Economia

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Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre economia brasileira, planos econômicos, desenvolvimento nacional, entre outros.


Nova tentativa

O governo, na iminência da hiperinflação e da balbúrdia instaurada na economia, optou por repetir a experiência do Plano Cruzado, adotando um novo congelamento geral de preços, salários do funcionalismo, serviços e câmbio, precedido por uma maxidesvalorização.

Decidiu-se a assumir unilateralmente a responsabilidade de um plano de combate à inflação. Desistiu de implementar juntamente com as lideranças sindicais e empresariais um sistema de controle mediante uma política de rendas articulada com políticas fiscais e monetárias.

Essa decisão não deverá ser interpretada como uma postura de confronto com a sociedade. Mas como o empenho de acelerar o atendimento à opinião pública que, numa percentagem de 87%, segundo pesquisa do IBOPE, considerava necessária outra tentativa de contenção do custo de vida.

Cabe observar que, na mesma pesquisa, constatou-se a descrença de 67% da área consultada no êxito de um novo plano. Essa dúvida seria conseqüência de que a inflação acumulada desde 1985 tornou-se insuportável, bastando ressaltar que um bem que no começo do mandato do presidente custava o equivalente a CZ$ 100 passou a custar CZ$ 24.138,23.

A fim de conter essa escalada, o governo voltou-se para as suas experiências anteriores, procurando não incidir nos erros que ocasionaram o fracasso dos planos Funaro e Bresser. Nesse sentido, resolveu não conceder abono salarial, evitando a explosão de demanda que poderia resultar do congelamento, e paralelamente manterá taxas de juros elevados para conter a formação de estoques e a corrida para ativos reais ou dólares. Admite-se que tais medidas possam provocar uma recessão temporária, porém os aumentos autorizados nos últimos dias reduzem a probabilidade de uma crise de abastecimento.

Com a maxidesvalorização cambial torna-se viável um incremento de exportações, compensando-se a retração do mercado interno e assegurando-se o nível de reservas necessário para honrar os compromissos com os bancos credores. E possível que, diferentemente do primeiro Plano Cruzado, quando ocorreu uma expressiva distribuição de renda para os assalariados, verifique-se agora uma transferência substancial para o setor financeiro, em detrimento das atividades produtivas. Caberá s autoridades acompanhar a evolução do programa para evitar que essas tendências resultem numa perturbação maior nas atividades econômicas.

Sarney, no seu pronunciamento à nação, deixou de lado, com realismo, a idéia de dar amplitude à reforma administrativa. Extinguiu apenas os ministérios que criou, cônscio de que a reforma terá vigência provisória, pois o seu sucessor certamente empreenderá uma revisão mais profunda e adequada aos seus próprios objetivos.

Ao se animar, pela terceira vez em seu mandato, a substituir as leis do mercado por um sistema de linhas de ação tendentes a enfrentar a crise que aflige o país, o presidente deu uma demonstração de coragem cívica, de modo que o término do pacto não pode significar a suspensão do diálogo. Impõe-se a todos os segmentos da nação colaborar para o acerto das propostas ora apresentadas ou para a sua eventual correção ou complementação.

 

Roberto Marinho. O Globo, 17/01/1989