Brasil

Brasil

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre a política nacional e os rumos do Brasil. 


Hora de coragem e decisão

O Globo, 5/12/1988, p. 1. Arquivo / Agência O GloboSob o impacto emocional da violência urbana que atingiu mortalmente um membro de sua família, o presidente Sarney fez declarações a O Estado de São Paulo, que não traduzem a realidade política e econômica do país.

Afirmar que o Brasil “caminha para o totalitarismo” e “para a revolução socialista” é sintoma de um trágico equívoco por parte do presidente da República, na intepretação do recente pronunciamento das urnas.

A verdade insofismável é que a população brasileira expressou o seu protesto contra uma política que nos vinha conduzindo a uma escalada inflacionária jamais ocorrida em nossa história. E que só foi detida quando os empresários que o presidente acusa de “omissos, fazendo concessões a modismos”, e a imprensa, que também acusa de “estar contaminada pelo modismo da esquerda”, se uniram com as mais expressivas lideranças sindicais para um esforço conjunto no sentido de se enfrentar a crise.

Não há dúvida de que a atual situação econômica, social e política é grave. Porém, mais grave é esquecermos que está em nossas mãos corrigi-la. Sem pânico. Sem temor. Sem mesmo esperar que o governo se unifique para dar cumprimento à plenitude de suas responsabilidades.

Devemos estar conscientes de que empresários, trabalhadores, profissionais liberais, donas-de-casa, estudantes, enfim, todos os segmentos do povo assumiram a direção da vida brasileira, desde o instante em que elegeram a Constituinte que promulgou a nova Carta.

A Constituição em vigor não representa uma formulação perfeita. Deverá ser emendada em muitos dos seus preceitos. Entretanto, a verdade é que consubstancia a implantação sem retrocesso do regime democrático. Ficaram estabelecidos os limites para a atuação dos governantes, dentro da divisão harmônica dos três poderes. Isso significa que, a partir de agora, a sociedade não mais ficará aguardando passivamente que o seu destino seja traçado por sucessivos “pacotes” de burocratas improvisados em estadistas. Ou por demagógicos projetos de lei. A responsabilidade pela solução dos problemas nacionais é de todos nós. O comando deixou de ser apenas do governo. Acha-se dividido com os representantes dos vários setores da população.

O exemplo do novo estado de coisas está refletido precisamente na instauração do chamado pacto social. Que poderá constituir um passo à frente na adoção de um método realmente democrático de se conduzir o país. Mas que corre o risco de redundar numa frustração, se empresários e trabalhadores se deixarem reduzir a ouvintes privilegiados de decisões da burocracia governamental.

Despontam indícios de que o governo manobra no sentido de que o combate à inflação tenda a derivar para a mera aceitação da recessão, com suas consequências de desemprego, sucateamento dos núcleos de produção e desmoronamento da infra-estrutura econômica que nos custou anos de trabalho, de sacrifício e de endividamento para implantar. Essa perspectiva não é admissível. Baseia-se num diagnóstico que pretende fixar as causas do déficit público apenas nos níveis de custeio e investimentos, quando de fato há um estoque acumulado de dívidas da União, nos âmbitos externo e interno, que ainda não recebeu um tratamento adequado para a sua solução. Sem uma revisão nas negociações para o atendimento desses compromissos, estaremos nos iludindo em tentativas inócuas de saneamento das contas públicas.

Em tais condições, não é cabível que os representantes do trabalho e do capital se conformem em ser apenas testemunhas dessa alienação. Isso poderá reconduzir-nos ao risco da hiperinflação de que nos livramos neste final de ano — repetimos —, não por obra do governo, cuja atuação isolada se vinha refletindo nos índices crescentes do custo de vida, mas da sociedade que se dispõe a colaborar na condução dos rumos da economia.

Em face dessas considerações, não se justifica que se permaneça numa atitude de queixa a respeito de ambiguidades ou vacilações de governantes. Tampouco de receio ante levianas ameaças de invasões ou usurpações. Na democracia, todo o poder emana do povo e só em seu nome será exercido.

A nação dispõe de instituições jurídicas e de força a serviço da defesa dos direitos e do cumprimento dos deveres estabelecidos pela Constituição. Admitir a possibilidade de soluções extremistas, seja por parte de agitadores infiltrados nos dissídios de trabalho ou nos movimentos de greve, seja por saudosistas do regime de arbítrio, é — voltamos a dizer — iludir-se. A democracia brasileira não é mais uma experiência. E um estágio de desenvolvimento político do qual não haverá retorno. Não cabe à nação, por conseguinte, ficar aguardando palavras de ordem ou de tranqüilização. Cumpre falar, definindo as linhas de ação que se afigurem compatíveis com as nossas exigências de desenvolvimento econômico e social. E nos empenhamos no sentido de pô-las em prática.

A hora não é de susto, nem de fuga. É de trabalho e investimento, de coragem e decisão.

 

Roberto Marinho. O Globo, 5/12/1988