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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre política e economia internacionais.


Japão — a liderança na inovação

Tóquio — Na indústria eletrônica, um novo aspecto da ascensão econômica do Japão se revela para o visitante ocidental. Não se trata apenas das relações peculiares (e altamente produtivas) entre capital e trabalho, nem da disciplina e dedicação presentes em todos os escalões da empresa. O que chama a atenção numa companhia como a Sony é a criatividade, o uso da imaginação para conquistar e manter a liderança num campo em que a inovação é instrumento indispensável da sobrevivência.

O avanço tecnológico está presente, evidentemente, em todos os setores da produção. Mas variam as velocidades com que ele se desenvolve, o tempo de gestação dos novos processos e técnicas. Na eletrônica, desde os tempos pré- históricos em que o transistor substituiu a válvula — foi há 34 anos, mas, para o homem moderno, parece algo tão remoto quanto a invenção da lâmpada elétrica — a rapidez tem sido de tirar o fôlego. E os departamentos de pesquisas, não as linhas de montagem, são o coração da indústria.

Uma visita às instalações da Sony em Atsugy, perto de ‘Tóquio, bem compensa enfrentar um trânsito que, em matéria de lentidão, nada fica a dever ao do centro do Rio ou de São Paulo na hora do rush. E ali que se produzem os semicondutores e os mais avançados produtos de vídeo, que fazem a empresa conhecida em todo o mundo; e é também em Atsugy que se desenvolve toda uma nova geração de equipamento eletrônico, como os sistemas de videodiscos e o revolucionário sistema digital de áudio que em pouco tempo poderá colocar de pernas para o ar toda a indústria fonográfica. Trata-se do maior centro tecnológico da Sony.

A primeira observação do visitante parte de seu contato inicial com os chefes de divisão e departamento que o recebem. Como em toda parte, encontra-se a polidez que os japoneses refinaram a ponto de se transformar em instituição nacional. Os anfitriões se curvam até a cintura (no cumprimento que só eles conseguem fazer sem dar a impressão de servilismo), serve-se o inevitável chá verde, acompanhado de pequenas toalhas aquecidas e úmidas. Mas há algo mais: os donos da casa parecem mais jovens — e mais joviais — do que na maioria das empresas de outros ramos.

Eles próprios confirmam que o ambiente de trabalho na Sony é particularmente descontraído. Não há grandes diferenças (até mesmo salariais) entre os diferentes escalões. Os chefes são quase todos engenheiros — e nisto a empresa industrial japonesa se diferencia de sua concorrente americana, na qual os altos postos são entregues, em sua maioria, a executivos com formação nas áreas comerciais e de administração. Será essa uma das razões do sucesso? Os japoneses garantem que sim, e pelo menos com os resultados não se pode discutir.

Em Atsugy, todos usam jaquetas iguais — as mangas são destacáveis e quem quiser transforma os casacos em coletes — e todos parecem iguais no entusiasmo com que falam de seu trabalho e com que mostram os novos produtos, como jovens pais exibindo saudáveis primogênitos.

Um desses filhos das novas gerações de máquinas incríveis é a Mavica, uma câmera fotográfica sem filme, que grava magneticamente as imagens num pequeno disco. Não há revelação nem ampliação. As “fotos” podem ser projetadas numa tela de televisão, e cada magazine registra 50 imagens, podendo ser regravado em processo idêntico ao de uma fita cassete. Além disso, uma outra inovação, chamada Mavigraph, permite a obtenção de cópias coloridas — tanto a partir da Mavica como de qualquer outro sinal de vídeo.

Outra inovação revolucionária é o sistema de áudio digital. Nele um disco de cerca de 10 centímetros de diâmetro produz uma hora de reprodução de som. Não há agulha, mas sim um sistema de laser que garante uma qualidade de som sem comparação com qualquer sistema hoje no mercado. E, como o disco também grava sinais de comando, o ouvinte pode, acionando um controle remoto, “pular” de um ponto a outro da superfície gravada.

Essas invenções revolucionárias fazem parte de todo um conjunto de avanços tecnológicos que está gradualmente mudando nossos hábitos — e são tão importantes no lazer quanto na educação e na difusão de informações. Esses avanços demandam não apenas a intenção de pesquisar e a destinação dos recursos materiais necessários como também a criação de um ambiente de trabalho que estimule e recompense a pesquisa bem-sucedida. Na Sony, existe um “Círculo Internacional de Idéias”, pelo qual seus funcionários em todo o mundo são incentivados a apresentar planos e projetos, por mais mirabolantes que sejam. Todos são examinados e os mais promissores recebem as verbas necessárias para o seu desenvolvimento. Dezenas de novos produtos nasceram assim.

Evidentemente, a Sony não está sozinha no desbravamento das fronteiras tecnológicas no terreno da eletrônica. De modo geral, pode-se dizer que toda a indústria japonesa participa desse esforço, que já a fez deixar para trás os concorrentes europeus e que a colocou em situação de ameaçar — e ultrapassar, em diversos casos — a liderança dos Estados Unidos.

A eletrônica é o exemplo mais flagrante, com resultados mais presentes em nossa vida diária. Mas é bom não esquecer que os japoneses, hoje, produzem pianos considerados melhores que os tradicionalmente famosos Steinway alemães...

Na verdade, seja em pianos, seja em sofisticados semicondutores, é generalizada na indústria japonesa a obstinação de aperfeiçoar e inovar. Apesar da barreira representada pelos quase três mil caracteres de sua escrita — o que torna a alfabetização uma respeitável façanha — o país tem um dos sistemas educacionais mais avançados e democráticos do mundo. Está aí, certamente, a explicação básica para a crescente liderança em quase todos os campos de pesquisa: a parcela significativa da população dotada dos instrumentos necessários para o estudo e desenvolvimento de novas idéias.

Há uma dramática escassez de matérias-primas no reduzido território do arquipélago japonês. Mas imaginação e criatividade não ocupam espaço, e representam um bem de produção que existe com fartura no Japão de hoje.

 

Roberto Marinho. O Globo, 04/11/1982