Família

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Roberto Pisani Marinho nasceu no dia 3 de dezembro de 1904. Foi o primeiro dos cinco filhos do jornalista Irineu Marinho Coelho de Barros e da dona de casa Francisca Pisani Barros Marinho, chamada por todos de D. Chica. Tinha uma admiração incondicional pelo pai, de quem seguiu a profissão de jornalista. Da mãe italiana, herdou o faro e o impulso nos negócios. Pai, avô, bisavô, foi uma referência para os filhos, hoje dirigentes das Organizações Globo que levam adiante o legado deixado pelo empresário. 


Netos

Roberto Marinho deixou 12 netos e seis bisnetos até 2013. Em entrevista ao Memória Globo, os netos Paulo Marinho, filho de José Roberto, e Roberto Marinho Neto, filho de Roberto Irineu, lembraram momentos ao lado do avô e desmistificaram a impaciência dele com crianças.

Roberto Marinho e Ruth Marinho com os netos, 01/1981. Arquivo/Memória Globo“Acho que o meu avô não tinha paciência era com o barulho que a gente fazia”, comenta Roberto Marinho Neto.

Um homem firme, formal, determinado, preocupado com a educação dos netos, e carinhoso. É assim que Paulo e Roberto recordam o avô nos encontros que mantinham no Cosme Velho e no escritório dele na Globo. Nenhum dos dois tem a imagem do vovô “velhinho”, mas de uma pessoa vigorosa, cheia de vida e esbanjando saúde. 

Competitividade era outra característica que os netos lembram que Roberto Marinho tinha de sobra. “Ele sempre competia com os netos. Lembro em Angra dos Reis, a gente nadando, e ele querendo ser o melhor nadador. Queria fazer a competição de quem conseguia ficar mais tempo debaixo d’água. E muitas vezes, ele vencia”, conta Roberto. O primo lembra que foi desafiado pelo avô para uma corrida. Paulo tinha sete anos, e Roberto Marinho já com 80. “E ele me ganhou!”

“Ele sempre nos chamava para conversar. E a primeira pergunta era: ‘como vão os estudos?'." (Paulo Marinho, neto)

Quando iam visitar o avô na casa do Cosme Velho, os netos tentavam demonstrar maturidade. Roberto Marinho era formal. Gostava de elegância à mesa e na maneira de vestir. Mas se permitia ter momentos de descontração: quando cumprimentava os netos, dava “tapinhas” nas bochechas deles. “Ele sempre nos chamava para conversar. E a primeira pergunta era: ‘Como vão os estudos?’ Eu, meio rebelde, era cabeludo. E ele perguntava: ‘Quando vai cortar esse cabelo?’  Meu avô não gostava de nos ver largados nem relaxados”, recorda Paulo, que diz ter herdado do avô valores fundamentais: "A dedicação com as questões nacionais, com o lado cultural, a promoção da felicidade. A excelência em todos os sentidos.”.

Rodrigo Marinho, filho de João Roberto, lembra de uma história do avô com relação ao mergulho: “Uma vez, a gente estava chegando do passeio, e ele estava mergulhando em frente à casa. Ele nos viu e resolveu fazer uma demonstração, passar por baixo do casco e aparecer do outro lado. Acho que ele já tinha 80, 82 anos. Quando ele afundou, para sair do outro lado, meu pai falou: ‘Não aplaude. Senão ele vai querer fazer de novo!’. Imagina, cheio de convidados dele, todo mundo começou a aplaudir para agradar. Quando a gente menos esperava, ele já tinha afundado, de novo, para sair do outro lado. Tinha uma outra coisa: lá em Angra, volta e meia umas pessoas apareciam com uns protótipos, uns ultraleves para oferecer a ele. Muitas vezes nem era comprovada a segurança do negócio, e ele sempre ia. Era só aparecer lá, e ele entrava, não queria nem saber.”

“Meu avô foi um grande brasileiro. Fez questão de fazer uma TV com conteúdo de brasileiros para brasileiros.” (Roberto Marinho Neto)

Ética, qualidade e felicidade são parte da herança deixada por Roberto Marinho que vem sendo seguida por ambos os netos. Para Paulo e Roberto, o avô foi um exemplo de dedicação ao país e ao povo brasileiro. “Meu avô foi um grande brasileiro. Fez questão de fazer uma TV com conteúdo de brasileiros para brasileiros. Na minha lembrança, cai um pouco o lado 'Dr. Roberto' e fica o avô carinhoso, atencioso e que deixou um legado que a nossa família trata com muita responsabilidade,” diz Roberto Marinho Neto.

Os netos Stella, Rafael, Nina e Ignácio Marinho têm lembranças bem distintas do avô. Ignácio, filho de José Roberto, tinha nove anos quando Roberto Marinho faleceu. E na memória do garoto ficou guardada uma atitude heroica do jornalista: “Destaco aquela história ‘dos meus comunistas, cuido eu’, quando meu avô enfrentou as autoridades que diziam que tinha gente de esquerda trabalhando no jornal.”  Ignácio diz que não teve muito tempo de construir uma relação com Roberto Marinho, mas acredita que herdou dele a serenidade. "Não fico de cabeça quente fácil. E me sinto orgulhoso de ser parte desse legado. Um privilegiado. Acho inspirador e incrível o lado dele de construir do zero.”

Stella, filha de Roberto Irineu, estava com três anos. Do legado de Roberto Marinho, admira a fundação da Globo. “Mostra as notícias do país e do mundo, e eu adoro as novelas.” Além da referência do avô serem as empresas que ele criou, principalmente a Globo, o jornal O Globo e a rádio Globo, Rafael, irmão de Stella, revela a imagem que mais gosta do jornalista: “É a foto dele inaugurando o Projac. Em pé, segurando a claquete.”

“Quando penso no meu avô cavalgando, eu penso que também amo cavalo. Tenho orgulho. Gosto de ser neta dele.” (Nina Marinho, neta)

Nina, filha mais nova de José Roberto, tem a curiosidade de uma criança de oito anos. Ouviu muitas histórias sobre o avô: “Ele colecionava um monte de quadros. Fui no guarda-roupa dele, vi a roupa de borracha que ele usava para mergulhar, as máscaras. Teve uma vez que minha escola pediu que a gente se vestisse de campeão. Fui na casa do Cosme Velho e peguei o chicote de cavalgada. Mostrei na escola que o meu avô era um campeão. Quando penso no meu avô cavalgando, penso que também amo cavalo. Tenho orgulho. Gosto de ser neta dele.”

Para Flávia,  primogênita de José Roberto, as recordações mais fortes são relacionadas ao esporte. “Ele mostrava a panturrilha, que era fortíssima por causa do hipismo; mostrava o peito desenvolvido pela prática dos mergulhos.” As aventuras esportivas, a alegria nas datas festivas, as brincadeiras na praia, o jogo de gamão e a paixão pelo Flamengo estão guardados na memória da neta. Do avô empresário, ela tem poucas referências. “Ele quase não falava das empresas. Acho que tentava se desligar de todo o resto quando estava com a gente.”

“Ele quase não falava das  empresas. Acho que tentava se desligar quando estava com a gente.” (Flávia Marinho, neta)

Linha dura com os namoros da neta, Roberto Marinho foi um avô preocupado com os estudos dos herdeiros. O caráter, a calma, a seriedade, a luta pelos ideais, a coragem de executar projetos, independente da idade, e a vontade de levar educação aos brasileiros são traços do jornalista que Flávia nunca vai esquecer. “Esse legado do meu avô, eu vou seguir."

Luiza Marinho, João Roberto Marinho e Roberto Marinho no aniversário de 4 anos de Luiza, 1986. Acervo pessoal de Luiza Marinho 
Luiza, filha de João Roberto, herdou do avô a paixão pelos cavalos e disse que Roberto Marinho gostava de corrigir a postura dela quando a via saltando, ou nas fotos que ela mostrava para ele. “Meu avô era apaixonado por cavalos. Uma vez,  pediu para o meu pai o telefone do Tamborete, o tratador. Queria comprar um cavalo para voltar a montar. Ele estava com 92 anos!" 

A filha de João Roberto, Paula, não tem dúvidas: o avô foi um vencedor na vida e nos esportes. “Na praia, nas corridas, ele ganhava de verdade. A gente até que tentava, mas ele detestava perder. Desafiava a gente mesmo, mostrava os braços durinhos... Era um avô que buscava estar presente. O que ele não pôde curtir com os filhos, aproveitou com a gente.”

“O que ele não pôde curtir com os filhos, aproveitou com a gente.” (Paula Marinho, neta)

Paula tem lembranças divertidas de Roberto Marinho. Nem todas relacionadas à infância. “No dia do meu casamento, ele também foi receber os cumprimentos ao nosso lado. Subiu num tabladinho. E se formou uma fila quilométrica. Todo mundo queria cumprimentar o Roberto Marinho.” 

Paula Marinho, após prova de hipismo, com Roberto Marinho e cavalo dado por ele, 1999. Acervo pessoal Paula Marinho


Quase toda a família seguiu os passos do jornalista no gosto por animais. Cavalos, carpas, flamingos, até macacos faziam parte do universo de Roberto Marinho. Seja no Cosme Velho ou na casa de Angra dos Reis, lá estavam os bichos. “Ele tinha uma macaca chamada Leila. Eu não gostava muito do olhar dela. Uma vez, em troca de um cavalo de presente, meu avô me fez apertar a mão da Leila, para eu perder o medo”, lembra Paula.

Paula fala da paixão do avô pelo jornalismo. E, com ternura, cita os momentos em que ele reunia os netos para assistir ao telejornal preferido. “É uma recordação forte. Ele juntava os netos em volta dele, em Angra dos Reis, para assistir ao Jornal Nacional.” Paula não confessa, mas essa também poderia ser uma maneira de o avô manter os netos unidos e quietos.

Sofia é bisneta. Só lembra do avô pelas histórias contadas pela família. “Eu estava começando a andar, e soube que ele falava ‘segurem a Sofia, segurem a Sofia’." A filha de Paula tinha um ano quando Roberto Marinho faleceu. Gosta de mergulhar, como o avô, mas nem tanto de cavalos. Quer manter vivos os hábitos do jornalista: “Quero voltar ao Cosme Velho para rever os flamingos. Espero continuar  também a coleção de arte, para virar uma tradição de família.”

“Quero rever os flamingos e continuar a coleção de arte, para virar uma tradição de família.” (Sofia Marinho, bisneta)   

As lembranças que a família tem de Roberto Marinho são muito semelhantes. E uma delas está presente nos depoimento dos filhos, dos netos e da bisneta: o jornalista era um competidor nato. A neta Isabela, filha de José Roberto, fala que, mesmo numa partida de cartas, o avô não aliviava os jogadores. “Meu avô gostava de jogar buraco. E a Lily sempre o deixava ganhar. Discretamente, senão ele ficava chateado.”

Luiza relembra os jogos de gamão com "vô Roberto": "Ele me ensinou a jogar gamão. Eu era pequena, tinha sete, oito anos, e ele ganhava sempre. Mas um dia, eu ganhei. Falei para o meu pai que ele, provavelmente, deixou que eu ganhasse. Meu pai disse que duvidava, que ele não era de deixar os outros ganharem."

Maria Antônia, filha de Roberto Irineu, lembra que o avô gostava de competir em tudo: "Quando eu ia ao Cosme Velho, ele dizia: 'Como estás alta!' E subia no sofá para falar comigo, na minha altura. E não queria que ninguém ajudasse. Ele subia e dizia: 'Agora acho que posso te cumprimentar'." A relação dele com seus cavalos é outra recordação marcante para Maria Antônia e para os netos do jornalista. “Ele tinha um cavalo chamado O Globo. Era velhinho, tanto quanto ele, e morreu um mês depois do meu avô.”

“Foi um prazer, um privilégio ter tido uma relação próxima com ele.” (Isabela Marinho, neta)

Além da competitividade, os netos são unânimes em afirmar que uma das principais características de Roberto Marinho era a generosidade.

Isabela lembra o avô generoso nos almoços de domingo na casa do Cosme  Velho. Diz que ele gostava de fazer piadas e dar presentes no Natal e nos aniversários para todos da casa. De Londres, Inglaterra, onde mora atualmente, a filha de José Roberto reconhece no avô um visionário. “Ele criou uma empresa, a Globo, elogiada no mundo inteiro. Isso não teria sido possível sem as grandes ideias dele. Muitos brasileiros na Europa têm orgulho de ver uma empresa de qualidade da nossa terra. Com profissionais de altíssimo nível. Foi um prazer, um privilégio ter tido uma relação próxima com ele. E ser parte dessa família.”