Imprensa e comunicação

Imprensa e comunicação

Seleção de artigos, editoriais, entrevistas e discursos do jornalista e empresário Roberto Marinho sobre imprensa e comunicação. 


O dia que faltava

O Globo, 02/07/1972, p. 1. Arquivo / Agência O GloboO Globo passa a circular aos domingos. Era uma etapa cuja efetivação não mais podíamos adiar. Desde que este jornal tomou consciência de que atingira a plena identificação com a opinião pública nacional, concretizando os nobres ideais que haviam inspirado o seu fundador, impôs-se o dever de ampliar incessantemente a sua rede de informações, na medida do crescimento do país. As atuais dimensões do complexo de comunicações de O Globo não precisam ser assinaladas. Faltava-nos, porém, alguma coisa.

Se somos, de segunda a sábado, o jornal lido em todo o país, em toda parte, mas que se fixa no lar, jornal da família que é, como se explicaria que O Globo prosseguisse privando os seus leitores, aos domingos, da continuidade de sua presença?

O dia de descanso existe para assegurar o nosso mais demorado reencontro com o mundo. Nos dias comuns, somos absorvidos pelo imediato, por força das obrigações rotineiras que mal nos dão tempo para olhar em volta. Principalmente numa hora como esta, de consolidação do desenvolvimento econômico e social do país.

Aos domingos, podemos desviar mais calmamente os olhos para os outros e para a vida que se estende além das nossas circunstâncias habituais. E a função do jornal é também esta: trazer à presença do leitor os acontecimentos e paisagens que lhe estão distantes.

Nos dias de trabalho, por um imperativo de ordem econômica, todos nos dividimos no exercício das diversas tarefas e responsabilidades sociais. Cada leitor se identifica como industrial, militar, funcionário, trabalhador. No domingo, rodeado da família, na paz do lar, pode sentir-se apenas pessoa humana, um brasileiro. 1lata-se, portanto, do dia em que é possível voltar-se para os valores espirituais e nacionais. Por esse sentido mais profundo é que o domingo foi tradicionalmente considerado o dia de Deus e da comunidade.

Um país não cresce apenas com a divisão do trabalho. Cresce também com a união das consciências. Impõe-se, pois, que nos preocupemos em complementar o nosso progresso material com aquilo que já se denominou “suplemento da alma”.

            Com o objetivo de atender a essa preocupação e numa demonstração de confiança nos destinos do nosso país, é que fica criada, com este número, a edição dominical de O Globo.

 

Roberto Marinho. O Globo, 02/07/1972