Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Confiança no projeto nacional

Ao receber, em 1979, o honroso título de “Homem de visão”, colocando-me na companhia ilustre de personalidades brasileiras consagradas com essa láurea, tive a oportunidade de, ao iniciar meu discurso de agradecimento, afirmar: “O despertar da consciência histórica no século passado levou os homens a acreditarem na existência de leis que determinam os acontecimentos sociais independentemente da vontade dos indivíduos.”

Cinco anos depois, quando Visão reúne em caderno os depoimentos dos agraciados desde 1955, vejo o processo histórico confirmar o pressuposto que, então, mencionei, já que as leis sociais e econômicas não emergem de um acidente isolado, mas da seqüência de acontecimentos, dos quais os homens são agentes e ao mesmo tempo pacientes. Continua, portanto, em vigência, sobranceiro às proclamações dos arautos reformistas, o paradoxo que assinalei: “esperava-se que a propagação dos princípios liberais haveria de redundar espontaneamente no progresso da ciência, da técnica e dos costumes, bem assim na implantação da paz e da justiça”.

De outro lado, adeptos de idéias políticas e econômicas baseadas no materialismo dialético previam o estabelecimento da utopia comunista, numa sociedade sem classes e sem conflitos. O malogro dos sonhos da belle époque, com a eclosão das grandes guerras, o fracasso das promessas socialistas sempre adiadas pelos regimes totalitários em que vieram a redundar e, finalmente, a gravidade da crise dos dias atuais, marcada pelo crescimento dos arsenais atômicos, pela desordem econômica, pelas manifestações terroristas e outras formas de agressão ao direito das pessoas e dos povos, criaram um clima de decepção a que se seguiu uma angustiante expectativa de dificuldades ainda maiores, capazes de pôr em risco o próprio destino da humanidade.

Dessa maneira, na formulação de rumos e diretrizes, os intérpretes do passado começaram a ser substituídos pelos pesquisadores do futuro. Enquanto isso, nós jornalistas, num campo de atuação bem mais modesto, que se situa entre o dos historiadores e o dos futurólogos, distinguimo-nos pelo empenho de tentar desvelar o presente em sua realidade, tendo como único compromisso o de narrar o que acontece, sem a preocupação de vincular os fatos a quaisquer ideologias ou profecias.

Como permaneço em minha função de jornalista — a de procurar descrever a realidade do atual, nela destacando os traços que podem compor a imagem do futuro imediato — cabe-me assinalar que, hoje, tão-somente se tornaram mais nítidos os fenômenos por mim assinalados em 1979.

O processo de abertura, sem dúvida, já não pode classificar-se de singular, depois dos fatos políticos que levaram o poder militar em nosso grande vizinho, a Argentina, a transferir pacificamente o governo a um presidente civil, eleito. No entanto, prossegue, entre nós, vencendo percalços, o processo de abertura política em que se comprometeu solenemente o presidente João Figueiredo, que tinha noção dos riscos a enfrentar. Agora, como antes, estou convencido da necessidade de nos mantermos conscientes de que a nação, restabelecida na plenitude de seus direitos, não admite retrocessos por parte do governo, nem provocações por parte dos agitadores.

Reconheço que, apesar das hesitações e dos sobressaltos recentes, avançamos. Confio em que caminhamos para o fortalecimento de um regime democrático, único compatível com a vocação de grandeza do Brasil e que, assim, saberemos todos — legisladores, governantes, povo enfim — suportar as contradições de um sistema de livre manifestação de idéias e opiniões.

Neste ano de 84, torna-se cada vez mais impensável a pretensão, por mim recordada em 79, de “continuar a viver como uma ilha de prosperidade num mundo em crise”. Na verdade, dentro do conceito de interdependência das nações, se tínhamos condições para reagir à crise que abalou todos os países carentes de petróleo, e de “lutar por nossos legítimos interesses na nova ordem econômica internacional”, hoje constatamos ter transformado as condições em realizações.

Embora persistam como o maior desafio a constância e o crescimento da inflação, associados a uma desoladora recessão, os resultados obtidos na extração do petróleo, na implantação do maior sistema do mundo de produção de combustível alternativo — o álcool — assim como os níveis atingidos por nossas exportações neste ano, sem dúvida vêm funcionando como reaquecedores da retomada do crescimento. Não foi feliz o planejamento econômico ao admitir a premissa da inflação de demanda, à qual aplicou o remédio da compressão salarial. Não só registramos agora os generalizados efeitos da redução do consumo e do volume dos negócios, com reflexo traumatizante na área dos imóveis, como alcançamos uma situação de quase colapso no sistema financeiro da habitação, obrigando o governo a medidas heróicas e nada matemáticas como do tipo do bônus agora aprovado.

Neste momento, pressinto sinais de uma modesta recuperação econômica, convicto ainda de que “os empresários podem e devem arcar com uma participação cada vez maior nas atividades produtivas, na seleção dos investimentos e na fixação das prioridades”.

Tenho acompanhado o anúncio do governo, em seus mais altos escalões, no sentido de diminuir a participação direta do Estado nas atividades produtivas. No entanto, na prática, os índices dessa participação continuam subindo. Basta compulsar os dados de Visão na edição de 84 de “Quem é quem na economia brasileira”. “As instituições financeiras do governo, relata-se ali, ainda abocanham mais da metade do patrimônio líquido total do setor financeiro do país. E as não-financeiras também ficam com mais da metade do patrimônio total das tabelas setoriais de Quem é quem de 84”. Já que essas instituições não estão sujeitas aos riscos da competição, creio que ainda falta muito para ostentar uma autêntica economia de mercado. Ou diria melhor, oferecemos um cenário híbrido e esdrúxulo de convivência entre um sistema de livre competição e iniciativa e o de economia dirigida com preços e condições ditados pelas autoridades.

Em tal passo, a indexação que, em seu momento inicial, se afigurava como adequado remédio para revitalizar o tecido econômico, degenerou a ponto de inviabilizar o desenvolvimento pelo total desestímulo ao investimento produtivo. Este quadro desafia os melhores cérebros deste país que, não obstante, como eu o via em meu depoimento de 79, “tem potencialidade para vencer a nova crise e assegurar para si uma posição de vanguarda na nova ordem mundial”.

Somos os maiores produtores de sucos cítricos, dos maiores de soja, de aço e de outros metais. Já figuramos entre os grandes produtores de carros e de eletrodomésticos. Temos a nosso favor a eloqüência das exportações atuais. Fala ainda mais alto o fato de que temos capacidade para produzir mais e melhor.

Continuo, portanto, como em 79, a acreditar no projeto nacional, na medida em que se amplie a participação efetiva da população no produto bruto e se criem melhores condições para a criatividade empresarial.

 

Roberto Marinho. Depoimento à revista Visão, 06/10/1984