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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Confiança e impaciência

O presidente José Sarney, ao ouvir representantes dos vários segmentos da sociedade e das diversas correntes políticas, deve ter-se advertido de que não há consenso em torno das linhas de ação administrativa a serem adotadas para se contornar a atual crise do país.

Tem constatado porém a unânime disposição de se colaborar com o governo — aceitando-se ou não as suas opções — na execução do programa que afinal venha a ser anunciado.

Isso significa que persistem as esperanças na Nova República. Os ideais de pleno restabelecimento das instituições democráticas, retomada do desenvolvimento e implantação da justiça social, renovados no clima que marcou a campanha sucessória, expandindo-se na vitória eleitoral de 15 de janeiro, não morreram com Tancredo Neves.

Por conseguinte, desde que o presidente se disponha a pôr em prática os compromissos firmados no dia 7 de agosto do ano passado, quando se implantou a Aliança Democrática, continuará tendo a seu lado a maioria da nação e, consequentemente, não lhe faltará apoio no Legislativo.

As eventuais divergências, inevitáveis em todo convívio democrático, suscitarão críticas, exigências de compensações e cobrança de resultados. Mas não gerarão conflitos na sociedade, nem rupturas do Executivo com o Congresso.

Os distúrbios que ora despontam não são resultantes de nenhuma medida tomada efetivamente pelo governo, mas apenas de presunções ou interpretações sobre o que o governo poderá eventualmente decidir. São fruto da perplexidade revelada por diversos escalões da administração, na ausência de uma voz de comando, refletindo-se em áreas de maior tensão social.

Veja-se o caso de Nelson Ribeiro que, convidado para o cargo de ministro da Reforma Agrária, sentiu-se no dever de dar início à mesma, anunciando alterações nas “políticas fiscal, cambial, de crédito, energética, de preços e de comercialização” para que o “latifundiário não seja mantido artificialmente”, ao mesmo tempo em que se dispõe a mobilizar recursos públicos para o assentamento de 7,1 milhões de trabalhadores rurais, em propriedades particulares a serem desapropriadas e terras públicas que correspondem a 57% da área geográfica brasileira.

Evidentemente a posse da terra no Brasil ainda é concentrada e desse modo, apesar do crescimento do emprego e dos salários agrícolas reais, na última década, com acentuada melhoria do nível tecnológico, há mudanças necessárias e inadiáveis para se atingir uma distribuição de renda mais justa no setor.

Entretanto, não há como se viabilizarem os custos dessa reforma, no momento em que as autoridades econômicas estão debatendo com o FMI as políticas mais convenientes para se reduzir o déficit do tesouro.

O governo não tem onde obter recursos, quando o próprio presidente anuncia um “rombo” no erário da ordem de 110 trilhões de cruzeiros, comentando que “herdamos o caos econômico”, levando certas autoridades a indicar cortes drásticos nas despesas públicas e no crédito aos empreendimentos privados, enquanto outros setores estão a recomendar o aumento na carga fiscal e a redução da taxa de juros.

Nessas condições, a ambiciosa proposta do ministro Nelson Ribeiro simplesmente veio criar falsas expectativas, temores e agitação. Por outro lado, a partir do momento em que o governo fixou determinada linha estratégica na área econômica, que redundou no incremento da produção, no aumento da reserva em dólares, na queda do desemprego e, principalmente, na redução do índice inflacionário, estabeleceu-se um clima de tranquilidade, apesar de persistirem os debates e críticas, acenando-se ainda com graves dificuldades a médio prazo.

Também quando o diretor da Cacex comunicou o “enxugamento radical” da Cobec, transferindo as suas operações e negociações para companhias privadas e fechando todos os seus escritórios no exterior, não houve qualquer restrição a tal providência de racionalização administrativa.

Da mesma forma, a solução estabelecida para o problema dos mutuários do Sistema Financeiro de Habitação foi considerada como a mais viável conciliação dos compromissos de política social assumidos pelo governo com as possibilidades de atendimento do Tesouro, embora não tenha agradado a grupos que preconizavam a inadimplência e o assistencialismo. Enfim, todas as vezes em que o governo se decidiu a agir, teve a opinião pública a seu lado.

Evidentemente, as diversas correntes que integram o PMDB e a Frente Liberal sentem-se no dever de trazer as suas contribuições à formulação do programa administrativo com o qual o presidente Sarney pretende enfrentar a crise do Brasil no plano interno e no âmbito internacional, concretizando simultaneamente as reformas institucionais exigidas pela nação. Torna-se claro, todavia, que a partir do momento em que o presidente fixar as suas diretrizes, reajustando a sua equipe ministerial para a devida execução dos rumos traçados, as divergências terão de ser superadas pela necessidade de se disciplinar e tornar eficiente a ação governamental.

A nação confia em que os líderes do PMDB, que souberam, com idealismo e competência, transformar uma eleição indireta num pronunciamento nacional, convocando alianças e mobilizando a opinião pública em torno de um programa de realizações a ser cumprido no governo, mostrem-se agora capazes de concretizá-lo, não se desviando para o mero atendimento de interesses eleitorais imediatos. Seria lamentável que o presidente Sarney, obrigado pela necessidade de dispor de uma base parlamentar indispensável à implantação dos compromissos firmados em praça pública, tivesse para isso de recompor, não apenas o seu ministério, mas a própria Aliança Democrática.

Ao se completar o ciclo de reuniões na Granja do Torto, bem assim com o encerramento dos diversos contatos e entendimentos em curso, o presidente José Sarney deverá apresentar o perfil definitivo do seu governo. Apesar das atenções estarem voltadas para as próximas eleições, que irão escolher os prefeitos de todas as capitais, a preocupação maior do país continua sendo com o programa do governo federal.

Há confiança, mas também impaciência. Porque, ao contrário do que transpirou do encontro do presidente com líderes da “esquerda independente”, os prazos e compromissos firmados por Tancredo continuavam vivos na memória da nação.

Roberto Marinho. O Globo, 23/06/1985