Uma trajetória liberal

Uma trajetória liberal

Roberto Marinho foi responsável por uma revolução na história da comunicação no país. Ao longo da vida, expandiu os empreendimentos, empregou milhares de trabalhadores e implantou um padrão de qualidade nas empresas baseado na ética e na credibilidade. Tinha orgulho de ser um jornalista, profissão que o levou a criar um grupo de mídia que se tornou defensor da liberdade de expressão, da livre iniciativa e da democracia no Brasil. Não admitia a derrota e só perdeu para a doença que o vitimou perto de completar um século.


Leonel Brizola

Leonel Brizola se envolveu em diversas polêmicas com Roberto Marinho. Em 1982, foram realizadas as primeiras eleições diretas para governador, após o início do regime militar. A apuração oficial dos votos foi realizada pela empresa Proconsult. O jornal O Globo decidiu montar um esquema de apuração próprio, com o objetivo de antecipar o resultado das urnas. Tratava-se de uma apuração complexa, que envolvia eleições para cargos de governador, deputados federal e estadual e vereador. A apuração seguiu a ordem de chegada das planilhas do TRE, e as primeiras a serem apuradas foram as do interior, em redutos do PDS, o que sinalizava a vitória de Moreira Franco sobre Brizola. Mesmo o jornal e a TV prevendo a vitória de Brizola em seu noticiário com a apuração das urnas da capital, o candidato do PDT acusou O Globo e a Rede Globo de estarem manipulando os resultados. A acusação era falsa.

Em fevereiro de 1984, Brizola não aceitou a proposta da TV Globo de ter exclusividade na transmissão do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e concedeu o direito de transmissão à Manchete. Em 1985, a Globo transmitiu o  desfile das escolas de samba em pool com a emissora de Adolpho Bloch.

O então governador eleito Leonel Brizola visita Roberto Marinho na TV Globo, 24/12/1982. Alcyr Cavalcanti/Agência O GloboOutro mal-estar entre Brizola e Roberto Marinho envolveu o Projac. O terreno foi comprado por volta de 1988 e a construção começou no ano seguinte. “Começamos o planejamento, o Brizola interferiu e suspendeu as obras, alegando impacto ambiental. Brizola dizia que o Projac era 'poluente'. Na realidade, não era nada disso”, contou Roberto Irineu. "Eu procurei o secretário do Meio Ambiente, Roberto D'Ávila, e ponderei. As obras ficaram paradas quase dois anos. Ou seja, a decisão de comprar o Projac foi de 1986, mas ele ficou pronto quase dez anos depois, em fevereiro de 1995.”  


Apesar de adversários quase a vida toda, alguns depoimentos colhidos pelo Memória Globo revelaram que o ex-governador do Rio de Janeiro nutria por Roberto Marinho uma mistura de inimizade política e admiração pessoal.

O jornalista Roberto D’Ávila comenta: “O Brizola dizia assim: ‘Quando me eleger presidente da República, eu vou entrar nessa TV Globo.' Era uma espécie de ameaça do tipo 'vou cassar'. Quando Dr. Roberto soube daquilo, retrucou: ‘Eu posso dizer que ele tocou o espadachim.’ Ou seja, deu uma estocada no Dr. Roberto. Ele queria parar com a briga, mas a briga continuou."

A falta de uma observação pessoal pode ter aprofundado a inimizade entre os dois. João Roberto conta o que ocorreu: “Brizola estava almoçando com o papai no restaurante da Globo, com aquela vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Brizola nunca falou nada. Teve um dia que o meu pai não aguentou e perguntou: ‘O senhor vem aqui e nunca comentou a nossa vista, uma coisa tão bonita, que comove qualquer um.’ E Brizola respondeu com uma frase de efeito: "Não é isso, Dr. Roberto, é que quando eu venho aqui, presto atenção no senhor.”  

Roberto Marinho é cumprimentado por Leonel Brizola após a missa de aniversário de 60 anos de O Globo, 29/07/1985. Anibal Philot/Agência O GloboRoberto Buzzoni, ex-diretor da Central Globo de Programação, recorda que esse episódio com Brizola ficou marcado na memória do empresário. “Um dia, para quebrar o gelo, eu me virei para ele e disse: ‘Esse Rio de Janeiro é lindo mesmo.’ Ele pegou a deixa: ‘Meu filho, você tem mais sensibilidade que o Brizola, que se sentou aqui e não reparou isso, embora fosse o governador do Rio de Janeiro.’"

O jornalista Roberto D’Avila, que conviveu durante muito tempo com Brizola, dizia que, no fundo, o ex-governador admirava o empresário. “Lembro que quando Dr. Roberto e dona Lily começaram a namorar, Brizola achou aquilo uma maravilha. E disse: ‘Esse homem é um espetáculo.'"

Os dois se reconciliaram em 2002. No ano seguinte, Roberto Marinho faleceu. No velório, Brizola falou: “Divergimos, sim. Para que o Brasil pudesse ser como nós sonhávamos.”