Uma trajetória liberal

Uma trajetória liberal

Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


José Sarney

José Sarney e Roberto Marinho em jantar no Cosme Velho, oferecido aos imortais da Academia Brasileira de Letras, como parte da candidatura de Roberto Marinho à cadeira 39, 17/07/1993. Marcos André Pinto/Agência O GloboO senador José Sarney e Roberto Marinho foram amigos pessoais até o fim da vida do jornalista. Sarney era vice-presidente de Tancredo Neves e tinha a missão de concluir o processo de redemocratização do país, após a morte do político de São João del-Rei.

Quando era presidente, Sarney visitava Roberto Marinho sempre que vinha ao Rio de Janeiro. As conversas giravam em torno da política maranhense, de apoio para a realização de eventos culturais, como exposições de arte, e assuntos pessoais. Sarney relembra: “A partir daí, foi se estabelecendo uma ligação mais estreita, mas sempre marcada, do meu lado, pela diferença de idade entre mim e o Dr. Roberto, o que dava um espaço muito grande, sempre com um tom reverencial em relação a ele. Até mesmo porque, naquele tempo, ele já tinha essa extraordinária história. Mas o Dr. Roberto era muito contido em falar do passado. Ele raramente fazia julgamento de pessoas. Quando o fazia, era com  poucas palavras. Ele não gostava de julgar pessoas nem de narrar fatos históricos."

A troca de cartas, bilhetes e telegramas entre eles era enriquecedora. Quando Roberto Marinho foi à Asia, em 1987, além de desejar boa viagem ao amigo, Sarney também agradeceu a autoridade, os serviços que o empresário prestava ao país, o seu espírito público e pediu o apoio dele aos esforços do governo.

A amizade entre os dois também foi intensa no campo das artes. Ainda em 1987, José Sarney e o presidente da Argentina, Raul Alfonsín, inauguraram a exposição da coleção Roberto Marinho no Museu Nacional de Artes, em Buenos Aires. Acadêmicos, frequentaram as conversas e as sessões na Academia Brasileira de Letras até a morte do jornalista. “Eu gostava do Dr. Roberto não só pela influência que ele tinha, mas porque era um homem sensato. Um bom conselheiro que sempre dava uma visão da coisa correta. Roberto tinha um grande espírito público, de justiça. Ao longo da vida, conseguiu se conectar com a história contemporânea. Sob esse ângulo, ele realmente era uma âncora para se apoiar. Eu sempre tive três ou quatro pessoas amigas na vida que estavam do meu lado em qualquer decisão. Dr. Roberto era uma delas.”