Religião

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre questões religiosas, líderes espirituais como Dom Helder Câmara e o papa João Paulo II, Teologia da Libertação e a questão da fé nos países socialistas.


Compromisso do Natal

O Globo, 23/12/1984, p. 1. Arquivo / Agência O GloboOs “teólogos da libertação” podem adotar os princípios marxistas e inclusive, com base no materialismo dialético, considerar defensável a estratégia leninista-stalinista de se ocupar ditatorialmente o Estado a fim de preparar o advento do comunismo.

Nesse sentido, frei Leonardo Boff terá de discutir a validade de suas idéias com as diversas correntes que nos dias atuais pretendem assumir a verdadeira interpretação das concepções de Marx. Dispondo-se a uma atitude mais heróica, poderá, em vez de participar de debates em Roma ou Madri, ir a Pequim como missionário, levando a boa-nova do “Manifesto Comunista”.

De outro lado, não se lhe pode negar o direito de acreditar na divindade de Jesus aceitando as conseqüências da Revelação de que o seu “Reino não é deste mundo”, dando- se “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. E, finalmente, admitindo a “sublime loucura da Cruz” e submetendo-se à misteriosa advertência de que “a pobreza é um bem”.

Evidentemente, para quem se apega com exclusividade à razão e não à fé, torna-se mais fácil ser marxista do que cristão. Marx propôs-se a defender os operários. Jesus foi e viveu toda a sua existência como um operário. Enquanto Marx nasceu de família burguesa, Jesus veio ao mundo num estábulo de Belém e conheceu todas as agruras da pobreza e da opressão num nível insuperável. Marx pregou a luta de classe, Jesus, a paz.

Nessas condições, há de se convir que enquanto a atitude de Marx pode ser aceita dentro de uma postura de racionalidade e pragmatismo, as idéias de Cristo só podem ser pela Graça.

Quem admite que a existência humana se encerra com a morte tem de meditar sobre as propostas marxistas. Só quem admite uma dimensão existencial além da morte pode acreditar em Jesus.

O próprio Marx sentiu que se tornava necessário extirpar a religião da mente dos homens por considerá-la uma forma de alienação, um “ópio do povo”. Não há, portanto, conciliação autêntica entre as duas pregações no campo das idéias.

Mas, a partir da nítida distinção entre as duas mensagens, nada impede que haja uma cooperação entre cristãos e marxistas no plano da adoção de medidas tendentes a melhorar as condições de vida das classes menos favorecidas.

Sempre que padres e ativistas políticos se encontrem na ação comum de minorar dificuldades ou de recuperar vidas, concilia-se o respeito à natureza humana com o reconhecimento da Graça Divina.

Entretanto, quando se pretende, no âmbito teórico, unir no mesmo sistema de idéias os ensinamentos da doutrina cristã com os preceitos marxistas, tenta-se o impossível. Sai- se do terreno da boa fé para o da mistificação.

Conciliar espiritualismo com antiespiritualismo pode ser até um divertido exercício mental de paradoxos. Mas não pode ser levado a sério. Nem no Vaticano nem na Academia de Ciências de Moscou.

Dedicar-se à defesa dos direitos humanos e à distribuição mais justa dos bens é dever de todos. Praticar os sacramentos implica um compromisso maior, que não pode ser fraudado.

É crer na Natividade, admitindo que em Belém não nasceu um líder sindical, mas o próprio Filho de Deus, num acontecimento que transcende a história, e do qual restou, para as sucessivas gerações, a promessa de “paz aos homens de boa vontade”.

 

Roberto Marinho. O Globo, 23/12/1984