Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Jornalismo ainda mais vivo - e voltado para a paz

Presto uma homenagem aos antigos profissionais da imprensa que não só criaram a Associação Brasileira de Imprensa como também lhe deram uma alma perene e a instalaram numa sede condigna. Entre tantos nomes ilustres de que é formada a nossa profissão, desejo isolar e destacar a figura do meu querido companheiro de tantas lutas e de tantos anos — Herbert Moses.

O Dr. Moses foi, em momentos decisivos, um colaborador insubstituível, como meu colega na direção de O Globo. Homem de energia inexcedível, multiplicando a sua atividade até a onipresença, Moses dedicava à ABI o melhor do seu esforço e da sua imaginação criadora. Conhecendo-o como o conheci, estou convencido de que, assim agindo, ele queria e perseguia, acima de tudo, a valorização da então precária e duvidosa profissão de jornalista.

E como jornalista profissional, como homem de imprensa que se honra de ser filho de outro homem de imprensa hoje incorporado à história da nossa profissão, é apenas como um colega entre tantos que freqüentam esta casa que me apresento com uma colaboração informal e de extrema cordialidade.

Avesso a confissões ou explicações de público, chego mesmo a sustentar que os homens de comunicação devem de preferência manter-se numa discreta penumbra. Tanto quanto possível, devemos não ser notícia. Cumpre-nos, isto sim, servir ao dever de buscar com objetividade e divulgar com honestidade as notícias.

Exatamente por estar nesta casa que me é tão familiar — e que considero uma extensão da minha sala de trabalho — desejo expressar-me, na intimidade de oficiais do mesmo ofício, de uma maneira que, não sendo nova, é, todavia, profundamente sincera e verdadeira.

Nasci homem de imprensa. Fui, sou, tenho sido e só serei, enquanto tiver vida e capacidade de trabalho, apenas e tão-somente homem de imprensa. Este, o meu destino. Esta, a minha vocação. Podia estender-me em muitas reminiscências e considerações para ilustrar o que agora afirmo. Dispenso-me, porém, de fazê-lo, porque sei que, possíveis divergências à parte, ninguém duvidará de que vivi e vivo integralmente, dia a dia, hora a hora, sem interrupção, a vida absorvente do jornalista profissional.

As circunstâncias e os acasos da vida abriram-me outras e variadas perspectivas. Neste meio século em que tenho sido, com orgulho e honra, redator de banca, para usar a velha expressão hoje fora de moda, muitas coisas aconteceram e o mundo e o Brasil passaram por extraordinárias e vertiginosas transformações.

A imprensa (quero me referir aos jornais da hoje chamada Galáxia de Gutemberg) passou, mais ou menos como tudo, e talvez mais do que tudo, por um processo de crise, adaptação e modernização de sentido radical e profundo. Nem por isso o jornal perdeu a sua indestrutível e permanente personalidade. Resistiu e resiste a todos os ventos, a todas as profecias agourentas, a toda futurologia pessimista. Está mais vivo do que nunca. Adaptou-se aos novos tempos, como lhe competia, como se exigia de sua sensibilidade e de sua inteligência. Fortaleceram-se os que se assentaram em estrutura empresarial capaz de garantir-lhe não apenas a continuidade, como também a independência. E, pois, como testemunha participante de um longo processo de transformação social e profissional que lhes peço para ver em mim apenas e sobretudo o companheiro de redação, o repórter, o redator, o secretário que acumulava as mais variadas funções, o diretor-redator-chefe de O Globo.

Nenhum título, nenhuma honraria, nenhuma comenda, nada importa mais para mim do que o exercício diário, ininterrupto, constante, das funções profissionais que, ao longo de toda a minha vida, venho exercendo no jornal que se honra de ter sido fundado e continua a ser inspirado por Irineu Marinho.

Gostaria de propor aos que me ouvem algumas reflexões que se fundam muito mais no trabalho, na prática, no dia-a-dia da nossa profissão, do que propriamente em doutrinas mais ou menos sofisticadas ou em teorias que, ainda que corretas, são fruto de abstração e elucubração.

A convite da ABI, e em especial do meu querido e eminente confrade Prudente de Moraes Neto, a quem a classe jornalística já deve tantos leais e desassombrados serviços, só posso trazer aqui algumas considerações que decorrem diretamente de minha experiência pessoal e profissional.

Não têm faltado, em todo o mundo, no Brasil inclusive, arautos e cassandras sempre dispostos a anunciar a decadência, a agonia e a morte dos jornais. Já o aparecimento do rádio, pelas suas características de fato inovadoras e sobretudo por sua instantaneidade, acarretou e estimulou um debate acadêmico, em torno da possível e, segundo alguns pessimistas, discutível convivência dos noticiosos falados com os jornais impressos. Todos nós, menos moços, nos lembramos, perfeitamente, do que representou o rádio, como veículo de informação, durante a II Guerra Mundial.

Instalada a primeira emissora em 1922, 17 anos depois, já em 1939, o rádio alcançava no Brasil, do ponto de vista jornalístico, importância e amplitude que imediatamente convocaram ou até mesmo preocuparam os estudiosos da informação, a começar evidentemente por nós jornalistas.

As características da radiodifusão, como veículo noticioso, impuseram, como era fatal, algumas imediatas e substanciais modificações ao jornalismo impresso, tal como vinha sendo exercido ao longo de um século, em nosso país.

Para só ficar no exemplo mais notório, bastaria mencionar que o advento dos noticiosos radiofônicos pôs fim ao sistema de edições diárias sucessivas, em que se empenhavam os jornais comprometidos com a melhor e a mais rápida forma de informação. O Globo, por exemplo, na escala ágil dos vespertinos que eram então uma ponta de lança pioneira na nossa imprensa, tirava até cinco edições diárias, segundo as imposições do dia, ou melhor, dos acontecimentos. Durante a II Guerra, mantivemos o regime clássico do jornal vespertino e O Globo, ainda depois de 1945, quando terminou a guerra, continuou a imprimir duas edições diárias.

Esse ritmo febril da velha imprensa não esmoreceu, na medida em que exprime identidade com a profissão, desejo ansioso de servir ao público, energia sempre desperta para conseguir, a cada dia, o melhor resultado jornalístico. E fora de dúvida, porém, que, se houve uma desaceleração no ritmo do jornal, a capacidade e a competência profissionais se voltaram, em compensação, para o aprimoramento da confecção do jornal e para o aprofundamento da notícia e de sua interpretação. Esse foi o primeiro efeito mais evidente da presença do rádio no universo da comunicação.

Vinte e cinco anos depois de inaugurada a radiofonia no Brasil, instalou-se entre nós a televisão. Nasceu associada ao rádio, como era natural e até impositivo. Iniciativa vanguardista do grande espírito inovador que foi Assis Chateaubriand, a televisão significava um desafio em todos os planos, mas trazia sobretudo o compromisso de encontrar a sua linguagem própria e específica. Neste quarto de século decorrido de lá para cá, em que pese restrições e má vontade, a televisão percorreu um longo, atribulado e áspero caminho. Em termos objetivos, a televisão progrediu, aprimorou-se e sofisticou-se de maneira admirável.

Basta analisar o que significa hoje o papel da televisão no campo da comunicação, ou tão-somente no setor estrito da informação jornalística. Desmentindo os que temiam e contrariando o que anunciavam alguns precipitados espíritos pessimistas, a televisão não tirou de cena o rádio, nem ao menos lhe enfraqueceu a presença. Muito ao contrário. O que vemos, o que verificamos, é uma revitalização do rádio em todo o mundo e também no Brasil.

Os progressos de ordem técnica, a melhoria do equipamento, os avanços da própria arte da comunicação de massa deram ao rádio um desempenho e um papel que hoje temos de considerar da mais alta relevância. O mesmo poderíamos afirmar — quem sabe com mais ênfase — da televisão, no que concerne à sua participação no setor de informação. Tais foram as mudanças impostas pela presença do rádio e da televisão, na escala nacional e mundial em que hoje operam, que temos de reconhecer que o conjunto de valores da nossa civilização sofreu um impacto de proporções antes desconhecidas.

Ampliou-se, em termos inimagináveis, o universo da comunicação. O homem dos nossos dias tem todos os seus sentidos e toda a sua sensibilidade em estado de alerta para captar o que os meios de comunicação lhe podem oferecer em termos de informação noticiosa, pedagógica ou de utilidade pública, e também de divertimento.

Ele quer ver, no mesmo instante em que acontecem, os fatos mais importantes do planeta, para colocar-se em dia com a realidade dinâmica do mundo e sentir-se participante da aventura humana nas mais longínquas fronteiras. Tudo o que apenas sacia a curiosidade do conhecimento fatual ou acrescenta emoções de satisfação ou de pesar às coisas do dia-a-dia, e requisitadas vorazmente pelo olho infatigável do cidadão da era eletrônica.

E assim como quer ver, através das telas da televisão, as imagens do mundo, o homem universalizado quer ouvir pelo rádio os sons da nossa civilização. Não importa onde se encontre — dentro de casa, no local de trabalho, no ônibus, no táxi, no seu próprio automóvel e até no meio da rua, transistor colado ao ouvido — ele sintoniza para a notícia de última hora, a música preferida, a reportagem, a informação útil, a disputa esportiva, o programa de auditório, a divulgação cultural. Até nos estádios, assistindo a uma partida de futebol, não lhe basta o testemunho visual do jogo, quer saber ao mesmo tempo, pelo radinho de pilha, o que se passa nos bastidores, as impressões dos jogadores e dos técnicos, todos os flagrantes de interesse que ocorrem ao seu redor. E por esse canal radiofônico os locutores conseguem inclusive — como é o caso de uma das nossas emissoras — comandar as reações das platéias futebolísticas.

Nos jornais, esse mesmo telespectador e rádio-ouvinte, e agora leitor — uma tríplice entidade indivisível — vai à cata da reportagem minuciosa, da matéria opinativa, dos artigos, dos comentários e das análises que o ajudarão ao melhor entendimento do que se passa à sua volta, em nível local ou cósmico. O jornal lhe dá quantidade e qualidade informativas, suprindo-o copiosamente de material de reflexão e orientação. Complementa, assim, de maneira mais substancial, a corrente contínua de comunicação do rádio e da televisão. A meu ver, a televisão e o rádio, com os impactos que produzem, excitam a curiosidade pública e levam, automaticamente, os telespectadores e os ouvintes a procurar os jornais.

Naturalmente, os veículos tradicionais, como é sobretudo o caso do jornal, tiveram de adaptar-se aos novos tempos. Houve casos lamentáveis de desaparecimento de grandes órgãos de opinião, como o bravo Correio da Manhã de Edmundo e de Paulo Bittencourt, e o enfraquecimento do indomável Diário de Notícias, de Orlando Dantas. Outros, não souberam ou não puderam acertar o passo. Mas a verdade é que o rádio, hoje revitalizado pelo transistor e pelo FM, de sentido comunitário, e a televisão, de amplitude nacional, vieram trazer à imprensa gutemberguiana não só um desafio, como também e sobretudo uma nova dimensão.

Jornal, rádio e televisão coexistem assim em perfeita paz. Convivem, de um modo geral, sem agressão ou prejuízos recíprocos. Pelo contrário. Complementam-se. Alimentam- se mutuamente, enquanto dividem entre si as importantes tarefas de uma sociedade moderna que não dispensa os órgãos de comunicação.

Será fácil comprovar essa boa convivência, em todos os campos, inclusive no setor da publicidade. E comprovar, também, que o ingresso da televisão na concorrência publicitária não afetou a economia da imprensa, ficando na verdade área suficiente para o suporte financeiro de todos os veículos de comunicação.

Vejamos, a propósito, o que se verifica nos Estados Unidos e na Europa, quando se fala em crise de imprensa por motivações financeiras. Não é a televisão estatizada do modelo europeu, infensa à publicidade, que está fazendo desaparecer ou atrofiar jornais e revistas, mas dificuldades de outra natureza, como a inflação e o custo do papel. Enquanto isso, a imprensa experimenta uma nova fase de florescimento nos Estados Unidos, onde a televisão e o rádio, sob o controle da iniciativa privada, disputam o mercado publicitário com os jornais.

Grandes jornais, nossos e do mundo inteiro, que souberam acompanhar a evolução dos meios informativos e adaptar-se racionalmente às novas circunstâncias administrativas, financeiras, técnicas e profissionais da imprensa. Não só sobreviveram à modernização das comunicações como se tornaram ainda maiores, crescendo em espaço noticioso, na circulação, na publicidade, na prestação de serviços e no prestígio junto à opinião pública. Tivemos no passado um número enorme de jornais. Só no Rio chegamos a contar com vinte e seis jornais diários. E que no Brasil, como todos nos lembramos, havia o dólar-papel, que a princípio desempenhou certa função de defesa da economia dos jornais. Posteriormente propiciou uma indústria artificial, criadora de um pseudojornalismo e transformando-se num escandaloso privilégio contra o qual — para honra da nossa imprensa — se voltaram os órgãos mais responsáveis de opinião. Restabelecida gradativamente a taxa real do dólar, os que viviam desse artifício foram aos poucos desaparecendo.

Entre os jornais brasileiros que venceram o desafio dos nossos tempos bastaria citar o exemplo de alguns: de O Estado de S. Paulo, das Folhas, de São Paulo, do Correio do Povo de Porto Alegre, da A Tarde da Bahia, do Estado de Minas, de Belo Horizonte. E, sem qualquer jactância mas antes com espírito de modéstia que deve caracterizar todo profissional responsável, peço licença para acrescentar à lista dos bem-sucedidos no Rio o caso de O Globo, que é o que conheço intimamente há mais de 50 anos.

Deixo de lado o aspecto da circulação, que só vem evoluindo no sentido positivo, o que já nos permite inscrever- nos entre os jornais de amplitude nacional. Não é preciso recorrer a dados cansativos e minuciosos para concluir com acerto que O Globo atual exprime um fortalecimento jornalístico, empresarial e publicitário dos mais expressivos e que se reflete tanto na categoria dos serviços que presta ao seu público como na valorização profissional dos que nele trabalham.

O fenômeno dessa revitalização da imprensa, de que O Globo é apenas um exemplo, é mais que nacional — é universal. Em todos os países, ainda nos mais adiantados, onde a imprensa deitava raízes profundas e sólidas, muitos jornais só fizeram fortalecer-se, ao mesmo tempo em que se tornaram mais complexos e mais completos, mais substanciosos e mais analíticos. Aceitaram, como aqui nós aceitamos, o papel que incumbe à comunicação escrita — e que é importantíssimo, essencial e insubstituível, sobre ser também indissociável, nos países de economia aberta, de uma sociedade pluralista e genuinamente democrática.

Quanto à televisão, adotamos o caminho de gerar e fornecer programações para emissoras estaduais de outros grupos. Estas progridem e prosperam hoje em função do tirocínio dos seus dirigentes e colaboradores, mas também devem parte desse sucesso aos programas da Rede Globo de Televisão. Formamos uma comunidade fraterna, que se reúne periodicamente, aqui, em Brasília, nas diferentes cidades onde se acham as nossas emissoras ou as coligadas, e discutimos problemas e programas comuns, sobretudo estabelecendo planos para atividades futuras. Graças ao feliz enlace dos diversos veículos modernos, que hoje compõe o largo espectro da comunicação, o jornal vai deixando a cada dia de ser um privilégio de poucos, ou um serviço de elite.

Foi esse bom entendimento, portanto, que possibilitou e multiplicou a nossa capacidade de ação em campos que antes nos eram inalcançáveis, senão vedados, O Globo, apoiado no rádio e na televisão, muito tem podido fazer em matéria do que, sem exagero, podemos considerar um trabalho amplo e contínuo de integração nacional, de democratização da cultura, acrescentando-se ao esforço dos setores governamentais e privados.

As grandes massas, estimuladas pelo poder do rádio onipresente e da televisão, vão tendo a cada dia cada vez maior e mais direto acesso à informação, à recreação e à cultura. Graças à conjugação do jornal, da televisão e do rádio, conseguimos levar multidões de duzentas e trezentas mil pessoas à praça pública para ouvir música clássica — fato inédito possivelmente no mundo. Em todo o país, realizamos os Jogos Universitários Brasileiros, fazemos exposições de pintura nos Estados. A chegada de Papai Noel ao Maracanã tornou-se a maior festa infantil que se realiza no Brasil. Levamos a Paris, recentemente, a maior mostra de pintores brasileiros já realizada pelo nosso país no exterior, Os Concertos para a juventude, o Concurso Nacional de Coros, o Concurso dos Jovens Instrumentistas, a Abertura-Festival da Nova Música Brasileira, os Festivais Internacionais da Canção, as campanhas de promoção social — são dezenas e dezenas de iniciativas que seria fastidioso enumerar, e que só se tornaram possíveis e alcançaram seus nobres objetivos graças à conjugação de todos os elementos de comunicação.

Falei anteriormente em Assis Chateaubriand. E aqui confesso que foi inspirado no seu complexo de comunicações que resolvemos montar o nosso, mas seguindo um novo modelo. Chateaubriand conseguiu implantar jornais, rádios e televisões praticamente em todo o território nacional. Nós preferimos reduzir essa escala, concentrando-nos num único jornal e num pequeno número de emissoras de rádio e de televisão, embora sem perder de vista o caráter nacional da nossa cobertura.

Por que só um jornal? Porque fazer um bom jornal é uma das tarefas mais difíceis do nosso tempo e fazer vários bons jornais parece praticamente impossível. O panfleto de outrora e depois a imprensa incipiente que vivia à base dos artigos dos grandes editoriais e doublé de políticos foram substituídos por uma organização ultracomplexa, em que ao instrumental de preparo profissional, talento, cultura, sensibilidade e espírito público de sua equipe de redação devem juntar-se os meios operacionais que pressupõem todos os conhecidos problemas da vida de uma empresa. Por isso, em matéria de jornal, nos restringimos a O Globo e para O Globo dirigimos todo o nosso esforço de expansão e aprimoramento.

Cada departamento da empresa jornalística deve funcionar tendo por objetivo a impossível perfeição. Nada pode ser negligenciado. A administração geral, as oficinas, a publicidade, a circulação — todas as partes que constituem a empresa deverão gerir-se por métodos empresariais modernos, ágeis, produtivos. Empresa que é, ela precisa oferecer lucros sem os quais não pode subsistir. E ela precisa subsistir para fazer o jornal independente.

Esse o ponto sutil que torna o jornalismo incomparável no universo dos empreendimentos humanos. A empresa faz o jornal, mas ela não é o jornal. O jornal está acima e além da empresa. Assim como a nossa alma tem no corpo o apoio indispensável para afirmar sua transcendência, o jornal se nutrirá necessariamente dos resultados de uma empresa economicamente saudável. Mas a hierarquia dos valores colocará sempre o jornal, que é idéia, acima da empresa, que é circunstância.

Essa distinção enobrece a nossa atividade. Igualmente, ela nos onera com compromissos a que devemos fidelidade constante. Não é raro que o nosso jornal contrarie, em nome de seus princípios, interesses eventuais da nossa empresa. A nossa empresa apenas viabiliza O Globo.

A ideia-base de um grande jornal é a promoção do bem comum. Nenhum jornal pode renunciar a esse compromisso. A promoção do bem comum, como a entenderam e entendem o fundador de O Globo e seus sucessores, tem como primeiro requisito a paz pública. E nossa crença que a violência, a desordem, o tumulto não concorrem para o bem comum.

Temos portanto, perante nós mesmos e perante a tradição de meio século de coerência, um norte a nos guiar, que é lutar pelo nosso desenvolvimento, pelo aprimoramento dos nossos costumes, pelo progresso firme e constante das conquistas sociais — num clima de tranqüilidade pública que antes de mais nada ponha a salvo de qualquer ameaça os desígnios supremos da nação.

No período já tão extenso que o Brasil atravessa, de modificações estruturais por meio das quais nos preparamos para atingir o estágio de potência mundial, não posso deixar de orgulhar-me por verificar o quanto O Globo se tem identificado com esse processo que nos arranca do lodaçal do subdesenvolvimento, às vezes com impulsos traumatizantes, mas sem em nenhum momento renunciar à principal de todas as suas aspirações e promessas — que é a de construir uma sociedade próspera e, sobretudo, livre e democrática.

Somos homens públicos, nós os jornalistas, queiramos ou não. Nosso primeiro dever profissional é noticiar. E além de noticiar, denunciar as violações do bem comum. Cumprir essa obrigação exige de nós a coragem despida de emocionalismo, o trato do imediato condicionado pela capacidade de sondar o futuro mais distante possível, e sobretudo a impessoalidade que nos poupe da tentação de confundir interesses restritos com o verdadeiro interesse coletivo.

No desempenho da tarefa tão política e, em consequência, tão controvertida, enfrentaremos obstáculos sem conta, sendo deles o mais árduo de transpor a incompreensão.

O jornalista vive mergulhado no torvelinho dos interesses conflitantes. Revelador e intérprete do que se passa, foge-lhe o privilégio de contentar a todos. E ele não deve aspirar a esse privilégio. Nem mesmo deve contar, a menos que a ingenuidade o domine, com a satisfação constante de um determinado setor da sociedade ou de um determinado grupo de indivíduos.

Sua matéria-prima é a notícia. E notícia é mais o que mostra o errado do que o que mostra o certo. Tem que ser assim, na medida em que a utopia é impossível.

Nós em O Globo não renunciamos ao estado de espírito de confiança, sem o qual nada se constrói. Será essa fé no povo brasileiro, com certeza, a causa maior de acompanharmos com tão estreita ligação o emergir de uma nação pujante, em vias de alcançar a firme estabilidade que possibilita a ampla liberdade. Ao mesmo tempo, proclamamos o dever do jornalista de tornar público todo procedimento que lesa o bem comum, não pelo simples alarde do erro, mas para exigir dos responsáveis que façam cessar esse erro. E o dever suplementar de perseverar, mesmo quando sofra o peso do arbítrio ou o vazio da indiferença.

A denúncia do erro não deve ser gratuita. O que a legitima é a existência da possibilidade de corrigir. Denunciar aquilo que é impossível de modificar — pelo menos imediatamente impossível — significa praticar a demagogia, o sensacionalismo, que é o avesso do jornalismo.

Eis um bom lema para o jornalista imbuído da sua missão: exigir o possível. Pois ainda que forçosamente animados por um sonho, somos — os jornalistas — prisioneiros do real.

Temos errado. Às vezes, reconhecemos o erro tão logo o cometemos, às vezes tempos depois. E sempre doloroso. O que nos consola, porém, não é tanto um saldo positivo de acertos. Não temos essa ilusão. Os erros são irresgatáveis por mero balanço estatístico. Mas a reta intenção, sim, essa pode redimi-los. E na tarefa dentre todas difícil de a cada passo procurar descortinar o melhor caminho e tomar a decisão de segui-lo, isso é o que nos ampara — a intenção de fazer o melhor.

Quero encerrar com uma despretensiosa palavra de fé na profissão e nos profissionais que fundaram, ergueram e mantêm prestigiosa e independente a Associação Brasileira de Imprensa.

O jornal está mais vivo do que nunca. A imprensa é hoje tão necessária quanto o foi ontem. O jornalismo será amanhã um instrumento insubstituível numa sociedade em que se pretenda mais livre, mais humana e mais justa.

Um mundo que dispense a missão do jornalista estará mutilado. Uma época que cerceie, enfraqueça ou anule a ação do profissional de imprensa estará por si mesma historicamente condenada. Enquanto houver civilização, enquanto permanecer no homem a sede de informação, nós, jornalistas, podemos estar certos de que teremos funções essenciais a desempenhar.

Não é outro o motivo que nos impõe a consciência da nossa responsabilidade social e nos compromete com deveres inalienáveis, na medida em que se identificam com a dignidade dessa nobre profissão de homens esclarecidos e independentes.

 

Roberto Marinho. Discurso no III Seminário de Jornalismo da ABI, 01/07/1976