Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


Meio século

O Globo, 28/07/1975, p. 1. Arquivo / Agência O GloboAgradeço mais uma vez, através destas colunas, a generosidade dos amigos que tiveram a iniciativa de comemorar o cinqüentenário do O Globo numa reunião que, engrandecida pela presença de eminentes membros do governo e o que há de melhor nos mais expressivos setores da vida brasileira, adquiriu dimensões de um legítimo encontro nacional, demonstrando que o jornal fundado pelo gênio de Irineu Marinho e mantido pela estrita fidelidade aos ideais que o inspiraram constitui hoje ponderável fator de aglutinação do país em torno de suas mais nobres aspirações.

A oportunidade única das comemorações destes cinqüenta anos não pode ser perdida para mais uma tomada de posição e para algumas colocações fundamentais.

     Quando O Globo foi lançado — 29 de julho de 1925 — suas reduzidas páginas espelhavam as proporções do nosso país. A importação de automóveis, embora mínima, inquietava os brasileiros. Ford voltava as vistas para a nossa borracha e um grito de alarme caiu sobre a iniciativa. Era o início da malograda tentativa de extrair e exportar aquele produto perdido na difícil e então impenetrável selva amazônica. Outra imagem do país naquela época: impotente para explorar as suas riquezas, o Brasil era dominado pelo temor de admitir qualquer participação estrangeira na sua economia extrativa, como aconteceu com os minérios de Minas Gerais. Não se podia estimar, por falta de estatísticas, a renda per capita nem o Produto Nacional Bruto. Em 1960, no entanto, segundo os dados já colhidos, o PIB foi de 23,2 bilhões de dólares. Em 1975, ultrapassará folgadamente 80 bilhões de dólares. A renda per capita se situa hoje acima dos 700 dólares.

Éramos, na década de 1920, um país de pouco mais de 27 milhões de habitantes, dos quais 60% analfabetos. Em 1974, numa população estimada em 104 milhões de habitantes, essa taxa ignominiosa baixou para 20%. E assim tudo mais, O que aconteceu nesse período, e principalmente de 1964 para cá, foi uma redenção do Brasil.

A paisagem internacional sobre a qual nos debruçamos nesta hora justifica uma atitude de inquietação e de vigilância. Mas não de desânimo.

De um lado, o mundo democrático e capitalista se apresenta em grave crise econômica e social, enfrentando uma seqüência de dificuldades que estão a exigir contínua formulação de emergência num esforço que mobiliza todas as reservas de energia moral e espírito de criação das grandes nações européias e americanas. De outro lado, o mundo comunista, fechado em sua estrutura ideológica e militar, expande as suas fronteiras e a sua perigosa propaganda. Enquanto isso, as duas maiores potências de ambos os blocos selam, com o acoplamento de suas naves espaciais, uma détente cuja sustentação até o presente momento tem trazido benefícios mais ostensivos para a área socialista.

Diante desse quadro, é natural que se delineiem dúvidas sobre o futuro do regime liberal e do sistema capitalista.

Todavia, se observarmos mais atentamente esse panorama, poderemos fazer algumas constatações bastante animadoras. Um regime político capaz de resistir a um escândalo do porte de Watergate é praticamente inexpugnável. Um sistema econômico que encontra saída para a crise que atingiu fundamentalmente o seu abastecimento de energia, multiplicando vertiginosamente os seus custos de produção, pode não ser perfeito, mas não é superado por nenhum outro já posto em prática em qualquer tempo.

Além disso, impõe-se registrar as modificações que se processam na ordem econômica dos países socialistas, ora evoluindo para a descentralização, forçada a aceitar o restabelecimento das leis do mercado e adequando as suas empresas às normas de administração e de produção das grandes companhias do Ocidente. Ao mesmo tempo, as figuras mais preeminentes no campo das artes, da literatura e das ciências manifestam a sua crescente necessidade de se libertar do guante dos dogmas marxistas.

            Tais fenômenos significam, de modo inequívoco, que a crise socialista é bem mais profunda. As suas dificuldades não estão nas circunstâncias que os países do mundo ocidental enfrentam, mas nos próprios fundamentos em que se alicerçam.

            Nessas condições, podemos prever que até o fim da década o capitalismo terá sofrido as correções impostas pelas exigências da justiça social entre os indivíduos e entre os povos, e, paralelamente, o socialismo, para sobreviver, terá de se adaptar cada vez mais aos métodos de produção do Ocidente e, bem assim, aos imperativos da liberdade individual e da autodeterminação nacional.

À luz dessas perspectivas, temos motivos para estar tranquilos com os rumos atualmente imprimidos à vida brasileira. O modelo que adotamos, procurando conciliar o crescimento do produto com a paulatina e prudente distribuição da riqueza, e, por outro lado, conjugando a necessidade de intransigente defesa da ordem interna com a salvaguarda dos direitos essenciais da pessoa humana, atende aos anseios da nação e às diretrizes do nosso tempo.

No instante em que o Brasil se encaminha para o desenvolvimento econômico e social, com o aperfeiçoamento de suas instituições, a atitude que nos parece condizente com os nossos cinqüenta anos de lutas é a de unir os nossos esforços aos do governo e todo o povo no sentido de acelerar a caminhada do Brasil para o seu destino de nação de primeira grandeza.

 

Roberto Marinho. O Globo, 28/07/1975