Empreendedor

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Da oficina à administração, Roberto Marinho conhecia toda a engrenagem do jornal O Globo, sua primeira empresa de comunicação, fundada pelo pai em 1925. Aos 27 anos, assumiu o cargo de diretor-redator-chefe. O Globo, que hoje forma com o Extra e o Expresso a empresa Infoglobo, foi o ponto de partida para o conjunto de empresas denominado Organizações Globo. Uma delas, a TV Globo, inaugurada quando ele tinha 60 anos, deu origem a uma das mais importantes redes de televisão do mundo. 


No Globo

Uma dessas histórias envolveu o então diretor de redação do Globo, Evandro Carlos de Andrade. Quem  rememora é Roberto Irineu: “Papai deu um artigo que havia escrito durante a madrugada para o Evandro ler. Evandro foi para a sua sala, depois voltou com o artigo na mão e disse: ‘Dr. Roberto,  posso ser sincero?’ Papai disse: ‘Não muito.’ E, evidentemente, o artigo não foi publicado”.

Precavido com as questões políticas, Roberto Marinho, muitas vezes, discordava da divulgação de determinados assuntos no jornal. Quando a reportagem era relevante, os editores insistiam, e ele cedia. Com ressalvas. “Publica", dizia ele, "mas discretamente”.

O jornalista José Augusto Ribeiro, que foi editor de Política do jornal, conta um episódio que aconteceu em 1974, quando Roberto Marinho acusou o próprio jornal de parcialidade: "Vocês só publicam coisas da Arena e do Governo. Eu não encontro notícia da oposição no Globo. Por que vocês estão fazendo isso?" José Augusto Ribeiro, então, disse: "Dr. Roberto, eu me sinto admoestado. Vou corrigir esses erros pelos quais o senhor está me criticando. Vou botar noticiário da oposição." E Roberto Marinho completou: "Mas com jeito, com jeito. Não  vai exagerar, não.”                

O jornalista Carlos Lemos se lembra do controle que Roberto Marinho exercia sobre os assuntos publicados no jornal: “Ele ligava todo santo dia para saber a manchete do Globo. Numa sexta-feira, eu o atendi ao telefone e passei o assunto. Ele respondeu: 'Então, amanhã eu telefono.’ Eu disse que estaria de folga, e ele retrucou: ‘Quer dizer que você vai faltar ao trabalho amanhã?’ Era o patrão mais correto que eu já tinha visto. Jamais atrasou um tostão.”

Roberto Marinho examina terminal de vídeo na redação do jornal O Globo, 27/07/1985. Antônio Andrade/Agência O GloboColunista de O Globo e ex-diretor de redação, Merval Pereira falava com Roberto Marinho todos os dias na época em que era o editor de Política do jornal. Ele ligava toda noite para saber qual era a manchete, e, muitas vezes, mandava mudar. “Ele tinha a rédea curta. O jornal não saía sem ele saber todos os assuntos. E ele, nessa época, escrevia muitos artigos, editoriais – e queria sempre na primeira página. A gente tinha muita discussão com ele sobre a estética do jornal. Eu ponderava: 'Dr. Roberto, não vai dar, está muito grande esse texto aí.' E ele dizia:  ‘Dá, meu filho, dá.' Nessa época, João Roberto já estava no jornal, e ele era o nosso intermediário com o Dr. Roberto.”

Luiz Garcia, que foi editor-chefe e também é colunista de O Globo, ficava impressionado com a atenção de Roberto Marinho ao ouvir a leitura dos editoriais, pelo telefone: “Às vezes, era um editorial de três laudas. Você lia aquele editorial de três laudas, monocórdio. Acabava, ele dizia assim: ‘Ah, está muito bom. Naquele parágrafo que começa assim, acho que a palavra deve ser esta e não aquela.’ Ele tinha uma capacidade de prestar atenção impressionante."

E dos funcionários, Roberto Marinho exigia a mesma atenção que tinha com o conteúdo das reportagens. O jornalista George Vidor lembrou que o colega José Augusto Ribeiro foi uma das vítimas da observação implacável do empresário. “José Augusto recebeu a incumbência do Dr. Roberto Marinho de sempre assistir ao Jornal Nacional. E ele dizia assim: ‘Olha, na hora do Jornal Nacional, não quero que você atenda telefonema de ninguém, nem meu.’ E José Augusto cumpriu isso à risca: durante quatro, cinco anos, não atendia o telefonema de ninguém na hora do JN. Num belo dia, a secretária chamou José Augusto para atender o Dr. Roberto. E o jornalista acabou levando uma bronca: ‘José Augusto, você não está vendo o Jornal Nacional? Eu não falei para você que, quando der o Jornal Nacional, você não atende o telefone, nem meu? Então, volta para lá e vê o Jornal Nacional.’"