, durante a discussão com o competidor. Embora o fizesse com certo respeito e sem propósito de denegrir-me, havia nítido tom negativista no modo com que reiteradamente me foi atribuído decisivo poder político sobre os destinos nacionais.

Não costumo dar resposta a ataques pessoais de quem quer que seja. A exceção que abro para o candidato Lula da Silva deve ser encarada como uma homenagem que lhe presto.

Não é verdade que eu exerça poder político hegemônico, e menos ainda que o faça em caráter pessoal. A orientação que imprimo aos veículos que me cabe dirigir visa estritamente à defesa do que julgo serem os reais interesses do país e dos caminhos a serem trilhados para que se possa alcançar o bem-estar do povo.

A tentativa de mobilizar a opinião pública contra o meu nome não chega a ser original. Antes do candidato Lula, mais de um político movido pelo oportunismo tem pretendido ferir-me pessoalmente na ilusão de que assim procedendo poderia perturbar a trajetória das organizações que comando. No caso presente, entretanto, devo reconhecer que houve pelo menos comedimento na injustiça praticada contra mim pelo companheiro Lula.

Companheiro Lula, sim. Companheiro como trabalhador. No livro de minhas memórias, que, como já é sabido, terá por título Condenado ao êxito, vai figurar passagem que me permito agora resumir.

Durante minha atribulada formação, em plena adolescência, matriculei-me espontaneamente no Instituto Profissional Sousa Aguiar. Todo dia, às quinze para as sete, eu entrava na sala onde estavam os armários com o número de cada um, e era pelo número que me conheciam: eu era o “Treze”, conforme estava estampado no uniforme, um macacão de zuarte. Fiz meu aprendizado nas profissões de entalhador, porque gostava de transformar pedaços de madeira em objetos úteis e bonitos, e de mecânico, por me fascinar a mágica dos processos industriais.

Não tivesse a vida de meu pai, de origem modesta, florescido com extraordinário êxito, produto de um talento e de uma coragem que se refletiram na criação do vitorioso vespertino A Noite — que ele fundou para reformar e dinamizar a imprensa brasileira, assim como o faria posterior- mente ao fundar O Globo — e eu poderia ter tido por destino ser, com muita honra, um colega operário de Lula.

Mas meu pai morreu subitamente, apenas 23 dias depois de fundar O Globo, e eu ainda nem sequer completara 21 anos de idade. Minha mãe desejou que eu assumisse logo o comando do jornal. Recusei. Faltava-me experiência. Convidei para permanecer no posto o ínclito jornalista Euricles de Matos e, durante seis anos, fui um disciplinado e obstinado aprendiz da profissão de jornalista, até que, com a morte de Euricles, entendi que era chegada a hora de assumir a plenitude das minhas responsabilidades, em cujo desempenho me vejo ainda hoje.

Já antes disso, porém, me senti no dever de, em mais de uma ocasião, divergir de Euricles, sempre com franqueza e lealdade. Como aconteceu por exemplo durante a sucessão de Washington Luís.

Euricles impunha ao jornal uma neutralidade por mim julgada absurda. Dizia dos candidatos — Getúlio Vargas e Júlio Prestes — que eram ambos “farinha do mesmo saco, vinho da mesma pipa”. E eu reagia perguntando: — Mas o que o senhor deseja, então? Que importemos um presidente do estrangeiro?

Se o recordo agora, é para deixar bem claro que nunca tive dúvida sobre o dever de cada cidadão e de cada jornal de posicionar-se, segundo as suas convicções, em face dos problemas nacionais.

As Organizações Globo me pertencem, assim como, reciprocamente, eu pertenço às Organizações Globo. Para elas trabalhei e trabalho em cada instante da minha vigília — há 65 anos. Ninguém pôde jamais dizer-me que trabalhou ou trabalha mais do que eu. E é nessas condições que me dirijo ao companheiro Lula para dizer-lhe: não caia na tentação de repetir a cantilena demagógica de Leonel Brizola. Ele é um fazendeiro, que investe no estrangeiro seus bens, cuja origem não é conhecida. Do meu trabalho resultam empreendimentos que geram empregos para dezenas de milhares de brasileiros. Do dele, provavelmente meia dúzia de peões uruguaios cujo salário tenho alguma curiosidade de conhecer. Ele é um homem próspero, mas por onde passou, no governo do Estado do Rio, deixou um rastro de destruição física e moral.

Não o copie, companheiro Lula. Julgue por si — e como alguém que reconhece o valor do trabalho.

Do seu atual opositor, com um julgamento que poderá estar errado, mas que é feito com espírito construtivo e somente visando à solução para a atual conjuntura brasileira.

 

Roberto Marinho. O Globo, 19/12/1989