Brasil

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Erundina e a bomba-relógio

Embora alguns esquerdistas intelectualizados adorem empregos públicos, a verdade é que os montões de apadrinhados que entulham as repartições são oriundos das sucessivas chocadeiras dos chamados partidos políticos burgueses, cujos representantes têm dominado nossa vida pública.

Tal como sua companheira e quase xará Maria Luíza, do Ceará, Luíza Erundina vai receber uma chocadeira entulhada por administrações que antecederam o atual prefeito.

Nesse sentido, é impressionante a revelação contida na leal advertência que o ex-candidato João Mellão Neto, com sua autoridade de ex-secretário da Prefeitura de São Paulo, fez à prefeita recém-eleita: a máquina administrativa consome 90% das receitas da capital paulista.

Fica evidente que as grandes obras públicas que vêm sendo tocadas o são graças a generosos avais do governo federal e a atos de compreensão e benevolência financeira do governo do estado.

Tudo indica que o feroz insulamento político, que sempre marcou a posição do PT vai acrescentar um potencial de desespero à bomba de retardamento que o empreguismo irresponsável vem montando há anos em São Paulo — e, de resto, em todo o país.

Isto só não ocorrerá se Erundina obtiver permissão de seu partido para fazer a lipoaspiração das gordurosas excrescências que o nepotismo cínico veio acumulando ao longo de décadas nas repartições paulistanas, intumescidas com quase oito vezes o número de funcionários que tem Paris. 

Bloqueada pela má vontade ou pela indiferença dos dois planaltos políticos que a cercam — um, vizinho; outro, no altiplano de Brasília — a Luíza de São Paulo só não repetirá o desastre administrativo da Luíza do Ceará se tiver a fortaleza, que esta no teve, de usar bisturi nas adiposidades em que o parasitismo aninha e amamenta seus milhares de rebentos.

 

Roberto Marinho. O Globo, 10/12/1988