Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Como se expandiu a TV Globo

O presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, 83, concedeu ontem entrevista à Folha para contestar que a Rede Globo tenha apoiado os governos militares em troca da obtenção de concessões de canais de televisão. A acusação foi publicada em artigo do ombudsman do jornal americano The Washington Post no último domingo. Marinho disse que nenhuma concessão de TV VHF foi outorgada à Globo pelo governo desde 1962. A Globo, acrescentou, comprou de particulares todas as suas emissoras, com exceção da emissora do Rio, que foi concedida pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1957, e da emissora de Brasília, que foi concedida pelo presidente João Goulart em 1962.

Marinho disse que “apoiou a ação construtiva dos governos militares”, mas “fez questão de não obter favores”. O vice-presidente executivo das Organizações Globo, João Roberto Marinho, 35, que participou da entrevista, entregou à Folha um documento que comprova que durante os governos militares nenhuma concessão de TV foi outorgada ao Grupo Globo. Datado de 24 de setembro de 1984, o documento é uma correspondência oficial do secretário-geral do Ministério das Comunicações, Rômulo Villar Furtado, para o ministro-chefe da Casa Civil, Leitão de Abreu.

João Roberto disse que o então presidente João Batista Figueiredo acreditava que a Globo tinha recebido concessões dos governos militares e solicitou uma listagem dessas concessões, o que motivou o esclarecimento oficial do secretário-geral do Ministério das Comunicações. João Roberto disse ainda que a Rede Globo nunca obteve empréstimo de grande valor de bancos oficiais, com a exceção do aval fornecido em 1966 pelo então Banco do Estado da Guanabara para Roberto Marinho comprar a participação do grupo norte-americano Time-Life na Rede Globo.

Roberto Marinho — O jornal The Washington Post publicou declarações do seu ombudsman, Richard Harwood, dizendo que “a Rede Globo de Televisão, quarta maior rede de TV do mundo, foi criada através da concessão, pelo Ministério das Comunicações, de 38 emissoras ao império editorial e de telecomunicações de Roberto Marinho”. A Rede Globo de Televisão foi feita com a concessão de uma licença de televisão dada pelo presidente Juscelino Kubitschek em 1957. Esta concessão foi do canal do Rio de Janeiro. Obtivemos uma segunda concessão, do canal de Brasília, que foi outorgada em 1962 pelo presidente João Goulart. Após problemas conhecidos, vieram os governos militares. Por circunstâncias várias, O Globo apoiou a ação construtiva desses governos militares e fez questão de não obter favores dos mesmos, inclusive a concessão de canais, o que não seria favor. Durante esse tempo, para formar a rede, compramos de particulares e de empresários em dificuldades os outros canais de televisão que possuímos. São Paulo, Bauru e Recife foram comprados de Vítor da Costa; Belo Horizonte, de João Batista do Amaral; Juiz de Fora, de Geraldo Mendes. Tenho sido acusado de ter feito o chamado império de TV às custas dos governos revolucionários. Nunca rebati esse assunto porque achava desnecessário. Mas, na realidade, quando fundamos a Rede Globo, muitos dos meus companheiros achavam que devíamos ter televisões próprias em todas as grandes cidades do Brasil. Eu achei, entretanto, que devíamos ter apenas cinco emissoras básicas, que representassem a nossa cadeia, e aceitar estações de televisão de todos os Estados do Brasil como filiadas. Elas nos dariam parte de sua receita e receberiam toda a nossa programação. Essa orientação teve um grande êxito porque nós, de qualquer forma, disseminamos pelo Brasil afora a criação de empresas que se tornaram rentáveis para os seus proprietários e, ao mesmo tempo, para a própria receita da Rede Globo. Agora mesmo, durante a Constituinte, foram inúmeras as acusações de que a Rede Globo tinha apoiado os governos militares em troca da obtenção de concessões de canais. Essas tentativas (de acusações) não foram adiante. Meus companheiros, entretanto, achavam que a Rede Globo muito teria a lucrar se a verdade fosse transmitida no lugar de inverdades que tiveram tanta ressonância. Estou fazendo isso agora, diante do artigo mal informado do Washington Post, que repetiu essas inverdades. Nós vamos nos dirigir diretamente ao Washington Post, mas quisemos antecipar essas declarações à Folha de S. Paulo.

Folha — Foi durante o período militar, entretanto, que a Rede Globo teve a sua principal fase de expansão. O sr. atribui o crescimento da Rede Globo à sua capacidade de se ter identificado e atuado sobre condições econômicas favoráveis?

Roberto Marinho — (O período militar) foi uma fase de expansão em que se pôde trabalhar com tranqüilidade. Mas o fenômeno da TV foi de crescimento desde os primeiros dias de sua fundação. Fomos tendo cada vez um maior número de ouvintes e de retransmissoras em todo o país, inclusive nos lugares mais distantes. Dentro de uns meses nós estaremos com 80 retransmissoras no Brasil. (A Rede Globo tem atualmente 62 retransmissoras, sendo que 54 são filiadas.) Desde que a TV foi implantada, nós começamos a estudar o assunto com muita atenção e conseguimos expandir-nos através de uma programação atraente e útil. Preocupamo-nos muito com o problema da educação, através de cursos de alfabetização, que foram transmitidos diariamente para todos os cantos do Brasil. Através da escolha dos melhores diretores e dos melhores técnicos, conseguimos realmente essa expansão.

Folha — Além de ser um dos homens de negócio mais bem- sucedidos do país, o sr. é um empresário que tem uma visão bem definida do Brasil e que possui meios extraordinários para transmitir ao país essa sua visão. Qual é a missão que o sr. se atribui?

Roberto Marinho — Tive a felicidade de receber uma herança paterna muito benéfica. Meu pai se fez no jornalismo e se tornou um profissional vitorioso. Umas das iniciativas dele foi o lançamento dos jornais A Noite e depois O Globo, onde teve apenas 23 dias de direção. Se é que tenho alguma qualidade excepcional, devo ao meu pai, da mesma sorte que meus filhos, Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto, já revelaram igual capacidade para continuar a tradição jornalística do seu avô.

Folha — O artigo do ombudsman do Washington Post refere- se também a um boletim da embaixada americana no Brasil que afirma que nas televisões brasileiras as práticas de autocensura são comuns e a maior parte da programação é não-polêmica. O sr. aceita essa crítica?

Roberto Marinho e João Roberto Marinho (que iniciou a resposta reafirmada pelo pai, que precisou atender ao telefone) — Quem faz isso é o jornal O Globo. Esse papel de ter crítica firme é função mais de jornal do que de televisão.

Folha — No entanto, nos Estados Unidos, as redes ABC, CBS e NI3C têm um noticiário tão imperativo e crítico quanto os principais jornais daquele país.

Roberto Marinho — A televisão tem que dividir momentos de telejornalismo de orientação e de opinião sobre acontecimentos do país, com filmes, esquetes cômicos e toda uma programação que tem a preocupação de diversão, O telejornalismo é uma das partes mais responsáveis da programação das televisões, porque exerce um papel importante na formação da opinião pública, tanto na transmissão de opiniões como na apresentação dos fatos. O telejornalismo não pode sofrer nenhuma deformação.

Roberto Marinho. Entrevista concedida à Folha de S. Paulo, 24/09/1988