Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


É hora de cumprir promessas

As lideranças do Congresso estão evidenciando uma lúcida consciência de suas responsabilidades no exame das medidas provisórias pendentes de sua aprovação, atendendo ao apelo do presidente da República, na abertura da última reunião ministerial.

Decide-se a implantação de um novo modelo institucional que poderá ensejar a retomada do desenvolvimento e a instauração de um sistema sem privilégios, subsídios, reservas de mercado e manobras corporativistas.

A situação do país é crítica, intensificando-se um clima de perplexidade e inquietação. Há que se definir com urgência um programa econômico objetivo, sem expectativas de alterações a qualquer hora.

Em editorial publicado em nossa edição de 19 de novembro passado, lembrávamos que Collor assumiu o governo enfrentando uma hiperinflação de 100% ao mês, com os serviços públicos paralisados e uma deterioração acelerada da infra-estrutura de energia, transporte e comunicação.

Perdiam os salários diariamente o seu valor, enquanto a ciranda financeira garantia aos especuladores uma rentabilidade superior à ascensão inflacionária.

O presidente não se preocupou em denunciar o terrível legado que recebeu. Assumiu pessoalmente a responsabilidade da política econômica, tanto na nomeação de uma equipe não comprometida com os privilégios vigentes, como no risco de efetuar preliminarmente uma radical incisão na ciranda financeira.

Reconhecíamos, naquela ocasião, que não era possível, na hora do choque que assinalou o início do novo governo, “elaborar-se uma programação da economia, pois impunha- se acompanhar as reações dos agentes formadores da renda, a fim de serem providenciadas as adaptações indispensáveis”.

Mas advertíamos que “após os primeiros meses haveria que se adotar um planejamento a médio e longo prazos, fixando-se objetivos e prioridades”.

É a esse imperativo que as Medidas Provisórias 294 e 295 estão pretendendo atender. Combinam uma ação de emergência contendo temporariamente preços e salários e uma ousada iniciativa de reestruturação do sistema financeiro. Ambas eram imprescindíveis, além de que sua adoção simultânea responde a um requisito de coerência para que tenham eficácia.

O governo considerou que uma das causas fundamentais da persistência da inflação está no sistema financeiro vigente, que obriga o Banco Central a manter uma moeda indexada, que automaticamente se valoriza com o aumento de preços, garantindo a sua rentabilidade real, ao lado da moeda comum, sujeita a uma corrosão diária.

A estabilidade econômica exige um tratamento que distinga, claramente, os fluxos de moeda utilizada como meio de pagamento dos fluxos de poupança que implicam a sua imobilização em aplicações cuja rentabilidade corresponda a um prêmio de prazo e de risco.

É esse o propósito básico da reforma encaminhada, cujo objetivo final é o de colocar o sistema financeiro como suporte da atividade produtiva, com taxas de juros razoáveis que estimulem o poupador, sem representar um custo insuportável para o tomador.

Uma proposta dessa envergadura, que rompe práticas operacionais cristalizadas há mais de duas décadas, estaria condenada ao fracasso, se fosse tentada sem uma ação simultânea de estabilização. Esse é o sentido do controle temporário de preços e salários, cujo risco de não se efetivar se agrava por haver sido precedido por um reajuste de tarifas e insumos.

Tem assim o governo o dever de atuar com agilidade na concretização das medidas a fim de evitar a ruptura da cadeia de produção e de circulação.

Por outro lado, impõe-se resguardar um nível digno de salários na formulação da política para o próximo semestre, contornando-se a aceleração do desemprego e dando-se a devida atenção à condição dos aposentados e pensionistas.

Na procura de soluções que abranjam essa ampla rede de exigências, é preciso que todos se convençam de que não é hora de manobras publicitárias ou políticas.

Que o Congresso saiba preservar as suas atribuições e prerrogativas. E o governo se mantenha na disposição de lutar pelos objetivos de suas diretrizes econômicas, prestigiando a atuação das equipes responsáveis, imune às versões e insinuações de mudanças geradas pela desinformação ou por meros interesses de especulação.

Acima de tudo, que nenhum segmento do Estado ou da sociedade pretenda fixar-se numa posição de inflexibilidade ou ambicionar a aparente vitória de suas proposições.

Trata-se de uma batalha em que todos ganham ou todos perdem. Está em jogo o destino do país. Negar-se a colaborar no esforço comum não é atitude de oposição. E traição.

 

Roberto Marinho. O Globo, 25/02/1991