Cultura e Educação

Cultura e Educação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre educação, cultura e televisão, as realizações da Fundação Roberto Marinho, entre outros assuntos.


Competência com espírito público

Quando recebi a notícia da escolha do meu nome para paraninfo dos engenheirandos de 1982 da Escola de Minas de Ouro Preto, senti-me profundamente gratificado por essa demonstração de generosidade dos moços que vêm de formar o seu espírito nessa instituição cuja história marcou os rumos do desenvolvimento das ciências e da tecnologia no Brasil.

Não pude me furtar a algumas considerações que então me foram despertadas pela coincidência de que a turma cuja formatura hoje celebramos vai iniciar as suas atividades profissionais numa fase da vida brasileira tão significativa quanto aquela em que se fundou esta escola.

Como se sabe, desde 1832, a idéia da criação de uma Escola de Minas se achava consignada em lei, por inspiração que remontava aos princípios da reforma educacional que, no século anterior, o marquês de Pombal havia implantado na corte, e que D. João VI trouxera para o Brasil, aliando à tradição humanista e literária a influência do estudo superior das ciências naturais. Entre os grandes vultos brasileiros que estudaram em Coimbra e assimilaram esses novos padrões de cultura, destacavam-se Felisberto Caldeira Brant, introdutor no país da navegação a vapor, doze anos após a descoberta de Fulton; Manuel Ferreira da Câmara, o intendente Câmara, que iniciou a produção de gusa em Minas Gerais; e José Vieira Couto, que propôs o primeiro plano de mineração nacional.

Essa elite que dignificou os nossos quadros dirigentes na passagem do século XVIII para o século XIX anteviu a necessidade de se transplantarem para o Brasil as técnicas de exploração científica dos imensos recursos nacionais. Contudo, tais aspirações só começaram a se concretizar em 1872, quando D. Pedro II solicitou à direção da Escola de Minas de Paris uma “nota sobre os meios de conseguir um conhecimento mais profundo sobre o solo brasileiro e de desenvolver a exploração de suas riquezas minerais”, na qual foram recomendados a confecção do mapa geológico geral do Império e o levantamento de regiões mineiras específicas, a serem procedidos por jovens engenheiros brasileiros de minas e metalurgia, que viessem a ser formados por um centro de ensino especializado. Nesse sentido, dois anos após a fundação da Escola Politécnica do Rio de Janeiro em 1874, criava-se a Escola de Minas de Ouro Preto.

Contribuiu decisivamente para essa implantação a figura extraordinária de Henri Gorceix, o mestre francês cujo famoso relatório apresentado ao ministério em 1875 definiu a tríplice finalidade, eminentemente prática da escola, que consistia em formar mineralogistas aptos a elaborar a carta geológica do país; dirigentes de explorações minerais e metalúrgicas; e funcionários responsáveis pela fiscalização do trabalho das minas, preservando a mão-de-obra e a indústria.

Em 12 de outubro de 1876 ocorreu a cerimônia de inauguração na qual Gorceix apontou os fins essenciais do novo centro de ensino. As suas palavras, pronunciadas há mais de um século, merecem ser lembradas e repetidas. Dizia ele: “Para trilhar pela senda do progresso da civilização, têm os povos, mais hoje do que nunca, necessidade de extrair do solo pátrio todas as riquezas que este contenha. Para que a pesquisa destas riquezas seja frutuosa, para que as descobertas possam ser exploradas no país com vantagem e fazer nascer as indústrias que alimentam, é necessário que haja homens capazes de dirigir tais trabalhos, homens que conheçam os processos científicos não só relativos à exploração do solo como também os trabalhos metalúrgicos, em uma palavra, engenheiros de minas.” Depois de ressaltar que a exploração do ouro e de diamantes havia sido feita durante o período colonial por métodos empíricos, preconizava o aperfeiçoamento das técnicas e insistia em que, além de metais preciosos, impunha-se explorar outros metais capazes de garantir uma prosperidade duradoura, como por exemplo o ferro, cujo papel lhe parecia de tal ordem que a supremacia entre as nações seria assegurada para aquelas que o produzissem em maior quantidade. E prometia: “Será uma das glórias da escola fazer prosperar essa indústria. Senhores, não percamos de vista o fim da nossa instituição: criar engenheiros de minas.”

As sucessivas gerações que desde então saíram dessa casa para trabalhar nos mais diversos núcleos de produção mineral e metalúrgica do país constituem o que Glycon de Paiva classificou com muita felicidade de “a herança de Gorceix”, cuja atuação se reflete na crescente expansão da siderurgia, na produção de não-ferrosos e no aproveitamento das nossas reservas, começando com a magnífica obra desenvolvida na província mineral do Vale do Rio Doce e chegando até o estupendo programa de Carajás.

E interessante observar que os estudos elaborados nessa escola não se restringiram aos minerais cuja utilização se fazia patente à luz da tecnologia conhecida. A esse respeito, basta consultar os Anais da Escola de Minas para se verificar que, já em 1886, Gorceix alertava o governo brasileiro para a existência de “terras raras”, ressaltando “as areias provenientes de caravelas e formadas quase que totalmente por monazita”, advertindo que “o estudo das monazitas será muito importante para a ciência”. Neste momento, quando estamos implantando a indústria nuclear no Brasil, tal advertência adquire um sentido de atualidade e nos dá a exata medida do que pode significar para o progresso de uma nação a pesquisa e o desenvolvimento da tecnologia.

Ao formular essas considerações sobre a história desse instituto de ensino e a sua ponderável contribuição para o incremento industrial do Brasil, procurei fixar um traço característico que, desde os seus primeiros anos, distingue e define o engenheiro de minas de Ouro Preto. E a consciência de que se impõe aliar a uma alta formação profissional uma dimensão de espírito público. Há que se conciliar a competência técnica com o imperativo de servir e atender aos objetivos superiores da comunidade brasileira.

Nunca foi tão imprescindível, como nos nossos dias, a manutenção desses princípios.

Vivemos uma fase de dificuldades que se acumulam e se desdobram no aspecto do surto inflacionário, no desemprego, na imperfeita distribuição de renda, nas desigualdades regionais e até nas divergências político-ideológicas. No plano internacional, os problemas ecológicos, a escalada armamentista, a crise de energia, os desequilíbrios monetários e comerciais constituem graves ameaças à paz e à tranqüilidade, exigindo a implantação de uma nova ordem, não apenas econômica, mas jurídica, de âmbito mundial.

Não creio porém — e venho insistindo em ressaltar essa convicção perante os centros universitários que me têm honrado com a sua atenção — que a nova ordem deva transformar o mundo numa aldeia global, com a absorção das nacionalidades. Do mesmo modo que, quando uma nação se transforma em Estado, os indivíduos e as famílias não se diluem mas, pelo contrário, adquirem cidadania e direitos específicos, tudo indica que a partir do momento em que a humanidade consiga se estruturar em uma nova forma de estado, as nações também deverão adquirir direitos próprios e inalienáveis.

Justifica-se assim em plena época de aproximação internacional, propiciada pelo progresso dos sistemas de transporte e de telecomunicação, que todas as nações se empenhem em preservar suas características e suas tradições.

Simultaneamente, quando o sistema financeiro em que se baseia o relacionamento econômico mundial apresenta sintomas de um eventual colapso, torna-se necessário que cada nação se dedique a mobilizar todos os seus recursos humanos e materiais para enfrentar a crise e trazer a sua contribuição para a nova estrutura a ser estabelecida.

E indubitável que, nesta hora, ao lado da agricultura, as maiores esperanças do Brasil se voltam para a mineração. Essa prevalência não se revela apenas nos programas governamentais e nos planejamentos administrativos, mas nos próprios movimentos populacionais de penetração nas regiões em que desponta a expectativa de ocorrências minerais de importância.

Nessa tarefa há um papel preponderante a ser desempenhado por aqueles que, como vós, se sentiram chamados por vocação a se capacitar profissionalmente para trabalhar na transformação dos bens geológicos em bens econômicos.

Ao assinalar os fatores fundamentais da nossa formação nesta casa de ensino e ao apontar as circunstâncias que delineiam o quadro em que ides iniciar as vossas atividades, confio em que a herança cultural que haveis recebido conduzirá a vossa turma a um nível de atuação profissional e de êxito pessoal à altura das gerações que vos precederam.

Escolhestes como paraninfo um jornalista, isto é, alguém que se dedica a registrar o processo ora em gestação no mundo e no vosso país, no campo social, político e econômico. Creio que, dessa maneira, estais reconhecendo que o conhecimento e o progresso não se acham completos e acabados, mas em constante renovação, evoluindo com as realizações e os fatos que, a cada dia, a imprensa vai consignando.

Chegou o momento em que começareis a colaborar nessas realizações e nesses fatos. Ao fazer o registro desse auspicioso acontecimento, rogo a Deus que vos ilumine e vos ajude a levá-lo a bom termo.

 

Roberto Marinho. Discurso de paraninfo na Escola de Minas de Ouro Preto, 18/12/1982